Arnaldo Jabor
TENHO SAUDADES DE DEUS E DO DIABO
Arquivo FolhaÉ um Mal não frequentar o Bem, dizia o slogan do Bar Bem, na Barra, onde eu ia namorar, no tempo em que não havia motel. Eu pecava contorcido no velho Volks, dando amassos nas moças e pensava: O que é o Bem?. Agora, volto das férias e a dúvida me assalta de novo: Será que faço o Bem? Como saber se escrevo a coisa certa ou se defendo causas sórdidas, por engano ou má-fé?
Antigamente, era moleza. O Mal era o capitalismo e o Bem o socialismo. Durante a ditadura também era fácil; o Mal eram os milicos, claro. Nós éramos as vítimas nobres, os pobres injustiçados, éramos o sal da terra de um futuro que viria. Acabou a ditadura e as vítimas cairam matando nas contas públicas, tascando o Estado com a fome de vinte anos. Até o João Alves, o anão do orçamento, era vítima da ditadura. Todos éramos santos.
Hoje está mais difícil. Só existe um Mal: o capitalismo com seu cortejo de misérias: desemprego, corrosão do caráter, mercantilismo louco. E o Bem, onde está? O Bem virou uma espécie de dieta para emagrecer, um faquirismo existencial, uma denúncia muda que não sabe como se exercer. O Bem ficou sem praxis. O Bem ficou abstrato, vagos vagidos humanitários, saudades de uma ilusão, saudades de um tempo que imaginávamos melhor... (Quando? Durante a Primeira ou a Segunda Guerra? Durante o Vietnã? Quando Hitler e Stalin matavam milhões? Quando foi melhor?)
Tenho pavor do mundo atual, mas... (ousemos pensar): e se esta espantosa mudança tecnológica trouxer algum bem na esteira da informática, genética etc... Será? (Tremo diante da Academia, só em aventar esta esperança.) Será que o homem de bem oficial tem de ser apenas triste e pessimista, profeta de um apocalipse insofismável? Hoje, só os americanos são felizes.
Legal..., mas como praticar o Bem? Apenas se horrorizando como o Mal? E se o Mal contiver bolsões de Bem dentro dele? E se o Bem oficial não passar de um regresso a verdades superadas, e se o Bem for apenas teimosia de um romantismo morto, os últimos fiapos de uma filosofia platônica? Será mesmo apenas um Mal este duro desencanto do mundo, esta americanização pragmática, esta descentralização da vida? E se esta onda suja do turbo-capitalismo estiver também raspando os últimos engodos de uma velha razão religiosa, de uma metafísica pertinaz? E se, depois do grande trauma de passagem, com mortos e feridos, despertamos para um mundo mais concreto, podendo surgir um novo romantismo menos babaca? Uma nova arte para além da indústria cultural? Uma nova cidadania para além das nações? Não consigo deixar de me excitar diante das Dollies biônicas, dos chips moleculares, diante do Huble, diante do Silicon Valley dos milagres. Perdoem-me, mas este mundo science fiction espantosamente competente me excita mais que a saudade melancolia por uma unidade, um centro, como quer o velho pesadelo francês que só vê horror no futuro. (Prefiro o pensamento plástico de um Michel Serres, aberto ao imprevisto, do que a paranóia endurcie de um Bourdieu).
O problema é que o Mal está sem rosto. Já tivemos Pol Pot, Mao bons tempos... Pinochet, última iguaria, é degustado com paixão pelos politicamente corretos.
Hoje quem é o planejador do Mal? Como é o rosto dele? Será que o Japão vai parar de fazer robôs, para empregar a mão-de-obra faminta da Somalia?
Outro mal de hoje é que todo mundo quer ser o Bem. O Larry Summers, diretor do Tesouro Americano, não diz que está conquistando mercados, mas sim espalhando a democracia. Claro que são uns mentirosos imperialistas, mas e se as coisas produzidas por este Mal, um dia, criarem um Bem inesperado? Para os americanos e sua razão digital, o Mal está no incompreensível, cada vez mais o Mal é o ilógico. Só restam às hostes do Mal os terroristas, os hackers e os psicopatas. A AOL comprou a TimeWarner. Isso é bom ou ruim? O Mal é o assaltante faminto ou o assaltado rico? Ou nenhum dos dois? O mal é sempre o outro. Nunca somos nós. Ninguém diz, de fronte alta: Eu sou o sr. Diabo de Oliveira, muito prazer...
Só um novo Bem poderá dar conta do Mal. O difícil é fazer o bem sem uma ideologia eficaz. Esta ideologia só vai surgir de dentro da barriga deste mal vitorioso. Só um Bem que ouse ter Mal dentro de si poderá parir um novo humanismo, descentrado, prático, não-religioso. o Bem ingênuo só serve de alimento para o Mal.
No Brasil, o grande mal não tem importância. O perigo aqui é o pequeno mal enquistado nos aparelhos do poder, na herança escravista, nos psicopatas-light que nos roem a vida em silêncio, dentro de uma lei que os absolve como homens de bem. O mal no Brasil não está nos torturadores cruéis; está na cordialidade. Aqui, o perigo é o Bem. Até ao denunciar o Mal, vivemos dele. Eu lucro sendo bom e criticando o mal. Voltei de férias, para lançar estas dúvidas a meus leitores. Isto é Mal ou Bem?





