Arnaldo Jabor
Arnaldo Jabor
Arquivo FolhaO Haider é a terceira via
para as câmaras de gás
Com o fracasso da razão ocidental, os estúpidos sobem ao poder
Outro dia escrevi sobre Bem e Mal. Hoje temos o neonazismo em pauta. O Haider tomou o poder na Áustria e o Ocidente se assanhou: Finalmente temos o Mal de volta! Oba! Podemos ser contra!. Nada mais fácil do que o Mal com rosto. Assim foi com Hitler, Stalin, Milosevic, Sadam, e agora com o Haider que, apesar de ser bonitinho e simpático, é o Mal da hora, o hype do Mal. E nós, claro, somos o Bem.
Acontece que o mal está mais embaixo. Está no fracasso da razão ocidental em solucionar o desemprego e a miséria do mundo globalizado. O mal é o capitalismo excludente e o pior é que não dispomos de outra ideologia na prateleira da História atual. Todo mundo acha que é o bem; nem ele, o Haider, quer ser o mal. Ele se diz um Tony Blair de extrema direita, um nazista moderno, uma espécie de terceira via para as câmaras de gás.
Afinal, por que a Europa e o USA ficaram tão excitados com o surgimento de Haider? Porque sabem que, debaixo da democracia de boca, rola um mal burocrático, mas tolerável, desde que invisível e o Haider está alcaguetando este truque, como um Mr. M. da direita oficial.
Temos sede do mal, como mostra a declaração de muitos jovens austríacos que disseram: Votamos no Haider porque não aguentamos mais a monotomia da política. A monotomia do bem, do correto, do democratico.
A grande sedução do mal é que ele é uno, com contornos concretos, visível. Mata-se um sujeito e ele cai, vira uma coisa nossa, apropriada como objeto total. Nada mais claro que um cadáver. Por outro lado, o Bem pressupõe tolerância, autocontrole da parte maldita animal, o bem implica em renúncias, num mundo fragmentado por direitos, leis, o bem implica numa angustiosa contemplação da diferença, em meio a uma paz sinistra, num tédio de catástrofes sem sangue. O mal, não. O mal é excitante, eficiente. O mal parece uma forma perversa de liberdade.
O que fascina e apavora em Haider que ele é o enunciador de nosso desejo, oculto sob o papo democrático. Haider diz da nossa indizível vontade de excluir pobres e diferentes. o animal rancoroso e com defeito de fábrica que nós somos entende melhor o egoísmo do que a solidariedade. O mal aspira a um bem de instintos contrariados, uma espécie de vingança pela verdade animal perdida, sem repressões, uma delícia cheia de sangue e devorações.
Há também uma grande fome de chefes, de líderes portando bandeiras de futuro, que o capitalismo impessoal aboliu, no totalitarismo de um bem molenga e chato. Todos os lideres do Ocidente fingem uma simpatia tolerante, ostentam a amor à união dos contrários, todos sorridentes, de centro. Mas, a estupidez universal aspira a bandeiras ferozes, mais excitantes que a simples promessa de um futuro shopping center informático e democrático. Ninguém quer a liberdade fraternal. O sucesso planetário dos evangélicos e as massas delirando com ídolos de rock mostram que ninguém aguenta a solidão da democracia, todos querem os exércitos de slogans irracionais, querem o fundamentalismo da crueldade prática, das soluções finais. Vivemos num mundo onde 800 pessoas tomaram veneno porque o Jim Jones mandou lembram-se?
O que sempre esteve por trás dos totalitarismos era o mito do sujeito mudando o mundo, as multidões como um, todos em um. Todos eram Hitlers no 3º Reich, todos eram Maos na Revolução Cultural, enquanto, na sociedade moderna, somos fregueses de uma entidade sem rosto, monstruosa, somos consumidores de um vendedor intemporal e anônimo, somos parte de um tedioso formigueiro sem rainha-mãe. Eu me lembro que, com a queda do socialismo, minha grande decepção foi a idéia de revolução tinha acabado, pois o que me atraia no futuro era o Uno, a idéia de uma raspagem purificadora, de re-começar a vida do zero. Eu me sentia sujeito da história. Hoje, sei que sou tristemente um objeto do mercado.
Esta idéia de raspagem, de purificação percorre desde idealistas puros até sanguinários loucos. Vai de Rimbaud a Stalin.
Ninguém vai aguentar muito mais tempo a saúde americana imposta pelas regra corretas da convivência pacífica. Numa época repressiva e careta, maio de 68 foi a explosão das multidões, pela esquerda. Hoje, com o mundo disfarçado de permissivo e democrático, será pela direita. Esse babaca do Haider não é perigoso algum. O que atemoriza são os 30% de eleitores que o amam. O que ameaça o Ocidente é um individuo querendo atrapalhar a lógica oficial do liberalismo pós-muro. O mundo atual não quer grandes homens; quer boards, corporações, executivos. Os grandes heróis são vistos com desconfiança. o mal é temido quando em mãos individuais, mas tolerado quando é burocrático e genérico. odiamos com fervor um Pinochet, mas aceitamos os canalhas do CIA que o armaram e organizaram. O massacre nazista da Chechênia ou a guerra virtual do Golfo não nos chocam; Kissinger frequenta a ópera e tem a simpatia sorridente de um supertecnocrata reapolitik, depois de ter arrasado o Cambodja e abrir o caminho para Pol Pot. A verdade que Haider é um primeiro sintoma. As classes médias vêem com medo a invasão dos excluídos. A razão fracassa e, quando isso acontece, instala-se o reino da estupidez. E o que é o nazismo senão a estupidez no poder? Até quando o mundo aguentará esta pax americana?
Isso tudo me lembra um poema do genial fascita Ezra Pound: Não há som como espadas às espadas se opondo/ não há grito como a batalha o júbilo/ cotovelos e espadas gotejando sangue-carmin!/ Deus maldiga quem quer que grite Paz!





