Arnaldo Jabor
Madre Teresa de Calcutá viveu nos mostrando a solidão de sua bondade, sua quase inutilidade. Sou uma gota no oceano dizia ela. Lady Di morreu mostrando-nos que a felicidade total e romântica é impossível.
As duas eram exibicionistas. Do bem, claro. Uma mostrava a tristeza feia e abandonada da caridade. A outra, a tentativa de liberdade. A grande lição de Teresa é seu fracasso de gota dágua. A de Lady Di é não ter conseguido ser feliz. Santificá-las é esquecê-las. Por que procurar culpados da morte de Lady Di? Não há culpados. O que há é uma má distribuição das ilusões no mundo, uma má distribuição da fama. O narcisismo estimula as multidões de anônimos, mas sua expressão é para poucos. O luxo é para poucos. A bondade também é um luxo para poucos. Como disse Madre Teresa, em sua obsessão de caridade: O amor verdadeiro tem de doer. Não basta dar o supérfluo a quem necessita. É preciso dar, até que isso nos machuque. Terrível a fome desta frase santa e violenta.
As duas, Teresa e Di, nos davam inveja. Uma, pela beleza e riqueza. A outra, pela bondade e pobreza. Quase ninguém dormiu no Ritz. Quase ninguém conhece as delícias do martírio da bondade. Todos os homens queriam Di. Todas as mulheres, Camille, a rainha inclusive, tinham inveja dela. Os paparazzi nos obedeciam. Davam alimento a nossa fome de fama.
A morte de Teresa foi um descanso para tanto sofrimento obstinado. Até uma ponta de alívio para os culpados e canalhas do mundo, a quem ela humilhava. Já a morte de Lady Di foi também quase um alívio para nossa miséria. Seu fracasso em ser feliz humanizou-a, nos incluiu: Se nem ela foi feliz, imagina eu, que trabalho no Mappin e sou gorda...
De qualquer modo, as duas foram heroínas do narcisismo, foram excessivas, radicais, num mundo mediano e contido. A grande importância de Di não foi visitar aidéticos e miseráveis. Mais que isso, seu amor à vida desnudou a realeza e a hipocrisia. A grande importância de Madre Teresa foi sua loucura santa diante do absurdo. Resolveu ser um absurdo também, diante da miséria absurda. Está ali na frase: É preciso que o amor nos machuque...
Vê-las só como o Bem nos engana. Onde está a violência da Madre Teresa, em meio a tanta bondade que a desumaniza? Vejamos: O aborto é pior que a fome, pior que a guerra... Ali estava o trauma da santinha. Que faria Madre Teresa diante da mãe do embrião descerebrado? Aceitaria o aborto? Como podemos ser contra o aborto na Índia? Madre Teresa era contra. Ela queria sofrer mais que os indianos. Ela rsolveu ser a síntese pública do desamparo.
A morte de Teresa e Diane nos ensinam que tanto a Realeza (o poder político, etc...) quanto a Igreja (o poder espiritual...) precisam se modificar. A bondade tem de ser politizada, a bondade vai ter de entrar nos planos dos governos pós-utópicos. A bondade não pode continuar sendo individual, artesanal, o martírio de uma velhinha solitária. A bondade vai virar uma necessidade de mercado. A realeza também tem de mudar. Assim como a Igreja não pode continuar só defendendo princípios, contra o aborto, contra a camisinha, contra o cacete a quatro, a realeza (os governos) não pode viver se escondendo, numa dignidade eterea e parada, conservadora como o Papa. Não basta do Papa a presença, a Igreja tem de ser mais tolerante com a vida, mais propositiva senão os Edir Macedos ganham tudo. Não adianta os bispos como D. Tomas Balduino ficarem dizendo besteiras sobre economia, de que não entendem. A igreja tem de se modificar para dentro e não ficar delirando em voluntarismos políticos. Botando fogo em fogueiras que não sabem como apagar. Também, não adianta a realeza querer esconder suas roupas de baixo, não adianta os ingleses ocultarem suas lingeries sob os paletós, senão aparece o Tampax da Camille, o Príncipe-tampax. Lembram? Lady Di foi convocada para ser ficção. Casa com ela... é bonitinha e jovem..., disse Camille, debochada, na cama com Charles, seu amante eterno. Lady Di nasceu como uma cruza de Grace Kelly com Ofélia; foi programada para isso, era o necessário cinema do mundo de hoje. Mas, ai, Lady Di se rebelou e estragou tudo. Di era virtual. Camille era real. Di era a histeria. Camille, a perversão.
A Inglaterra queria aparecer como Di; mas, no duro, era Camille. A morte da princesa vai atrapalhar a vida sexual de Charles. Sem ela, a perversão acaba e fica chatamente normal. O tampax vai ser jogado fora. Agora, a realeza está entregue ao realismo. Real = Royal. Sem Lady Di, a rainha teve de sair na rua. A mais incrível cena da semana: a rainha entre o povo, falando a mesma língua: devasting, disse. Devastou quase tudo: a frieza, a hipocrisia, a serenidade real, o símbolo de eternidade. A rainha ficou trabalhista, a rainha teve de virar Whig.
Foi bom até para nós: pudemos ter pena dos príncipes. Como é bom ter pena de príncipes!... Ficamos importantes. É tão bom quanto dar esmola a mendigo americano... A morte de Lady Di nos colocou no poder por 15 minutos. A morte das duas nos mostrou que os contos de fada são políticos.
Madre Teresa foi bem-sucedida em seu fracasso, sua miséria deu certo, com casas de pobres no mundo inteiro. Ela se recusava a participar de política: Não quero saber de governos. Estava certa. Os governos é que têm de saber dela. A Madre teve uma morte suave e tardia. A morte de Lady Di foi prematura e terrível. Uma morte de filme punk. Eis o pior inferno: uma inglesa agonizando debaixo de flashes de franceses - morrer ao vivo. Sua morte real só vai chegar quando acabar o assunto. Sua morte é sair da pauta. As fotografias da pesada, com ela entre ferragens, ainda virão por aí. Aguardem, depois da missa de sétimo dia.
O mais importante de suas mortes é que duas mulheres frágeis lutaram contra a miséria e a caretice, cada uma de seu jeito, neste mundo regido por homens grossos e cruéis. O mercado do mundo vai ter de incluir humanismo entre seus produtos. Não dá mais para virarmos o milênio com esta ausência absurda num mundo rico e tecnizado. Já que argumentos morais não adiantam, vejamos argumentos econômicos: Será que estes mercadores globais não vão entender que há um vasto mercado mundial faminto por bondade e beleza?





