As visitas do Papa e do Clinton me deram uma sensação de irrealidade. Foram semanas de adjetivos, gestos simbólicos, frases genéricas. Que quer o Papa afinal? Que quer o Clinton? Clinton não quer nada. Ele é o embaixador sorridente dos interesses de um mercado em expansão eterna, que vive o paradoxo de fazer tortos progressos que criam ‘‘independências localizadas’’ que podem ser perigosas para o mesmo mercado.
O capitalismo vive hoje o dilema: como estimular ‘‘emergentes’’, mas mantendo-os dependentes.
O Papa, idem. Como fazer avançar a igreja contra a sociedade do espetáculo dos evangélicos, fundamentalistas e seitas em geral, mantendo um reacionarismo secular? Como ser progressista e conservador ao mesmo tempo? Esta crucial rachadura vivem os poderosos diante do implacável progresso das coisas, do descerebrado avanço das forças produtivas do mundo, que geram ouro e fome. No caso geram liberdade, descrença e pecado. Esse é o drama dos políticos, presidentes e intelectuais (europeus principalmente): como criar ideologias que nos justifiquem que dêem alguma grandeza e brilho ao cru e nu strip tease do mundo do mercado grosso? Como catequizar salsichas? Como manter o velho sonho americano diante de megaempresas que pouco se lixam para os ‘‘Estados Nações’’? Clinton parecia uma alegoria de presidente, uma tradição a ser mantida, como o Papa. Nada de concreto pôde ser tocado. Ninguém pôde falar do óbvio: fome, miséria, loucura... Ou melhor, falar sim, mas sempre com grandes e abstratas perifrases, como se fossem nuvens negras passageiras e não as profundas causas concretas, os velhos pilares da sociedade humana. Como falar de progresso e ser contra o aborto? Como falar de família na sociedade narcísica, como falar do pecado da ‘‘camisinha’’ numa sociedade que luta contra a Aids?
As idéias nunca estiveram tão sozinhas no mundo. Elas já têm vida própria. Não precisam de fatos para se amarrar. As palavras estão soltas, inúteis, símbolos errantes no ar, tentando unir uma fragmentação que lhes supera. Não mais palavras ou idéias louvando o fragmentário, como as paródias da época modernista, alegorias da explosão de um ‘‘nada’’ anunciado. Nem levam mais idéias salvacionistas com a esperança maravilhosa do mundo planejável. Não mais isso; mas as palavras já estão soltas, como pássaros inúteis desconectadas no chão.
Que é isto? É um platonismo como fé ou como ficção?
O Papa e Clinton pareciam dois atores de um filme feliz que não está passando. Parecem desenho animado, num mundo de Norman Rockwell.
FHC também faz este ballet sorridente do ‘‘presidente-camelô’’, mas por trás dele, pelo menos, existe a desculpa de um país desgraçado que ancora sua dança na esperança de conseguir vantagens modernizantes. FH tenta ser um ‘‘antropófago cordial’’, um Oswald sorridente; tenta dançar conforme a música, para ver se consegue um lucro qualquer. FH tenta extrair modernidade do atraso. Como um empregado, espera o fim do jantar para pegar as sobras: um pouco de espiritualidade da visita do Papa e umas tarifas favoráveis para o Mercosul.
Clinton e o Papa vestem seu discurso com capas multiculturais, cosmopolitas, para manter as coisas como sempre foram. Enquanto o Papa falava de coisas celestiais, eu ligava a TV e via os ‘‘bispos’’ do Macedo arrancando o demônio à unha na madrugada. Quem não viu, não sabe o que perde: os exorcistas-vigaristas. No entanto, ali naqueles crimes dos evangélicos, há uma brutalíssima verdade brasileira que se exprime nos uivos das mulheres e homens (mais de cem por noite) agarrados pelo demônio. O demônio ali é o povo querendo se livrar de si mesmo. O demônio ali é um brutal retrato da miséria se negando miseravelmente. Ali, onde a mentira é total, pinta uma verdade espantosa.
Em torno do Papa e Clinton, onde o sorriso e a bondade se iluminam, flutua uma névoa de mentira.
O que fazer? É o inferno do vazio ideológico que vivemos hoje. A quem recorrer? À Sabedoria Divina, como quer o Papa? A Jefferson e Lincoln, como quer o Clinton, ao diabo como Macedo? O discurso humanista pressupõe um interlocutor, pressupõe alguém ouvindo e que se ‘‘conscientizaria’’, o discurso crítico pressupõe seu poder modificador da realidade. Hoje, para quem falam os intelectuais?
No discurso humanista, as premissas se montam, buscando a alegria da conclusão; o ritmo do pensamento se ajusta em teia; as idéias crescem e concluem com bom acabamento aerodinâmico. Existe uma arte de esculpir discursos. Só isto restou aos intelectuais: a aerodinâmica dos discursos.
Ou, então, o pensamento crítico (europeu) se volta para dentro, numa autofagia reformatória, buscando um fio da meada que o discurso americano-digital ignora. As coisas não falam. Mas vão tomando conta de tudo, com as palavras correndo atrás. Há entre o Papa e o mundo uma parede à prova de balas. Há entre Deus e o mundo uma cabine telefônica. Entre nós e Clinton, sorrindo e ostentando uma inofensividade total, há apenas o cenho franzido dos seguranças, os guarda-costas que ali estão, defendendo o princípio de realidade, o ‘‘papo firme’’. A verdade está nos guarda-costas e não na simpatia. Clinton e o Papa são os protagonistas simpáticos, de boulevard de um drama brutal que se passa nos bastidores de teatro do mundo.
O Papa e Clinton vieram aqui defender interesses: interesses dogmáticos e interesses comerciais. A ALCA de Cristo contra o Mercosul dos demônios.
E nós, fascinados, sôfregos de bênçãos, espelhinhos e miçangas.
Fafá de Belém estreitou seu busto ofegante nos parâmetros sagrados do Papa. Bill Clinton foi agarrado pela crioulada de Mangueira, numa cena que parecia um ‘‘Terra em Transe’’ com final feliz. E chutou um pênalti contra o goleiro. Mas Pelé ‘‘catimbou’’, para a bola entrar. Por quê? Seria uma gafe defender nossos interesses?
E, subitamente, surgiu um momento de luminosa verdade. O grande Jamelão, genial com o manso ritmo do malandro, com as modulações na voz linda, resumindo tudo em Mangueira: ‘‘como o povo diz, o Clinton estava como pinto no lixo..’’ Era a realidade que voltava. Respiramos aliviados: nós existíamos, o Brasil tinha aparecido de novo. Nós, os figurantes, somos mais verdadeiros que os atores principais.

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