Arnaldo Jabor
Quem faz o favor de me ler, talvez saiba que meus professores de sexo foram Bené, o pipoqueiro conquistador de empregadas, e Alfredinho, o aleijado de tórax musculoso, torneado pelas muletas que ajudavam suas perninhas secas. Meus escassos leitores sabem que eu era um garoto nos anos 50, querendo aprender sobre o sexo, pecado terrível naquele tempo. Pois bem, numa noite ventosa que fazia silvar a luz lunar da carrocinha de pipocas de Bené, eu ouvia a palavra nova: rendevu. Alguns talvez não saibam que a palavra vinha do oblíquo francesismo maison de rendez-vous (casa de encontros) ou em português mais clássico: bordel, lupanar ou prostíbulo. Senti que ali estava minha nova floresta de aventura. Naqueles tempos tristes, no rendevu devia morar a verdade. Tudo que me era escondido por pai, mãe, tias, estaria ali visível, decifrado pela crueza do pecado. Havia pais que levavam os filhos para a primeira mulher, mas o meu não. Se me oferecesse eu teria recusado, pois me soava covarde ir pela mão do pai, como se vai a um médico ou dentista a primeira vez. Assim, fui ao meu primeiro rendevu com meu amigo Cabeção, também virgem, deixando o Bené e Alfredinho olhando-nos descrentes na carrocinha, nós dois, cabelinhos penteados com quina petróleo, camisa nova dobrada na manga curta e pente no bolsinho. Eu não tinha um tostão, mas Cabeção tinha boa mesada, se bem que ele cruelmente logo declarou que iria só para olhar e que se alguma mulher me quisesse no amorzinho, tudo bem; senão, azar meu. Ali na rua Correa Dutra tinha um revendu . Na Rua Pedro Américo tinha outro. Fomos na Correa Dutra. Hoje, os bordéis são sauna relax for men com nomes em neon tipo Crazy Love, cheio de vedetes de maiô de oncinha mas, naquele tempo, o prostíbulo se envergonhava de sê-lo e se disfarçava de casa de família. Minha primeira surpresa ao subir as escadas tontamente, foi encontrar uma grande sala de visitas, de assoalho encerado, quadros na parede e um silêncio espantoso. Não havia um sinal de crime no ar, nem de alegria, nem de música, nem sombra das artes do demônio. Em volta da grande sala, em silêncio triste, como num velório sem caixão, sentavam-se umas trinta mulheres, de pernas cruzadas, olhando para um bando de otários de terno, bigodinhos, cabelos com glostora, amontoados na porta do corredor. Eram os fregueses, travados em constrangimento, com olhares galantes para as mulheres que esperavam, como numa ante-sala de dentista. De vez em quando, um sujeitinho se adiantava mais num galeio pela sala e fazia um sinalzinho disfarçado em direção a uma mulher sentada. A mulher se erguia com visível enfado, como para um sacrifício (seu mau humor era uma homenagem à virtude perdida), e ia subindo a escada com o sujeitinho atrás. Eu e o Cabeção olhávamos para cima e víamos o casal, a mulher de vestido justo tomara-que-caia rebolando profissionalmente. Lá em cima é que acontecia tudo, pensávamos, imaginando o célebre salão de espelhos... O clima era de tensão total, como numa delegacia, numa sacristia.
A vida pecaminosa só florescia na triunfante figura obrigatória em todos os puteirinhos da época: o veado, o pau-para-toda-obra dos bordéis, o faxineiro, o conselheiro, o guardião do lar das mulheres, o bedel, o toque de cinismo alegre da vida fácil. O veado de bordel falava alto, era boa donade casa, fazia as compras, se metia com fregueses e, estranhamente, fazia um tipo assim, digamos, coquete, sério, como se fosse uma mocinha virtuosa no meio das decaídas. Olhava com desprezo ostensivo os bofes frequentadores e não dava confiança para gozadores, sempre com a língua afiadinha para uma resposta: eu hein, Rosa? Sai para lá, cafajeste! Eu, graças a Deus, sou pobre mas tive boa educação. O veado de bordel era um pouco a mãe daquele bar. Uma mãe zelosa, ferina, vivida, era um personagem secundário e principal, catando sua felicidade entre vasos sujos e papel higiênico nos quartos, para suportar sua solidão terrível de veado dos anos 50 (bruta época para os gays...). O veado passou, atirando-nos a língua aguda: Chiii! hoje isto está um jardim de infância ... Santa Maria! E lá se foi ela, carregando o balde sujo, dentro da camiseta justa, seu rabo de cavalo e sua calça pré-saint tropez. A gargalhada do veado e dos bofes próximos queimou os brios do Cabeção que, com o dinheiro do pai no bolso e, num requebro que imitava o toque de Bené no cabelo lustroso, chamou uma moreninha com cara de índia paraense. A moça se ergueu ao meu lado. Sem ar, vi o Cabeção subir as escadas com ela, me jogando um olhar de triunfo.
Fiquei ali embaixo, sem um tostão, esperando o Cabeção perder sua virgindade lá em cima. Fiquei desamparado sem ele, mas tive um surto de excitação pelas mulheres sentadas na sala, um ímpeto narcísico que me fez aparecer à frente do grupinho de otários atravancando o corredor. As mulheres notaram minha súbita allure e começavam a me enviar sorrizinhos e piscadas de olhos, para o fogoso rapaz que aparecera. No entanto, cada sorriso e piscadela me doíam fundo, fazendo mais vazio meu bolso, onde eu só sentia as moedinhas do ônibus, o que logo desmanchou minha pose, fazendo-me re-mergulhar no anonimato, entre os rapazes de terno... (ia-se ao puteiro de terno!...).
Foi quando, ohhh coração trêmulo, uma das moças, uma lourinha magrela, de vestido saco, se enrabichou por mim... Levantou-se, passou faceira a meu lado e sumiu nos fundos da casa, sorrindo-me convidativa. Gelou-me a alma sem dinheiro. Fiquei por ali, enquanto o veado reclamava da aglomeração de homens: Ihhh!... ninguém vai subir não? Isso aqui não é fila do açougue não...aqui é pra trabalhar, minha gente!... Eu disfarçava minha aflição com Continentais sem filtro, apalpando no bolso o dinheiro da condução. Nada do Cabeção aparecer. Onde estaria minha lourinha magrela e triste? Fui me esgueirando até a porta dos fundos do corredor. Fingindo de bobo, abri a porta. Era uma cozinha escura onde, numa mesa com linóleo quadriculado, umas putinhas jantavam. Estavam comendo macarrão, no prato de alumínio. A lourinha magrela me sorriu: E aí, não vai fazer um amorzinho?..., sorri amarelo. Está servido? Não, obrigado... já jantei..... Experimenta a sobremesa, então.... E de repente me vi comendo um pedaço de goiabada num pratinho, mudo de medo. Foi quando ouvi a gritaria lá em cima. O Cabeção estava descendo a escada atarantado, escorraçado pelo veadinho.
Saímos de cambulhada, enquanto a índia, com uma cara guerreira e xavante, berrava: Que desaforo!. No ônibus, o Cabeção me explicou que brochara e quisera pagar só a metade do miché, para indignação da xavante e xingamentos do veado. O Cabeção chorava no ônibus, sem o dinheiro do pai, e os dois voltamos virgens para casa. O Cabeção chorando de raiva e eu com gosto de goiabada na boca.





