Arnaldo Jabor
Douglas MayerEstou coberto de vergonha. Eu, que sempre me orgulhei de falar inglês bem, cometi um erro terrível na semana passada: no artigo onde tentava fazer graçolas políticas com Clinton e de nossa dependência, diante de seu pintinho tão voraz, traduzi bimbo (gíria que designa mulher vulgar ou galinha) por pênis. Eu que me orgulhava de saber complexos versos de Shakespeare e que tantas vezes venci em competição de significados o grande Tom Jobim, cometi esso erro ignóbil. Se alguma atenuante mereço. Eu diria que a palavra bimbo cai como uma luva (ou camisa) no dito membro viril, seja ele de Clinton ou de qualquer cafajeste de minha juventude, de onde ressoa a palavra bimbada, significando o rápido pique de machismo batido na lebre mais próxima, como falavam os canalhas de então.
E isto me há de ser perdoado, a um homem cuja formação sexual foi feita pelo saudoso pipoqueiro Bené, nos idos de 1950, quando encostávamos em sua carrocinha para ouvir, entre estalidos de pipoca quentinha, as artes nobres das bimbadas famosas. O pipoqueiro Bené era olhado por nós com respeito fascinado e seu bigodinho carioca, raso e brejeiro, parecia um brevet de D. Juan ali da Urca (quantos se lembram do grande Bené, orgulhoso, baixinho, cabelo com glostora, um dente de ouro, papando as empregadas e até madames solitárias que se esfregavam na carrocinha quente, divididas na eterna dúvida: doce ou salgada? Bené nos contava as histórias mais profundas sobre sexo e amor, que bebíamos encantados, já que nossos pais e mães art déco jamais iam além da cegonha. Neste mister, Bené, o pipoqueiro, era ajudado por Alfredinho, o aleijado. Alfredo tinha as duas perninhas penduradas entre as muletas, mas ostentava um tórax invejável, devido ao exercício de se mover. E os dois, como uma dupla ensaiada, nos iniciavam nos mistérios da carne, se bem que Alfredinho era menos confiável, pois se gabava de aventuras inverossímeis que, dada a sua condição de deficiente físico, nos pareciam fantasias compensatórias para a sua infelicidade.
Bené, não. Esse, enquanto enchia os saquinhos de pipoca, dentro de seu aventalzinho branco, nos ensinava, por exemplo, que a punhetinha, se batida com a mão debaixo da perna, era melhor pois fazia-a dormente e aumentava o prazer, parecendo a dita punhetinha estar sendo batida pela mão de outrem, de preferência a bela mãe de algum amigo, ou da Terezinha de 15 anos que ele ambicionava, embora soubéssemos que era em vão por ser menina de outra classe social e loura, jamais para seu bico. E, muito menos para o bico de Alfredo, o aleijadinho, este sim, se esmerando em narrar aventuras rocambolescas, como a da mulher do major da Aeronáutica que ele afirmava ter bimbado, se lançando nas muletinhas, em pé, debaixo da escada que serpeava sob o flamboyant coberto de cigarras.
Pelas mãos destes dois mestres, fui sendo formado, aprendendo coisas fundamentais como da importância da vaselina ou do cuspe para imaginadas ações de sodomia em menininhas ou da necessidade de termos olhos de lince para distinguir quem era viado ou não, o medo máximo que nos rondava a todos e cuja simples menção como xingamento numa pelada de rua nos obrigava a lutas terríveis entre arranhões e gravatas. Se viados fôramos, eles nos advertiam, poderíamos acabar como o mendigo-bicha Amélia, andando com saco nas costas e sujo, que, segundo Bené, tinha dado mijo para a mãe beber no leito da morte, vingando-se da condição de viado excluído, o que lhe valera o castigo de Deus de ser mendigo, catando papel, revirando os olhos com arrebiques femininos pelas sarjetas. Bené e Alfredinho nos avisaram também dos perigos de uma estirpe de meliantes, os tremendos bocas-de-fogo, como eram chamados os comedores de meninos bobos, dos quais o mais temido era o Chita, ex-pracinha bissexual neurótico da Segunda Guerra que dava nos fundos de garagem ou nas pedras da amurada, se bem que - advertia Bené - comeu tem de dar e o olha que o Chita já comeu fulano e sicrano.
Pela sábia supervisão de Alfredinho, vimos pela primeira vez a fascinante revista de sacanagem Saúde e Nudismo, toda em monocromatismo azulado, que nos arregalava os olhos diante de mulheres suecas fora de foco, deitadas de lado em rochedos da Escandinávia. O sexo que íamos aprendendo não tinha esta invejável liberdade dos garotos de hoje, o sexo era um corredor secreto, um filme de suspense, uma espécie de crime feito em fundos de quintal. Foi Bené que me explicou a camisa-de-vênus que eu achara no banheiro de meus pais, bola de encher leitosa, prova do pecado de minha mãe, que me valeu noites de insônia e rancor de menino traído pela mãe sem pudor.
Alfredinho, mais culto que Bené, nos decifrou as figuras do livro de medicina legal que um amigo roubou do pai advogado e levou para a furtiva luz amarela do pipoqueiro, na noite da Urca. Ali, na luz do carbureto, víamos os corpos brancos dos mortos nus, da mulher de seios arrancados, do viado que se matou com o fio da tomada no ânus carbonizado, do homem de saco gigantesco e, supremo trauma infantil, a foto do hermafrodita, com a tarja negra sobre os olhos, sorrindo tristemente sobre seu duplo sexo pendurado. E foi ali, na luz febril do carbureto, que eu fui estimulado a tentar minha primeira conquista, a de Angelita, menina pálida, filha de um espanhol da padaria, que me fitava sempre com olheiras negras, segurando a sainha suja. Estimulado por Alfredinho e Bené, tomei coragem e, uma tarde dentro do sotão de sua casa, entre baús e com um velho manequim me olhando, trocamos cuspe dentro da boca um do outro e me permiti tocá-la sob a calcinha, cheirando depois os dedos que, até hoje, me trazem de volta um odor tênue e úmido, um visgo de seiva de planta e que (eu senti) era o primeiro sinal de uma viagem pelo amor e carne, do mundo - doce ou salgado - que me esperava. Para Bené e Alfredinho, claro, falei de grandes gestos viris, e nada disse sobre as lágrimas de Angelita e de meu pavor do manequim me olhando, nem da fuga pela escada poeirenta sob a voz do espanhol, nem que Angelita nunca mais me fitou com seus olhos tristes. Usei bravamente apenas os palavrões que aprendera com eles, sentindo já em meu lábio o tremor de um bigodinho viril, como o do Bené.
Tudo isso me veio desta palavra ambigua - bimbo. Vejo que Clinton, se não nos tira da miséria e da exclusão, se quer apenas nos vender bimbo e outros badulaques, pelo menos serviu para esta pipoca proustiana. Meu Deus, eu ia escrever sobre uma entrevista do Alan Greenspan do FED e acabei falando do pipoqueiro e do aleijadinho. Foi melhor.





