Arquivo FolhaO crash da Bolsa tem um lado bom. O crash pode ser in, cool. O crash nos coloca mais perto do duro e ‘‘selvagem coração da vida’’. É bom para entendermos o indeterminismo do mundo, longe dos mitos de controle, das burras certezas. O crash também é cultura.
O crash é bom para acalmar consciências; já que não podemos fazer nada pelos excluídos, podemos comer nosso caviar cético com dorida tristeza. O crash é filosófico. Valoriza nossas propriedades, cada vez mais exclusivas e concentradas. É doce andar em BMWS com sabor de sangue. Acrescenta um ‘‘raro prazer’’ perverso, um after taste ao luxo.
Do ponto de vista histórico, o crash é bom para ensinar que não há ‘‘sentido dialético’’, nem ‘‘eterno retorno’’, nem lógica alguma; o mundo se move em ping-pong eterno e injusto. Fica claro que nada tem fim. Nunca teremos paz.
O crash é também um revitalizador da religião. FHC já disse que ‘‘só Deus sabe’’ quando vão baixar os juros. Ninguém entende de economia; só Deus. Nesta linha D. Paulo Arns deveria ser diretor do Banco Central, com linha direta ao criador, na mesa do over do céu. Isto nos tira o fardo horrível da responsabilidade.
O crash é bom para acabar com a ‘‘esperança’’, este sórdido sentimento burguês, o pior dos sentimentos, como disse Borges. Por outro lado, o crash é bom para revitalizar humanismos esquecidos. Todo mundo que perdeu grana alavancada começa a ficar bondoso, a falar em ‘‘pobres da África’’, em ‘‘ética global’’. Tem uns babacas sugerindo que, no ano 2000, os ricos perdoem a dívida externa dos duros. Ah..ah.....boa idéia!
O crash é bom para a poesia; economistas começama citar Ezra Pound: ‘‘com usura morre o amor entre os amantes...etc...’’
O crash é bom para ressucitar o imperialismo nostálgico, o bom e velho inimigo que nos animava a viver.
Só que agora o imperialismo não tem mais Tio Sam; é conhecido como ‘‘ataque especulativo’’, uma bomba H invisível, que ninguém sabe quem jogou. É o novo ícone de nossa paranóia, que não sabemos de onde vem. Afinal, precisamos de inimigos para absolver nossa impotência.
O crash até pode ser bom para as ‘‘reformas do estado’’, (estes furúnculos encroados na nacionalidade que nunca virão a furo), pois provoca o medo, único estímulo para congressistas canalhas. Como dizia Nelson Rodrigues (sempre este homem fatal...): ‘‘No Brasil, só o medo da polícia cria consciência social’’. O crash mostra que há uma ‘‘terceira coisa’’ no ar que ninguém conhece, mostra que o neo-liberalismo é uma bosta e que o socialismo tardio também é uma bosta.
O crash pode ser bom para o cinema: filme catástrofe ‘‘O Especulador do Futuro’’, com Schwarzenegger no papel de George Soros e Paul Newman como Alan Greenspan, do FED. Muitos efeitos especiais: excluídos se matando, bolsas explodindo em câmera lenta, etc...com direção de Woo, claro, de Hong Kong.
O crash é bom para vermos que somos o puteiro do G-7. Com juros de 43% ao ano, acabamos com inflação, mas o preço é alto. Somos o over deles. Aplicam aqui como fazem turismo sexual. Em casa, eles não se permitem estas práticas perversas como comer menininhas ou derrubar moedas na Tailândia.
O crash também é bom para acabar com grandes euforias, pois ele prova que a Lei de Murphy, ao menos aqui, é infalível, mais que as leis de mercado: ‘‘Se alguma coisa pode dar errado, ela darᒒ. Ou seja, certamente haverá desvalorização cambial.
O crash desnuda nossa tragédia ibérica. Os deputados morreram, o País acaba mas estes oportunistas não farão reforma nenhuma. Morreremos de nossa doença infantil: o patrimonialismo. O crash mostra que ainda temos vícios e cultura de Estado-Nação, quando o mundo já é outro. Ainda pensamos com ferramentas velhas: pátria, desenvolvimento, controle político, etc....quando tudo isso foi para o...digamos, brejo.
O crash também é um castigo merecido para importadores de tamagochis e carros computadorizados. O crash mostra que os brasileiros importadores e consumistas são grandes químicos: transformam reais em merda. O crash é bom para prejudicar Miami. O crash pode acabar com as festas do ano 2000 (já sinto um tédio antecipado com a eufórica passagem de século). Imaginem a ressaca do primeiro de janeiro de 2000, quando virmos os meninos de rua ainda pedindo esmola.
O crash pode ser bom para injetar no FHC mais militância e imaginação. O crash é bom também para vermos a escrotidão da oposição do ‘‘quanto pior, melhor’’. O crash é a apoteose, o prêmio Moliere, o Oscar do PC do B.
O crash pode ser bom para o mercado. Com o aumento da miséria do mundo (já somos 3 bilhões de excluídos), poderá surgir um novo mercado, o shit market , o mercado do desespero. A igreja do Edir já descobriu isso: vende merda e nada aos desgraçados. O shit market pode salvar o capitalismo ocidental que venderá produtos escrotíssimos e baratíssimos para africanos, nordestinos e indianos...Merda também é mercado.
O crash é bom para justificar broxadas: ‘‘Minha filha, desculpe...é o crash!’’.
O crash cria um suspense, a vida fica mais excitante. O crash é um thriller , um filme de suspense: ‘‘Quem fez o ataque especulativo?’’ Quem são os bandidos globais? O G-7, a CIA, o FMI, Soros? Quem? Eu tenho uma tese: a China. Vejam os indícios: o Jiang estava em Washington com Clinton na hora do crash. Na entrevista coletiva, o Clinton criticava o Jiang com o papo de ‘‘direitos humanos’’. O china-pau sorria, chefe de bilhões de comunas com celular, pensando em Marx: ‘‘Tudo que é sólido desmancha no ar, como as ações de Hong Kong, como o Japão...’’ Talvez a China seja a nova etapa do socialismo: repressão com mercado aberto, dólares entrando e tiro na nuca de dissidente. Quem poderá vencer este império? Marx estava certo: o socialismo virá como última etapa do capitalismo. Marxismo homeopático: só o capitalismo oriental acaba com o capitalismo ocidental. Comunismo-capitalista.
Por último, o crash é bom para descobrirmos nosso lugar no mundo: os excluídos somos nós.

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