Arnaldo Jabor




ARNALDO JABOR
O presente acabou e o
futuro não chega nunca
Nosso desejo virou um pretexto para o consumo sem fim

Ilustração: BetoEstava cozinhando um ovo transgênico, quando a panela me avisou: ‘‘Você quer ovo mole ou duro? Tecla A ou B?’’ Apertei B. A panela se abriu suave e, de dentro, flutuou o ovo, sua casca alvíssima onde se lia: ‘‘Trans-egg Inc.’’. Lembrei-me, por segundos, de meu galinheiro da infância, cheio de titicas, de penugens, onde íamos catar os ovos das poedeiras ainda quentes e isso me deu uma saudade dolorosa. Meu Deus, onde estará meu galinheiro intemporal? A panela me perguntou: ‘‘Sal e pimenta?’’, usando a voz digital ‘‘mãe suave’’
(‘‘dear mum’’), o que me dava tristeza infinita. Mudei para voz de ‘‘empregada gostosa’’ (‘‘bimbo maid’’) e sorvi a baba amarela, com vontade de chorar. Cozinha branca, ovo branco e eu pálido e sozinho. Eu não tinha mais ‘‘presente’’. Onde estava minha vida? Minha vida tinha virado uma promessa de ‘‘futuro’’ que nunca chegaria. Só nos vendem o ‘‘amanh㒒. O futuro virou uma cenoura na frente do coelho, sempre fugindo para mais longe, sempre desqualificando cada vivência que temos hoje. Tiveste uma bela noite de amor? Isto não é nem sombra dos hiperorgasmos que virão, dizem os anúncios. Pensei no Joli, meu cachorro clonado, que logo captou meu desejo e veio com a coleira na boca. Joli pulava e abanava o rabo, mas algo nele era falso, abanava o rabo muito ritmadamente e os latidos eram apenas suaves soluços, pois esta raça clonada não latia, para não aporrinhar os vizinhos. Dei-lhe um pontapé, na esperança de ouvir ganidos verdadeiros, mas Joli fugiu para um canto, lançando-me um olhar irônico e rancoroso.
Olhei em volta. Vivia cercado de confortos que eu não pedira. Não era verdade que a vida ficara mais fácil, neste tedioso século 21. Meu desejo era um reles pretexto para uma infernal modernização da vida. O mercado satisfazia tudo com uma rapidez horrenda: minha fome, meu tesão, meu amor, enquanto o Nasdaq não parava de subir, mesmo depois de dois ‘‘crashes’’ sinistros, quando tivemos a bonança de milhões de suicidas caindo dos prédios de Wall Street, Tóquio, Avenida Paulista. Como foi bela aquela chuva de executivos, como era delicioso ver os paletós e gravatas voando, os gritos, os ‘‘plafs’’, os ‘‘plufs’’, tudo parecia uma volta ao passado, ou melhor, ao presente que nos tinha sido arrancado.
Sou (ou era) escritor e tento ser cada vez mais superficial, nesta competição mercadológica que assola os artistas. Tentei ser uma besta completa, mas os editores dizem que meu texto, embora laboriosamente ridículo e raso, ainda contem um ‘‘arriere got’’ de amargor que não consigo apagar. Sempre há alguém mais imbecilmente comercial que eu. Estou só. Olho em volta as telas zumbindo, o Bloomberg, os índices rolando, a música ambiente, os quadros vivos, as esculturas holográficas, as ofertas da TV, a listagem das mais recentes prostitutas da Web, e penso: ‘‘E se não houvesse mais desejo? Eu posso escolher o filme ou música que quiser ver, mas, nessa aparente liberdade, ‘quem’ me pergunta o que eu acho que quero?’’ A interatividade é uma falsificação da liberdade, já que transgride meu direito de nada querer. Eu não quero nada. Não quero comprar nada, não quero saber nada, vão todos para a puta que os pariu! Mas, a quem mandar à puta que o pariu? Quem me oprime? Ninguém.
Temos de responder perguntas sem boca. Santo Deus, que fizeram com o pobre macaco que eu sou, aqui, milênios depois da floresta, sentado nesta cápsula sem vida? Que fizeram de nossos uivos, de nossa fome? Pensei em arejar um pouco nos ‘‘Misery Tours’’, aqueles vôos rasantes sobre as favelas muradas (‘‘exclusion zones’’), para aliviar meus olhos com gente em farrapos, gritos de angústia, mas este divertimento já não me consolava. Pensei em treinar tiro ao alvo nos moradores das ‘‘zonas de desespero’’, mais excitantes e sangrentas, mas desisti. Minha mulher tinha ‘‘logged off’’ para outros ‘‘sites’’, largando-me por gente mais animada, ‘‘clubbers’’ encharcados de ‘‘ecstasies’’, ‘‘flippers’’, ‘‘peppers’’, ‘‘fuckers’’ e ‘‘shitters’’. Mas não pensem vocês que vivo numa espécie de ‘‘1984’’ com ‘‘Big Brothers’’ no controle.
Nada disso. Nenhuma razão totalitária nos rege. São milhões de produtos que, como prostitutas, clamam por nosso consumo. Tenho certeza de que um grande ‘‘crash’’ virá, não digo das Bolsas. Falo de um ‘‘crash’’ da natureza, um uivo de volta, uma fome de atraso, uma fome de fome. Olho para o céu em busca de asteróides, de alguma chuva ácida que extermine esta vida escrota e limpa, que nos devolva um pouco de horas calmas, minutos lentos, dias, noites, silêncios, inutilidades, fracassos, paz, sono.
Resolvi passar uns tempos nas ‘‘reservas de natureza’’ (‘‘jungle camps’’), junto a outros marginais que, famintos de capim, lama, água, se jogam nos barrancos e ficam lambendo o chão, comendo raízes, caçando bichos do mato, nus. Estava eu ali havia poucos dias, furando os barrancos em busca de caracóis que eu comia vivos, orelhas-de-pau, musgos, águas de corrego, frutas bem azedas (para esquecer a mulher amada), quando as primeiras balas coloridas explodiram em minha cara, entre gargalhadas de crianças e famílias. Um bando de canalhas me perseguia com rifles de balas com tintas berrantes, para ganhar a gincana: ‘‘Acertem os vagabundos, caguem-nos com cores, e ganhem um piquenique Mcdonald’s!’’
Fugi como um macaco vermelho, amarelo e azul, perseguido por famílias gargalhantes e, na corrida, chorando com lágrimas em technicolor, sacando o fracasso de minha vida ridícula de intelectual, escolhi a morte interativa nos ‘‘despair zones’’ (jocosamente, apelidadas de ‘‘caçada aos urubus’’).
Vou subir a mais alta fronde e me jogar de muito alto, como os outros macacos que escolhem a doce morte. Lá, os atiradores de elite usam balas reais autorizadas pelo Estado em nós, os macacos-alvo, os ‘‘pins’’ de um boliche sangrento. Eles vão me balear, pensando que satisfazem seus desejos assassinos. Mal sabem o bem que me fazem. Como disse, há muitos anos, o herói de Camus: ‘‘Espero que me saúdem com gritos de ódio...’’

mockup