ARNALDO JABOR
Sempre que venho a Nova York, o Brasil vira um sintoma em mim. Explico-me. Por mais que queira, não consigo esquecer os olhos de brasileiro com que vejo a cidade. Sou irremediavelmente verde-amarelo. O Brasil era (e é) para mim uma visão de mundo, vício que as gerações mais novas talvez não pratiquem. Eu e meus amigos do Cinema Novo, da esquerda cultural, vivíamos o Brasil como uma viagem para o futuro, nunca como um presente, um hoje, mas sempre como um projeto, um processo que acreditávamos controlar.
Sempre que chego a NY, fico espantado por ver como ainda me habita um sebastianismo renitente, duro como um dente difícil de se extrair. Eu achava (e se bobear ainda acho) que o Brasil era destinado a ser uma síntese entre o racionalismo careta do Ocidente e um Oriente negro musical nosso, com uma malemolência revolucionária mulata, sei lá... Mas, quando caio na 5ª Avenida, vejo como fica rasa essa sensação. Aqui, vejo que os americanos não acreditam em conclusões. Tese e antítese, tudo bem; síntese, jamais.
Nos últimos anos, tivemos de rever muitas ilusões. Desde a queda do socialismo, caiu o mundo de minha geração e ficou claro que nossa idéia de revolução era uma estética, uma poética, nunca uma logística fincada no chão real. Muitos morreram dessa descoberta, quando a vida dura do fim dos anos setenta começou a destruir o absoluto, ou melhor, o glamour do absoluto.
A revolução era, para nós, uma cegueira para o presente político doloroso, era uma maneira de se racionalizar o beco sem saída nacional. Se nosso presente era pífio, se nossas famílias eram medíocres, nossos bolsos furados, nossos políticos estúpidos, nossos ditadores brutais, nós éramos a gangue do futuro.
No plano neurótico pessoal, era uma forma de narcisismo utópico, uma maneira de esquecer a morte, um jeitinho de ser ateu, mas com paraíso e vida eterna. Deu no que deu. Estamos hoje com uma terrível ausência de ideologias possíveis para o país, embora seu diagnóstico nunca tenha sido tão visível. Se os anos oitenta já eram o início da desconfiança, os anos 90 foram a brutal chegada do presente, o violento desencantamento do mundo. Como um Tocquevillezinho do ano 2000, eu vejo aqui em NY a espantosa ligação deste povo com a realidade prática, uma radical recusa de qualquer bullshit (bosta de boi) que os iluda.
Daqui, fica claro que a grande luta que se trava no Brasil é entre o incontrolável, o inevitável tempo presente e um futuro imaginado. A direita usa a idéia de futuro como consolo para nosso atraso, na base do só os pobres verão a Deus. Por outro lado, os progressistas também se embaraçam numa má consciência paralisadora e não conseguem pensar fora de critérios negativistas antigos, poluídos por teleologias, lendas heróicas de classe, visões sacralizadas do povo e falam do capitalismo como se ele fosse uma pessoa má, e não o hegemônico modo de produção. Assim, patrulham qualquer tentativa de se ver de novo o país, anatematizando muitas idéias como impensáveis.
E isso fica sob uma luz insuportável no Times Square. Aqui, só existe o presente um cruel, claro, enorme presente que se sente sob os pés, uma falta de transcendência que, no entanto, resulta legitimada pela imensa riqueza da cidade. Enquanto sonhamos com um Brasil que nunca chega, aqui a utopia é hoje. Já foi conseguida e está sendo exportada para o mundo todo, violenta ou delicadamente. Somos românticos e pobres e eles são pragmáticos e milionários. Eles, caretas e obsessivos, realizam seus sonhos mais loucos (como provam suas pirâmides góticas, a tecnologia de ponta, a conquista do universo). Nós, malandros e imaginosos, não conseguimos nem reformar a Constituição de 88. Eles são uma equipe de 200 milhões de pessoas iguais, executando um projeto protestante sem fim. Nós, 180 milhões de solitários que nos julgamos diferentes somos imponentes pela miséria ou ridículos pela ignorância. Eles buscam a felicidade numa pursuit of happiness que é feita de uma permanente insatisfação com suas conquistas, sempre à procura de mais lucros, mais eficiência, o que fez o mesmo Tocqueville, em 1831, perceber que eles, americanos eram passados por uma leve melancolia em meio à abundância. Nós nos cremos felizes em nossa precariedade. O atraso cria a ilusão de que algo virá, quando nada jamais virá do atraso iludido. No Brasil, há um clima romântico para anestesiar a população, sendo que os homens que mamam, roubam e pilham são os únicos práticos e crus, avalizados por aqueles que choram o Airton Senna, amam o Carnaval e acreditam ter uma alegria congênita.
Assim, temos muito a desaprender. Temos de desmobilizar nosso excesso de negativismo; qualquer positividade é vista com descrença (vide o Plano Real). É chique ser contra. A esperança é considerada uma ingenuidade. No Brasil, criticar o poder nos exclui e absolve. Nos USA, a desconfiança ao poder do governo pressupõe ações alternativas na sociedade que sempre se autocritica e muda.
Em todo meu pobre trabalho na TV e nos jornais, tento mostrar que somos tão ruins como o país, que o atraso não nos exclui como vítimas das elites, mas nos inclui no erro geral. Se alguma invasão é benigna, vejo com bons olhos a influência anglo-saxônica na administração da sociedade, um ethos protestante amenizando a mediocriadade de nossos vícios portugueses. Será, ao menos, um benefício da globalização.
O grande trauma dos 90 foi a chegada do presente em nossa vida. Constatamos com dor que estamos aquém deste presente do mundo, que nosso problema não é falta de futuro, mas que ser subdesenvolvido é estar antes do agora.
Por isso sou tomado de inveja quando chego a NY vivem o país como seu território abençoado, seu reduto legítimo, construído pelo trabalho obsessivo. Eles têm orgulho dos USA. Nós temos vergonha do Brasil.
* Está rolando na Internet um texto atribuído a mim sobre Adriane Galisteu. Jamais escrevi essa bobagem.





