NOVA DIREITA QUER QUE O BRASIL ‘‘SE ARROMBE’’
Forma-se a aliança Maluf-Quércia-MR8-Fisológicos urbanos e rurais e PT contra a reforma do país
Paulo Maluf declara nos jornais: ‘‘Quero que FHC se arrombe!’ Maravilhoso ato falho deste homem que acaba de ser ‘‘arrombado’’ na próstata. Já tivemos a bala de Getúlio, já tivemos a psicose maníaco-depressiva de Jânio, já tivemos o vírus do intestino de Tancredo. Agora, temos a próstata de Maluf. A perda deste símbolo fálico auxiliar, entre os dedos ágeis de cirurgiões, pode ter reações invertidas. Pode deprimir o operado com o fim da ejaculação, mas pode virar uma formação reativa para uma macheza tardia e vingativa. Daí, a frase: ‘‘Quero que (‘‘como eu’’) FHC se arrombe!’ Depois da próstata arrancada, é necessário urgência de atingir um topo, um clímax, uma ereção, um orgasmo de poder político. Maluf tem um charme árabe que eu, de avô libanês, compreendo. Entre esfihas e quibes, chega a comover a persistência deste narcisismo, estes uivos de amor e lágrimas de tribo beduína. Então, pergunta-se: qual será o programa de Maluf?
Um Bonde para Todos
Seu ideário não passa de uma listagem ‘‘clean’’ de eficiências caretas, viadutos, ternos limpos e gravatas evangélicas, somados a um desejo antigo de ser presidente, prometido a mãe. A ideologia de Maluf é Maluf. Tudo se justifica, qualquer aliança é benvinda para que Maluf um dia, de faixa presidencial no peito, queixo ao infinito, chore no centro do Complexo Viário Maria Maluf: ‘‘Mamãe, eu estou no topo do mundo!’, como no filme.
A utilidade prática de Maluf é que ele não tem programa político algum. É vazio como um bonde em busca de passageiros. No entanto, cabem muitas tendências neste veículo. E uma nova direita está pegando carona neste bonde. O pretexto aparente é a emenda da re-eleição. Mas é, no duro, a formação de uma frente careta, personalista, para instalar um cortejo de sabotagens contra as reformas no país. Mas, por que isto? Afinal, FHC como afirmam os ‘‘irmãos Marx’’ da USP e os jornalistas ‘‘chapas negras’’, já não estaria ‘‘aliado’’ à direita? FHC já não é o ‘‘agente do neoliberalismo’’, como querem os intelectuais orgânicos ‘‘gramscianos’’ do Quércia? Desejam suicidariamente uma direita à direita? Sim. Querem isso. Só que esta nova direita não tem a flexibildade ativa de conservadores como ACM por exemplo, que mesmo por métodos autoritários modernizou a Bahia; esta direita não tem a leveza modernizante que muitos liberais conseguem.
O mundo deles é mais sinistro e eles não suportam a mudança de ‘‘costumes’’ no Brasil. Esta direita é lunática, fanática e não suporta ‘‘outras palavras’’, o fim dos vícios coloniais, não suporta nada que abale o personalismo burguês ou o delírio pequeno-burguês correspondente. A nova direita se articula à propósito da emenda da re-eleição, mas sua ambição é maior.
Esta nova direita custou a ter clareza, depois de um certo atarantamento ideológico que atacou tanto conservadores como os velhos esquerdistas. Mas finalmente, pelo ‘‘elan’’ mussolínico de Maluf, por seu queixo erguido, suas lágrimas, seus chinelos no hospital, sua truculência personalista, surgiu um bonde em que oportunistas de várias estações podem subir.
Neste bonde entra Orestes Quércia, o homem que quebrou São Paulo e anda na rua livremente e que já se mostrou competente na convenção do PMDB, contra a emenda da re-eleição. Atrelado ao Quércia vêm pateticamente os remanescentes do MR-8, que conseguem por uma pirueta sutil de ideologias, transformar o ligeiro malabaristas Quércia em algo parecido com uma prótese podre entre JK e Ademar de Barros, uma espécie de sub-Jango que dá para maquiar como populista ‘‘progressista’’. De mãos dadas nesta ciranda, vem o espantoso masoquismo autodestrutivo do PT, o partido que deveria ter sido a cunha radical do PSDB, o irmão crítico de FHC em sua aventura e que, com 30 milhões de votos, preferiu virar uma espécie de ‘‘loja maçon’’, discutindo teorias mortas para ver se expulsa o Genoíno ou o Vaccareza.
A Direita Pastosa
Esta nova direita não tem o agudo braço esticado dos hitleristas, nem o ardor fascista dos ingênuos ‘‘galinhas verdes’’. Não é uma direita trágica, com programas de milênios arianos ou cruzes suásticas. É uma direita da ‘‘pastosidade’’. Para esta direita triunfar, basta que se impeçam as reformas do país, basta que se detenha a onda de energia popular que pode surgir de uma reforma da economia e que já se pressente nas concentrações populares, nos terreiros baianos, nos novos brasileiros que surgem com a abolição da escravatura da correção monetária e que começam a comer e a comprar. Esta nova direita não quer a democracia social.
O pretexto da luta contra a re-eleição serve para esconder que não querem uma mudança no ritmo da civilização brasileira, não querem uma injeção ‘‘calvinista’’ numa tradição ibérica molenga de 400 anos, não querem que floresça um espírito público. Esta ‘‘neo-direita’’ é careta e gorda, este pós mussolinismo do Jardim Europa, este fascismo barrigudo do Harmonia não precisa de desfiles de ‘‘SS’’ nem de rituais do ‘‘triunfo da vontade’’. Sabem que basta um bom bloqueio nos Congresso, para que a pastosidade secular da estupidez brasileira se mantenha, sabem que basta impedir as reformas para qe a bolha do Mesmo, a gosma dos bigodudos quatrocentões e suas mulheres de ouro e ‘‘chanel’’ se perpetue no ‘‘Leopolldo’’. E esta baba personalista faz uma ponte até o Nordeste com os velhos coronéis do latifúndio para, unidos, impedir que acaba o homem ‘‘cordial’’ e clientelista, fazem uma grande barriga patrimonial em arco, de Canapi ao prédio da Fiesp. E mais tragicômico ainda: abrem um vaga no estribo do bonde para a macumba superada dos comunas que depois de estragar o PT, não querem perder a ilusão de viver para uma religião bolchevista. Assim, se juntam velhos comunas, o, sindicalistas ignorantes, ex-guerrilheiros aposentados com malufistas e quercistas. Claro que Maluf jamais será presidente da República. Seu charme não ultrapassa o Tatuapé e os motoristas de táxi do Anhangabaú. Baianos e cariocas, vendo seu sotaque otário, sua vaidade banal, decretarão: ‘‘jamais votarei neste babaca!’ Mas, para impedir um país mais popular e democrático, tudo vale: ‘‘que o Brasil se arrombe’’. Este devia ser o lema da ‘‘neo-direita’’. Finalmente, a verdade veio a tona, na boca de Maluf ainda com um gosto de óleo de gergelim. A direita pastosa não precisa de programas. BAsta um bonde. Um bonde chamado Maluf.

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