A Ilha de ‘‘Caras’’ é a
ilha da utopia possível
ReproduçãoAcordei de manhã e me vi transformado em alguém que não era mais eu. Não que eu soubesse, na noite anterior, que eu fôra. Não. Sempre vivi em crise de identidade, sempre me olhei no espelho e me estranhei, sem vislumbrar uma essência que me definisse. Mas, agora, olhava espantado para meu novo braço musculoso onde se gravara uma tatuagem que parecia uma marca registrada – ‘‘AJ – made in Brazil’’; ao lado, havia um código de barras. Corri para o espelho e dei um grito. Eu estava ali, mas era diferente. Meu rosto era mais jovem, como se, por uma operação plástica, tivessem me transformado num duplo de mim mesmo, com um sorriso congelado na boca, apesar do meu desespero. Havia em meu rosto uma alegria horrenda, fixa, que me dava um ar de andróide, um pós-eu, um meta-arnaldo virtual. Sai correndo do quarto e um grande sol me cegou, enquanto um som de pagode me atroava os ouvidos.
Esbarrei numa grande cascata de camarões que parecia um obelisco rosado sobre uma mesa coberta de vatapás, leitões pururucas, catedrais de ostras, uvas, mangas e abacaxis ao lado de um imenso cisne de gelo, onde dormiam garrafas de champanhe. Um grupo de maculelê batia espadas de pau ao som do pagode, capoeiristas rodavam, uma baiana distribuia acarajés dourados para uma multidão de mulheres de seios enormes como ‘‘air bags’’, bundas lipoaspiradas, todas com o mesmo sorriso eufórico, gelado, que eu vira escupido em minha boca.
Onde estava eu? Não tive tempo de descobrir, pois fui agarrado por trás por um corpo macio, quente, de uma mulher que me mordeu levemente a orelha, enquanto surgia um microfone e uma câmera com alguém que perguntava: ‘‘Vocês estão namorando?’’ A mulher se adiantou e então pude vê-la: uma gata perfeita, dourada, uma espécie de ‘‘Feiticeira’’ com o sorriso de mil dentes, respondendo ao repórter: ‘‘Somos apenas bons amigos, nos conhecemos na festa da Phitoervas, em homenagem as sandálias Melissa, e passamos a curtir juntos o verão Cebion, não é, Arnaldo?
‘‘Claro’’ – respondi – e tudo isso graças aos produtos Grendene que nos patrocinaram, graças também ao plano de viagens Vasp, que leva a felicidade e amor a todo o Brasil!’’ – ecoei percebendo em pânico que minha voz saia digital, sem comando e soava feliz, apesar do pavor que ia em meu coração.
‘‘Agora ... vamos ao jet ski, amore mio!’’ – gritou a moça puxando-me pela mão. ‘‘Sim!’’ – berrei – ‘‘e Jet ski, só kawasaki, os preferidos por Collor!’’ Em um segundo, eu cavalgava o jet ski, com a mulher agarrada em mim, sorrindo sempre. Só que, estranhamente, ela não falava mais comigo, como um robô desligado. Quando o jet ski embicou na areia, puxaram-me para um grupo de forró, dançando por dezenas de socialites: Lair macambira (31), Kristel Cibele (17), Becki Carvalho (82), Jandira Aranha (49... sic), Edilene Camarão (21), a rainha das empadas, Gerson Camarão, o rei delas (71), Lilibeth Cardoso, emergente dona do ‘‘Limpa Fossas’’ da Barra e até a ex-princesa Carol Scarpa de Orleans e Bragança, agora namorando o segurança ‘Cadelão’.
Os colunáveis rebolavam em cima de garrafas, enquanto eu, em minha persistente luta contra a alegria, via uma sombra de tristeza nos crioulos sem dentes que tocavam os instrumentos. Baixou-me uma angústia terrível, enquanto eu fingia dançar, pensando nos excluídos das periferias, o que deu um ar deprimido, pois minha namorada (qual seu nome?) ex-paquita, ex-piranha, ex-Justus, ex-Otavio Mesquita, ex-Szafir segredou-me uma ordem feroz: ‘‘Sorria! Tristeza não é ‘‘comercial’’!’’
Para disfarçar, joguei-me para a mesa de comidas, já assaltada por ‘‘Gordo’’ Barregão e Rafael Grecca, onde comi como um cavalo arrivista e bebi como um desertor do AA. Empapuçado, depois de sete caipirinhas de kiwi, sob a gentil apoio de Orloff, alcancei um pouco de ‘‘luxo,calma e volupia’’ (lembrei-me de Matisse...) e fiquei deitado no colchão flutuante ‘‘Sukita’’ na piscina amebóide, vendo a Tiazinha com sua mãe que, em lágrimas, declarava ao repórter: ‘‘Sempre quis vir a ilha de ‘‘Caras’’... Agora posso morrer feliz!’’
Eu ouvia a música de Zezé de Camargo que dava uma canja, enquanto uns políticos gordos brincavam de passar a mão na bunda uns dos outros, enquanto eu via as modelos comendo fios d’ovos, a baba amarela escorrendo das lindas bocas e o bebê de Mick Jagger vestido de Mickey mamando na mãe ‘‘topless’’. A ilha parecia flutuar no espaço, mas uma nuvem de angústia ainda me cobria. De dentro d’água, um severo organizador me rosnou: ‘‘Ria, gargalhe! Você está aqui para isso!’’
Foi quando mudou a música. As senhoras que esfregavam a bunda nas garrafas passaram a pular numa deliciosa ‘‘tarantela’’, tocada por italianos vestidos de tiroleses. Um esfuziante grupo de emergentes louras com cachorrinhos no colo faziam uma espécie de karaokê de ‘‘au-aus’’, todos latindo ao som da tarantela, o que fez meu corpo balançar ao som da música irresistível. Senti uma mordida na nuca, junto com um flash. Minha namorada falou: ‘‘Mais alegre, hein? Vamos dançar sob o patrocínio das massas ‘‘Angelica’’? O flash espocou de novo e, não sei porquê, fui tomado de uma súbita euforia. ‘‘Sim!!!’’ – berrei – ‘‘nenhum homem é uma ilha!’’
E arrasei. Pulamos até o sol cair, em meio aquela nuvem de emergentes, lulus, ‘‘au aus’’, axés, bundas, cangas, bofes, piranhas e comecei a sentir uma indescritível felicidade. ‘‘Sim... sim... por que não? Abaixo meu criticismo melancólico, viva o pagode, e eu gritava: ‘‘rebola agachadinha, vai na garrafinha vai!’’ Minha namorada parecia mais apaixonada por mim (qual seu nome?) e a Tiazinha dançava e os seguranças-gigolôs dançavam e eu berrava: ‘‘Viva o Brasil 2000! Viva a utopia possível!!!‘‘ Tudo começou a rodar e eu quis amar e dormir. Chamei minha mulher-axé: ‘‘Pra cama!’’
Duas bichas decoradoras me disputaram: ‘‘Ele vai dormir na suíte que eu decorei, toda verde e amarela para comemorar os 500 anos!’’. A outra: ‘‘Nada disso! Vai pro meu bangalô decorado como um barraco de favela, madeira e barro, com ‘frigobar’, claro...’’.
Arrastei minha ‘‘metade-Feiticeira’’ para a cama e apesar de me sentir filmado, vigiado, tivemos um belo orgasmo, mas que parecia falso e digital. minha mulher-axé sorriu: ‘‘Puxa, como é bom amar em colchões Dreamland, importados pela ‘‘King Beds’’... Dito isso, ela virou para o lado e silenciou, como um boneco, quando acaba a corda. Então, eu pensei: ‘‘Como a mãe da Tiazinha, também realizei meu sonho. A ilha de Caras é a ilha da utopia possível’’ Eu era feliz. Apertei minha tatuagem com o código de barras e deletei-me. Dormi, com o sorriso aberto e fixo para sempre em minha boca.
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