Arnaldo Jabor




PITTA FICOU COM
OS LÁBIOS ROXOS
E A BOCA SECA
O depoimento de Nicéa é um quadro vivo da nacionalidade

Pitta tem nome italiano, mas é preto. ‘‘Pretinho da silva’’, ‘‘preto de alma branca’’, ‘‘mulato pernóstico’’, ‘‘crioulo safado’’, ‘‘saci-pererê de duas pernas’’ - como devem rosnar pelos cantos seus aliados e inimigos. Não estou dizendo que ele estaria sendo perseguido por ser preto. Não estou falando de racismo, simplesmente. Acho que houve um pacto de raças desde o início, desde seu surgimento político. Lembro-me de um filme genial da campanha de Pitta, onde uma mão preta entrava em cena e arrebentava com alfinete uma bola cheia de ‘‘corrupção’’: ‘‘Preto corajoso contra branco mau’’.
Maluf ostentou um ‘‘progressismozinho’’ politicamente correto, um gestozinho tipo ‘‘ação afirmativa’’ e emplacou o Pitta no cargo. Uma das razões de sua eleição foi ele ser um negro. Bonito, alto, bem vestido. Pitta dava a Maluf uma ‘‘allure’’ moderna na campanha. Mas, isso era só marketing. Pitta foi posto ali para servir. Exatamente como serviam seus antepassados, como serviam os ‘‘criados de dentro’’ nas casas-grandes, ou como os ‘‘pretos de ganho’’, que iam mercadejar para os patrões nas ruas do século 18. Pitta adotou o estereótipo do ‘‘bom crioulo’’: ‘‘Negro, humilde e trabalhador’’, como ele próprio escreveu num cartaz para a imprensa.
Ele topou o pacto racista, ele foi escolhido por Maluf para desempenhar a função que os pretos humildes tinham na Colônia, de ‘‘pau mandado’’ (‘‘Oh, menino.. você vai ser meu sucessor, mas ponha-se no seu lugar hein! Quem manda sou eu!’’). E Pitta herdou todo o esquema de maracutaias da prefeitura, ajudando, prestimosamente, a mantê-lo intocado.
O depoimento de Nicéa ao Ministério Público é uma obra-prima que mostra, nas frestas, a cara grotesca de nosso atraso jurídico.
Fica visível desde o início que Nicéa amava em Pitta a coragem que ela mesma teve de casar-se com um negro, num mundo de peruas racistas. Ela esperava dele alguma coragem real, uma rebelião contra os capatazes que o tutelavam. Nicéa, com seu amor de branca, queria, senão a abolição da escravatura, ao menos uma lei do ‘‘ventre livre’’, queria que a Prefeitura de S. Paulo tivesse um leve ar de quilombo. Mas Pitta não foi um Zumbi.
Nicéa estimulou-o a denunciar os vereadores descarados, mas ele aceitou comprá-los; obrigou-o a fugir das gorjetas e mordomias dos franceses recolhedores do lixo (Oh, par Dieu! Quelle chic! Franceses catando de la merde em S.Paulo!); Nicéa tentou livrá-lo da máfia dos remédios, das notas frias, das empreiteiras e precatórios. Mas, ele não queria a liberdade, ele era um negro fiel. Nas brechas de seu depoimento, vimos a epopéia brega de uma família querendo exercer um poder que não possuía, vimos seu drama bufo com Nicéa de colete à prova de balas, unindo os filhos contra o pai, vimos o filho Roberto desafiando o pobre Pitta, chutando videocassetes e TVs, vimos árabes vorazes comandando as maracutaias: Nahas, Garib, Yunes, Pagura, a ‘‘turcalhada’’ toda (também o sou...) comendo esfihas e babaganuche e transformando São Paulo numa caverna de Ali Babá, tudo coroado por uma perua loura em Paris (une canarde numerotée) na ‘‘torre de prata’’. É belo demais, é uma esplendorosa alegoria.
São Paulo, que já teve uma imagem de metrópole eficiente, virou um monturo de propinas, meninos de rua, notas fiscais na lama, cheques da Suíça para Miami, tudo voando sobre o cadáver do camelô que denunciou o esquema. (Ele tinha previsto a própria morte com um fatalismo quase doce; por que não fugiu? Por que foi tão obediente na imolação?)
Nicéa não conseguiu fazer o ex-marido se alforriar de Maluf.
Mas, a culminância extraordinária de tudo, o agon, o clímax dramático eu transcrevo abaixo, quando Nicéa conta que Gilberto Miranda levou Pitta para sua casa, pois ACM estava ‘‘bravo’’ com ele e queria falar-lhe:
‘‘a depoente acha que este fato ocorreu no dia do casamento de Chiquinho Scarpa (Oh glorioso pano de fundo! - Chiquinho beijando sua princesa Carolina, que o trairia depois, como uma Nicéa sexual, chamando-o de veado na TV); a depoente diz que, uma vez no local, Gilberto Miranda (a vida deste homem explica o Brasil), bastante nervoso, exigia que Pitta efetuasse o pagamento das dívidas atrasadas com a OAS; que ele, Gilberto Miranda, havia sido o maior defensor de Pitta na CPI dos Precatórios e que ele, Pitta, não poderia agora deixar de fazer os pagamentos, já que havia feito essa promessa a ACM, para que este providenciasse o encerramento da CPI; que Gilberto Miranda ligou para ACM e lhe disse que estava com Pitta à sua frente, mas que o ACM disse que não queria conversa com Pitta e que esse cumprisse a promessa feita; que Pitta ficou transtornado, com os lábios roxos, e tinha até dificuldade de falar, pois sua boca estava seca; que a declarante ficou surpreendida com a forma autoritária com que o ex-senador Gilberto Miranda tratou seu ex-marido, prefeito de São Paulo, que não reagia...’’.
Pitta ali, humilde. De lábios roxos. De boca seca. Este foi um quadro vivo da nacionalidade: ACM, o último senhor de engenho, o último bastião da oligarquia colonial esbravejando com o ‘‘negro de ganho’’ trêmulo, dividido como ‘‘servo de dois senhores’’, querendo escapar de Maluf e ACM, insuflado pela mulher já abraçada na bandeira brasileira (as mulheres se consideram alegorias heróicas...), sendo humilhado pelo capataz Gilberto Miranda, o intermediário entre as direitas paulista e nordestina.
Pitta irá para o pelourinho. O ‘‘bom crioulo’’ será provavelmente ‘‘impichado’’, enquanto os senhores árabes, baianos, amazonenses, brancos e poderosos, ficarão de lábios vermelhos, sorridentes, protegidos debaixo da camisola branca da Mãe Justiça. Brasil, 500 anos.

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