Arnaldo Jabor O CARNAVAL QUER FUNDAR UM NOVO PAÍS AO AVESSO As escolas de samba deram aula magna sobre os 500 anos Este ano, aprendemos muito com as escolas de samba. Eram os 500 anos de Brasil contados pelo desejo popular. O carnaval sempre nos explicou, mas não conseguimos esgotar o que ele nos ensina com seu mistério. O carnaval mostra que o Brasil tem uma delirante forma de seriedade com exércitos de foliões e operários, empenhados em fundar uma sociedade feita de cantos e danças. Ver o carnaval como uma loucura seria uma loucura. Talvez o carnaval seja uma doença salvadora de que o cruel mundo do mercado precisa. O carnaval busca uma outra civilização com uma animalidade pulsante, uma civilização não- civilizada, sem repressão, sem mal-estar. O carnaval brasileiro mostra que há uma outra idéia de progresso, além deste bode ocidental, que há uma ‘‘orientalidade africana’’ em nossa terra, questionando o pensamento único do bom senso anglo-saxão. O Brasil parece ter o inconsciente à flor da pele, ao contrário dos países que pagam um alto preço pela ordem: uma Razão triste, uma felicidade comedida. Os turistas brancos-azedos ficam de boca aberta diante deste descaramento total, desta alegria feita com os despojos de negros e índios, de portugueses sem-vergonha pecando desbragadamente em nossas florestas. Eles têm o ‘‘rock’’, sem dúvida; mas o ‘‘rock’’ fala de uma luta transgressiva, de uma revolta contra o sistema que não tem a moleza feminina do nosso carnaval. O ‘‘rock’’ é coisa de homem; o carnaval é feminino. O ‘‘rock’’ é guerra; o carnaval é luxo e volúpia. Por que esta vontade de nudez no carnaval? Todo mundo quer ficar nu. Não será isso uma herança de nossos índios e africanos, uma vontade de voltar a uma grande tribo negra ou vermelha? Em lugar nenhum existem estas montanhas de carne, de corpos se atirando uns aos outros, em pirâmides de fogo e repuxos de água, no alto de águias, em girândolas, em torres douradas, em goelas de leões. Há Nova Orleans, há Nice, Veneza, mas em nenhum lugar existe esta frenética busca de um infinito orgasmo que restaurasse os elos perdidos, em nenhum lugar existe esta fome de amor, esta violência utópica que vemos no Rio, Bahia etc... No carnaval, a nudez vai muito além da imoralidade e da sacanagem. Há uma santidade nesta explosão de carne que não se explica, como não se explica um fenômeno natural. Há um desejo de indianização como uma forma de se construir um futuro florestal, não de caos ou zona – como pode parecer –, mas um futuro de carne e felicidade. Este ano ficou claro que o carnaval fala de uma ordem, sim. O carnaval quer fundar um novo país ao avesso, avesso a autoritarismos, avesso à tragédia da pobreza. Oswald de Andrade, com seu delirante matriarcado, tinha nas mãos uma verdade poética: queremos fundar uma sociedade organizada, mas feminina; justa, mas alegre; com uma lei séria, mas sexualizada. Ainda não esquecemos as surubas de índias e portugueses na selva e de escravistas e negras na senzala. Só se pode entender o Brasil pela nudez das mulheres e dos homens, que também querem virar mulher no carnaval, numa longínqua evocação dos ‘‘nefandos pecados’’ coloniais. Todas as alegorias das escolas remetem à idéia de fecundidade, de abundância e de orgasmo. Tudo ali, carros, plumas, chafarizes, fogo, água, tudo simboliza um grande gozo transcendental que nos salvará, um orgasmo definitivo, a carne além do espaço e do tempo que revelará o mistério da vida e da matéria, o destino físico, espermático contra um horrendo futuro ‘‘científico’’ e racional. O carnaval quer transformar a cultura em natureza. Contra uma nova ordem mundial feita de ‘‘Prósperos’’ informatizados, de milagres eletrônicos, de ‘‘serviços americanos’’, oferecemos uma resistência de ‘‘Calibans’’ pintados de purpurina e lantejoulas, pulando nus. E não só no luxo da avenida, mas também nas ruas sujas, há lições de Brasil. Ali desfilam os blocos de sujos, os foliões solitários, ali estão os desgraçados, os anjos de cara-pintada, as escrotas travestidas, os vagabundos, os bêbados ornamentais, também comemorando a vida através de uma alegria autocaricaturada. Ali, entre os sujos, está o desejo de escrachar a beleza ‘‘clean’’ e, por tabela, os excessos barrocos e utópicos das escolas ‘‘pós-modernas’’. Os blocos de sujo completam o sentido das duas caras do carnaval: esperança e autocrítica, romantismo barroco e ‘‘grotesquerie’’ satírica. De um lado, uma Hollywood nababesca e, de outro, a grande tradição do intestino ‘‘rabelaisiano’’, do baixo-ventre, que veio desde Brueghel e Bosch passando por Goya e Ensor, para se ‘‘descomer’’ no meio-fio de nossa miséria ‘‘medieval’’. O grande exemplo disso foi Joãozinho Trinta despejando urubus e mendigos na Sapucaí, no maior momento do teatro brasileiro, evocado este ano por um miserável barraco de verdade exibido em uma escola, quando a realidade virou uma alegoria ao avesso. No carnaval, estão nossas três raças celebrando uma grande suruba colorida e fecunda – negros, brancos e índios dando à luz um grande bebê mestiço e gargalhante.

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