Arnaldo Jabor
Não adianta. Tem uma hora que bate. Estou nos jornais há seis anos, escrevendo sobre a vida nacional, mas tem uma hora que te bate o horror: Não adianta nada!.
Lembro-me do maluco do hospício que pintava quadros belíssimos, o Van Gogh do pavilhão dos agitados, orgulho dos jungianos festivos. Um dia, o maluco parou de pintar. E de falar. Todo mundo ficou em cima: Fulano, por que parou? Fala. Você pintava tão bem o hospício, o pátio, os colegas, os médicos, tudo... Por que parou? O cara, nada. Até que um dia, ele disse: Eu já pintei tudo. Não mudou nada...
Será que adiantam palavras sobre a vida nacional? As palavras são moles. As coisas são duras. Ninguém muda. Vocês acham que se pusessem um parlamentar barra pesada tipo Ronivon (fascinou-me ele nem tirar o calção, nem botar um sapatinho para aparecer nas fotos. Falou à imprensa de pernas nuas e barrigão feliz) ou um desses juízes de capa negra em hall de mármore durante dias sob uma terapia de humanismo eles iriam mudar? Jamais, boçais.
As palavras não vêm da boca. Elas nascem de dentro do rabo das pessoas. A razão é uma membrana frágil inventada no século 18. A barra é que estamos ainda na beira do velho lugar comum: à beira do abismo. O Japão errar, não faz mal. Os USA errarem, também não. Já há uma solidez política nestes países. Nós podemos voltar atrás e nos africanizar. Esta empreitada iluminista-aliancista de FH chega a soar ridícula, diante do couro de rinoceronte da turma dos gargantas e torcicolos. A política virou um balé desconectado da vida social. Um minueto à beira do abismo.
Só resta aos intelectuais praticar a política da angústia. Ou a angústia da política. A política da angústia é, por exemplo, o hábito do próprio FH, que se lamenta do caos nacional como se ele mesmo não fosse o presidente e sim um espectador que vai se queixar aos franceses de nosso primitivismo. Se queixar a quem? Ao Rosseau?
Já a angústia da política é o vago mal-estar de artistas e intelectuais que se horrizam com a feiura do dia-a-dia de Brasília, mas preferem o Ser, o Uno e outras perversões sexuais. Nosso lamento sonha com o bem. Mas que bem? Nossas palavras, nossas canções são genéricas, vagos gemidos pela harmonia. Que harmonia? Existe uma razão cínica que suja tudo. A esquerda sempre perde porque é romântica, apesar de falar em praxis (!). Mesmo pensando em economia e materialismo, nada é mais espiritual e poético do que um Zé Dirceu. Já a direita ganha sempre porque pensa no lucro e mais valia, mas claro que só fala do espírito. O progressista fala e nada faz. O atraso cala e bota pra quebrar. A razão não triunfa no Brasil. Lembro de um sujeito brabo que conheci. Ele empurrou um fracote na fila, intelectual de óculos e cabeça de ovo. O fracote-cabeça despejou sobre o valentão uma série de razões lógicas para criticar seu gesto bruto. Que ele tinha sido pouco solidário, pouco democrático etc... O grandão ouviu tudo calado. Quando o intelectual acabou, ele disse: Você tem toda a razão. E, por isso mesmo, é que não tem razão nenhuma. Vai entrar na porrada. E desceu o cacete no intelectual. Assim estamos vivendo, na utopia das reformas que nunca chegarão.
Enquanto os pensantes como eu (ai de mim...) ficam aprisionados numa retórica fina, cheia de nuances, os bichos do Mesmo nos olham com desdém, prontos para descer o cacete. É impressionante como se gasta latim para estas reformas que o Congresso não aprova. Não se trata mais de direita ou esquerda. A evidência técnica, científica, destas reformas transcende PT, PFL etc. A evidência do caos de Alagoas, da tragédia da saúde, da previdência mostram que estamos diante de um inevitável concreto. Brevemente, teremos uma alagoização do País e os corporativistas, ruralistas, evangélicos, albaneses ou ladrões comuns das galinhas públicas não estão nem aí.
O problema do País é que as soluções são complexas e as resistências são boçais. A boçalidade é uma preferência nacional. O problema é que muitos artistinhas e intelectuaizinhos que são a favor das reformas não têm saco preto para abrir a boca, com medinho de serem chamados de a favor do governo. Outro problema é que o FHC não grita para a opinião pública. Tem de gritar. Explicar a necessidade da vacina, como Oswaldo Cruz. Mas, não faz. Enquanto isso, os rinocerontes da velha direita dormem felizes. E, no cercadinho da velha esquerda, homens de bem perdem tempo vendo se a Articulação é mais legal que a Convergência, discutindo se doce de abóbora dá chumbo para canhão. É de chorar. Os artigos dos escandalizadinhos (como eu) falam em futuro, em modernidade. São sempre substantivos abstratos enquanto as moscas da sopa brasileira olham impasíveis. Alguma forma de militância tem de pintar.
As forças pensantes deste País têm de agir. O cinismo do sistema ridicula. O discurso português clássico é propositadamente abstrato, para não deixar nada mudar. Se o governo não demandar ação da opinião pública, plebiscito, grande campanha publicitária, o cacete que seja, breve seremos uma grande alagoas. A resistência do Congresso reacionário tem de ser rompida de qualquer jeito. O estamento burocrático-estatal medieval tem de acabar. A necessidade das reformas é além de ideologias. A necessidade das reformas é técnica, científica, tão evidente como a da luz elétrica, da penicilina. Não é possível continuarmos atacando hipopótamos com rosas. Eles continuam nos dizendo: Tem toda razão; por isso mesmo, vão entrar na porrada.





