Não aguento mais. Ultimamente, só se fala em esquerda e direita. Vamos botar ordem neste galinheiro. Aqui vão as diferenças. Falo do Brasil, claro.
A esquerda tem ‘‘princípios’’ e ‘‘fins’’.
A direita só tem ‘‘meios’’; a direita é um fim em si mesma.
A esquerda é idealista, franco-alemã.
A direita é materialista histórica.
A esquerda é universalista.
A direita é parcialista.
Há sempre alguém, à esquerda de nós. Exemplo: dentro do PT, Zé Dirceu é ‘‘de direita’’; Milton Temmer é de ‘‘esquerda’’. No fundo, a esquerda acha que sectário é macho e que aliancista é veado. Assim, se paralisa um partido de massas e se perde uma chance histórica no Brasil democrático. Que pena... Lula...
A esquerda sonha com o ‘‘futuro’’.
A direita sonha com o ‘‘mercado futuro’’.
A esquerda é contra a social-democracia - deu em Hitler.
A direita é contra a social-democracia - deu em Hitler.
Esquerda: ‘‘fora do poder tudo é ilusão’’. Lênin.
Direita: ‘‘fora do mercado tudo é ilusão’’. Soros.
A esquerda sonha com o Bem. A direita sonha com os ‘‘bens’’.
A esquerda patrulha os outros. A direita chama a rádio-patrulha.
A esquerda só ama o todo. A direita só pensa na parte (sua).
A esquerda só fala no poder. Quando o tem (raramente), desdenha-o. Vide Buaiz e Buarque, futura dupla caipira. A esquerda tem medo do poder, também. Já pensaram o Tarso Genro explicando ao Jader Barbalho o ‘‘orçamento participativo’’?
A esquerda e direita se unem numa coisa: nunca são culpados e nunca pagam a conta, como os usineiros.
A esquerda só fala em economia e política - mas só pensa em poesia.
A direita só fala em ‘‘grandeza do espírito’’ e só pensa em grana.
A esquerda se acha ‘‘pura’’ e é contra a miséria (dos outros).
Nisso, a direita é mais profunda: odeia a pureza e assume a própria sordidez. É mais interessante ‘‘dramaticamente’’.
A esquerda é católica. A direita é luterana.
A esquerda acha que há uma conspiração na História. A direita a faz.
A direita não acredita em democracia. A esquerda também não.
Muito esquerdista acha que fracassou na vida por ser de esquerda. Não lhe ocorre nunca que possa ser de esquerda porque fracassou na vida.
A esquerda não paga aluguel; a direita empresta a casa.
A esquerda faz ‘‘autocrítica’’, para fingir que muda.
A direita não faz autocrítica e muda.
A esquerda faz parte de uma comunidade de ‘‘justos’’, desde Spartacus, tem ‘‘companheiros’’. A direita tem sócios, desde Nero.
A esquerda acredita em Deus. A direita é atéia.
A esquerda é sempre ‘‘vítima’’: da ditadura, do neoliberalismo.
A direita nunca é culpada; mas faz os fornos.
A esquerda pensa grande, nas águias, no condor. A direita pensa pequeno nas granjas, nas galinhas (Maluf).
A esquerda é ‘‘modernistas’’. A direita é pós-moderna.
A esquerda não leu Marx, ‘‘O Capital’’. A direita também não, mas conhece o enredo.
A esquerda se acha ‘‘sujeito’’ da História. A direita acha que a história só tem ‘‘objeto’’: o lucro.
A esquerda é a ‘‘latifundiária da revolução’’; se alguém quiser invadi-la para modernizá-la, ela responde a bala. Não quer reforma agrária em sua propriedade. Como a UDR.
A esquerda odeia o ‘‘complexo’’; acha coisa de veado pequeno burguês. Já a direita usa o ‘‘complexo’’ do mundo para armar negócios escusos.
Muitos esquerdistas se acham melhor que nós. Diante deles, somos todos ‘‘culpados’’.
A esquerda ama a utopia. A direita administra o Caixa.
A esquerda é épica; a direita é realista.
A esquerda acha a democracia ‘‘burguesa’’. A direita acha a democracia ‘‘esquerda’’. Acabarão se encontrando numa transa sadomasoquista, no Motel Fukuyama.
A esquerda no Brasil ignora nossa ‘‘antropologia’’ cultural, os vícios políticos do ‘‘ranço ibérico’’; a Direita ‘‘é’’ esses vícios.
Logo, a esquerda ignora a verdadeira direita. E ataca os aliados.
A esquerda precisa de psicanálise. A direita não tem cura. Ou será o contrário?
A esquerda adora idéias gerais. A direita o ‘‘cashflow’’.
A esquerda odeia a desigualdade social. Mas odeia também as diferenças de idéias. Ou seja, a esquerda também ama, por vias tortas, a desigualdade social; sem ela, perde a função.
A esquerda se acha mais inteligente que nós. A direita o é.
A esquerda confunde ‘‘princípios’’ com ‘‘projeto’’. A direita não tem projeto; a idéia de ‘‘projeto’’ já é uma idéia de esquerda.
A esquerda diz: ‘‘Um dia chegaremos lᒒ!. A direita já chegou.
A esquerda só busca inimigos ‘‘fora’’. Devia procurar dentro de si mesma.
A verdadeira esquerda no Brasil deveria ser ‘‘autocrítica’’, visando ao velho Brasil ‘‘endógeno’’, patriarcal. Mas não o faz.
O PT, única grande novidade na esquerda (nos anos 70), está se destruindo com a luta interna. Não consegue se reformar, porque acabaria chegando à idéia de um PSDB, mais crítico.
E isso seria ‘‘insuportável’’.
Para terminar, citando o cineasta Gustavo Dahl: ‘‘a esquerda é tudo que é profundo; a direita é tudo que é superficial’’. Ou deveria ser, mas infelizmente... no Brasil... aiiii... de nós...

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