Arnaldo Jabor
:Arquivo FolhaO João Ubaldo Ribeiro, conspícuo escritor e articulista, vai ficar com inveja de mim. Somos da mesma geração e, não me canso de repetir com orgulho, fui seu primeiro editor, na revista da UNE, de um conto chamado Josefina. João Ubaldo e eu somos vítimas deste terror cibernético diante de computadores ou de exímios pilotos como Rubem Fonseca ou Millor, uma Cora Ronai ou a bela internauta Maria Ercilia, chefe do poético UOL. Isto explica-se por sermos da época em que os telefones eram pretos e as geladeiras brancas, como disse Rubem Braga. No meu caso, deve-se também ao fato de que meu falecido pai, engenheiro e oficial da Aeronáutica ter tido o hábito de me ensinar as equações e raízes quadradas com minha nuca sob seu indicador e polegar, apertados como tenaz, apesar das queixas de minha doce mãe que chorava diante da severidade e dizia: Deixe o menino!. Ou seja, neste quadro pai-feroz-mãe-protetora eu podia ter virado um grande veado, como escreveu Caetano. (Eu prefiro viado, se bem que o mais correto é realmente veado, como afirmou Antonio Houaiss, a quem consultei uma vez e que me disse que veado vem de venatus, do latim, o macho da corça e que, talvez - aventou o professor - por ser de natureza passiva pode ter induzido ao nome. Ou seja, eu poderia hoje estar cantando numa boate sob o cognome de Cristina ou Suely, (Nada contra, hein amigos gays ...) mas, se tal não virei, restou-me a memória daqueles dedos amados e temidos me apertando o pescoço, o que até hoje me faz suar em cascata diante de um MAC ou de um PC, em suma, do tal do ciberespaço que me apavora e lembra-me o verso do poeta: La solitude de ces cyberspaces éternels meffraye (quem? Nerval? Heine?) . Aprendi a escrever em computador com a lentidão dos idiotas, mas sempre ficou longe de mim, como uma promessa de vida, como uma galáxia distante, a palavra terrível: Internet.
Sei que muitos moderninhos estarão rindo desta minha aventura ridícula que, para eles, é tão normal quanto falar no telefone com o entregador de pizza. Sei que sou um arcaico quanto um amigo superconservador que, outro dia, ouvindo Sargent Pepper no rádio do carro, me disse: Pensando bem, estes Beatles são mesmo os reis do iê-iê-iê.
Sei que dirão alguns que isso não é assunto, que tenho é de falar sobre a endêmica crise brasileira mas, em verdade vos digo que é assunto sim, não só por ser eu um filho desastrado desta terra atrasada e autoritária (como bem demonstram os dedos queridos de meu saudoso pai), como o tal ciberespaço é muito mais importante do que os técnicos pois, como disse Pierre Levy no Mais outro dia, a humanidade teve três períodos filosóficos: 1 - o das sociedades primitivas, fechadas, que viviam numa totalidade sem universal. 2 - o das sociedades civilizadas, com base na escrita, que tinham um universal totalizante. 3 - o da cibercultura, que inventa um universal sem totalidade. Conheceram, papudos? Isto já é um gaúcho jóia para um artigo com substância. Mas, como dizia Proust, o que é importante para você, deixa os outros absolutamente desalentos (se bem que não precisava ser o Proust para dizer isso).
Pois, saibam agora os ciber-heróis que, chegando a Nova York, tive a decisão fulminante: Vou entrar na Internet!. Minha mulher Suzana se entreolhou com minha filha Juliana, estudante de economia e craque cibernauta, e nada disseram, se bem que, logo depois, ouvi gargalhadas abafadas ao longe.
Muito bem, ontem foi o dia. Acordei cedo, tomei um bom banho frio e, com um Lexotan no bolso, parti em busca de um disquete da American Online, provedor da moda em Manhattan. Qualquer revista de MA tem um disco dentro, disse-me Lucia Guimarães, emérita jornalista. Começou cedo meu sofrimento, pois que nenhuma revista em NY tinha o tal disquete. Bobagem, faz um download do meu sistema, disse-me o Contardo Calligaris, psicanalista e internauta cinco estrelas. Fingi que entendi, mas resolvi ligar para a America ONline. Um robô me atende e me manda apertar um botão nº 1 no teclado; aparece na linha outro robô, outro número, outro robô, até que no oitavo cibercontinuo surge um ser vivo: Steve ...can I help you?





