Arnaldo Jabor




A liberdade do mundo está
entre Sartre e a lagartixa
Conseguirá o Ocidente suportar a vida atual sem utopias?
Arquivo FolhaUm espectro ronda o Ocidente: a liberdade. ‘‘Liberdade, pra quê?’’ – dizia Lenin. ‘‘Nunca fomos tão livres como durante a ocupação nazista’’ – escreveu Sartre, numa frase que nunca entendi, que sempre me pareceu uma frescura verbal francesa. Assim começava o artigo que eu estava a digitar sobre a subida de Haider na Áustria, sobre os fanatismos que vêm por aí: bandeiras de sangue, massacres deliciosos para saciar a humana fome de violência. E continuei: hoje, temos a vitória de uma liberdade ‘‘de mercado’’, morna, sem metafísica. O Homem (como o chamávamos) caiu de nível, em matéria de aspirações. Aquele anjo com um futuro glorioso virou um sujeito de bermudas abacate e camisa laranja, falando no celular e num mundo chato como um parque temático.
Fiquei chato, meio ‘‘sartreano’’ e escrevi: ‘‘Ninguém quer ser livre. A liberdade nos faz desamparados, pequenos, perdidos no universo. Queremos respostas, líderes, até castigos, para não sermos indivíduos soltos na galáxia, sem rumo.’’
Foi aí que me apareceu a lagartixa. Uma lagartixa aqui no escritório com ar condicionado, no décimo quarto andar? Ela não ansiava por nada, a não ser mosquitos; ela não me atribuía sentido algum, como eu, doente animal, a ela. Ela não se sentia sozinha, ali, sem pai nem mãe. Quem a pariu? De que ovo veio esta alpinista aqui na sala pós-moderna, de aço e vidro? Ela me olhava intensamente; senti-me espionando, constrangido. Eu penso: ‘‘Como ela me vê? Como é ser uma lagartixa, me olhando ali na parede gelada?’’
Bem, a lagartixa teria uns seis centímetros e eu tenho um metro e noventa de altura e uma espessura além do que gostaria (ando meio gordo). Já lagartixa está magrinha, chiquérrima, pela ausência de insetos neste álgido prédio pós-utópico. Fazendo as contas, em volume, eu sou umas 15 mil vezes maior que a lagartixa. Imagino-me diante de um gigantesco lagarto 15 mil vezes maior do que eu, me olhando numa sala infinita. Qual seria o tamanho do meu terror? Eu era uma galáxia para ela, podendo esmagá-la e, no entanto, ela não fugia – ela apenas contemplava nossa ‘‘diferença’’, como diria um Baudrillard. Senti-me amargamente superior e pensei: ‘‘Ela não faz filosofia porque não sabe que vai morrer, como nós...’’
A presença da lagartixa fazia meu artigo mais óbvio. Caro leitor, nós não temos prestígio junto a lagartixa; ela não ajuda, não quer diálogo. Pensei mais: ‘‘a lagartixa nunca formará exércitos nem bandeiras para minorar a dor de sua existência, porque ela não acha sua existência absurda. A lagartixa não tem história’’.
E continuei meu artigo: quando o Francis Fukuyama disse que a História tinha chegado ao fim, a revolta que estalou entre os intelectuais foi porque o esperto japonês deu uma machadada na nossa fome de destino, de ‘‘sentido’’. O que ele disse, no fundo, foi o seguinte: ‘‘Vocês, homens, não têm importância alguma. Abram caminho para a história das mercadorias!’’
Fukuyama botou o dedo em nossa ferida histórica – nós temos alma de homem e vida de lagartixa. Nossas vidas não têm futuro, bóiam num ‘‘enorme presente’’. A liberdade é aterradora, ninguém quer ser livre. precisamos de uma ideologia para poder viver – escrevi.
Aí, a lagartixa se moveu. Virei a cabeça e ela estacou, atenta. Procuro escrever, apesar de a lagartixa me observar do alto. Continuo: como disse o poeta Bruno Tolentino: ‘‘Vivemos à míngua de esplendores!...’’ Qual seria a opinião da lagartixa sobre isso?’’ – pergunto-me. A lagartixa começa a virar uma espécie de superego, de ‘‘copy desk’’ do meu texto. Resisto e continuo minhas dúvidas sob seu frio silêncio: na linha de pensamento de um Richard Rorty, eu acho que esta crise de utopias pode ser o início de uma filosofia mais analítica, pragmática... – escrevi, no instante em que via a lagartixa, num flash, devorar um mosquito perto da lâmpada, como que comprovando a minha tese. ‘‘A verdade (nossa e da lagartixa)’’ – diria o Prof. Rorty – ‘‘é que nos é útil, o que funciona’’. No momento histórico atual – continuei meio puto, pois a lagartixa virou-me as costas satisfeita, abanando o rabinho – sinto na Áustria o prenúncio de uma fome de batalhas. Temos sede de sangue. Olhei para a lagartixa, que me ignorava, sem demonstrar apoio ou discordância.
Pensei em matá-la, sem dó, aqui no alto do prédio, ou queimá-la como a um judeu. Ela estava agora grudada na vidraça, com o ‘skyline’ de São Paulo ao fundo. Mas, sempre culpado, peguei uma folha de papel branco e resolvi salvá-la. Ela fugiu de minha bondade, humilhando-me ainda mais. Mas, acabou deslizando para a página branca, ‘‘como um verso de Mallarm钒 (arghh!...).
Levei-a com delicadeza na folha, sentindo-me um deus ecológico e bom, encaminhei-a para a parede externa do prédio e ela começou a descer. Mas, nem me agradeceu.
‘‘A mim, ninguém protege – pensei – onde está a mão de Deus que me levará a um bom porto?’’ Vi que estava com inveja da lagartixa.
Voltei ao computador mais sozinho. E terminei meu pobre artigo com o coração apertado: ‘‘para que estes textos? Para onde vou eu e toda esta turba de egoístas à espera do asteróide? Foi para isso que a humanidade lutou tanto? Para virar este videogame sem sentido?’’ Foi então que me bateu a verdade inapelável e cruel: entre mim e o bichinho só havia sua superioridade filosófica. E finalmente, entendi a tal frase do Sartre: nunca seremos tão livres como aquela lagartixa.

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