INTELECTUAIS TEMEM INVASÃO DAS SALSICHAS GIGANTES
Há uma barreira mental querendo ignorar a cruel novidade do mundo
Ando espantado. Duvido de minha pobre razão. Há uma distonia brutal entre o que eu sinto, olhando o país (numa fase perigosamente rica de mudanças) e o que leio dos intelectuais sobre ele. Há uma onda de coisas novas no Brasil que ninguém analisa. Talvez eu seja apenas um neo-romântico bobo; falta-me, talvez a tranquila contemplação do erro do mundo, o cético amargor dos ‘‘scholars’’ e professores.
Vasculho jornais e livros em busca de uma reflexão que se arrisque a errar. Só encontro textos restauradores ou desconfiados. Gente pensando na ‘‘conspiração’’ da história contra nós, gente preocupada em manter suas certezas vivas. Só encontro textos que passam longe das ‘‘idéias impensáveis’’ (‘‘unthinkable ideas’’), coisas que só de pensadas podem sujar o autor como ‘‘reacionário’’ ou ‘‘cooptado’’, o grande medo. Há uma patrulhagem sutil no mundo acadêmico. Ninguém quer se aventurar na análise da mudança histórica evidente. Diante deste ‘‘ritual de passagem’’ brasileiro, provocado pela globalização da economia, todos pisam em ovos. Os textos que leio (de Touraine e Kurz até aos brasileiros) têm sempre a mesma estrutura ‘‘narrativa’’:
1 - Introito: descrição do fenômeno da globalização (alguns tendo-a como ‘‘inevitável’’ e outros como ‘‘conspiratória).
2 - Listagem dos maléficos desta fase histórica: fetichização das mercadorias, exclusão social, perda da identidade, dureza do capitalismo, futuro distópico.
3 - Conclamação à razão: ‘‘precisamos encontrar um dique, uma alternativa para isto!...’’
4 - Conclusão aberta: ‘‘O que fazer? Não se sabe...’’ De todos os textos emana uma grande saudade dos ‘‘bons tempos’’ da plenitude ideológica, uma nostalgia do ‘‘controle’’, ou melhor, uma nostalgia da ilusão de esperança que o socialismo nos dava. Não sou cientista político, mas acho que está pobre a discussão dos temas óbvios deste momento brasileiro, quando estamos, sim, à beira do abismo das idéias antigas, às quais nos agarramos.
Saudades da História
Nós estamos com saudades de quê? Afinal, quando foi ‘‘bom’’ para os intelectuais? Na Primeira Guerra Mundial? Nos massacres de Stalin, de Hitler, na Segunda Guerra Mundial, na invasão da Hungria, de Praga, na guerra da Coréia, do Vietnã, no golpe de 64, nos crimes de 68, na morte dos pobres meninos suicidas das guerrilhas urbanas? Que tempo ‘‘bom’’ foi este? Será que foi a época em que os intelectuais podiam deitar regras e sistemas harmônicos para criticar inimigos mais ‘‘palpáveis’’? Nossos inimigos desmancharam no ar. Agora, com a invasão das coisas fragmentadas do mundo (nós que amávamos tanto nossas vanguardas ‘‘fractais’’, nosso teatro do absurdo...) nós nos fechamos num orgulho ferido pelas salsichas gigantes, pelo mercado sinistro, pela vitória acachapante do Bill Gates. Mesmo grandes intelectuais se fecham num desinteresse superior, não se arriscando a uma revisão de idéias, que ainda é vista como traição. Será que os intelectuais estão preocupados com a coerência ou estão emputecidos com o descentramento das certezas que esta invasão mercantil provoca? A sensação que tenho é que uma barreira de lero-lero tenta ignorar a cruel novidade deste mundo que se fez sozinho.
Roberto Schwarz tem um trecho fascinante em seu clássico capítulo ‘‘As Idéias fora do lugar’’. Ele diz que abalar a ‘‘intenção universal’’ de uma idéia podia ser, na Europa, ‘‘uma façanha da crítica’’; mas que, aqui, a mesma ‘‘idéia’’ podia ser abalada pela singela descrença de qualquer pachola. Isto seria (arrisco) quase uma vantagem desmistificadora de nosso oportunismo colonial ignaro, quase uma ‘‘originalidade’’ antropofágica. Sérgio Buarque de Hollanda escreve em ‘‘Raízes do Brasil’’ que somente uma ‘‘revolução americana’’ (não ‘‘norte-americana’’) nos salvaria, com uma desconstituição do estado patrimonialista ibérico e uma injeção de calvinismo em nossos estamentos seculares.
E Glauber Rocha disse, outro dia, num debate inédito de 77 que o JB publicou: ‘‘o fato dos heróis terem sido heróis, não me impede de criticar seus erros políticos’’. E, desesperado na busca de um caminho para além da óbvia ‘‘boa consciência’’ militante, elogiou o General Golbery, o que lhe valeu chuvas de pedradas. No entanto, idéias assim clareiam por instantes o raciocínio obediente da academia temerosa da excomunhão.
Pacholas e Dogmáticos
Nosso univerno mental foi moldado pelo Estado patromonialista, pelo escravismo, pelo latifúndio e pelo ‘‘favor’’ clientelista. A ruptura deste universo toscamente ‘‘universal’’ não seria saudável para nosso pensamento? Pergunto: estamos sendo imaginosos no entendimento da crise, ou estamos agarrados em dogmas epistemológicos europeus e católicos? Como analisar a guerra entre o Uno e o Múltiplo que se trava hoje, entre o centro europeu eo Descentramento americano?
Quais são hoje ‘‘as idéias fora do lugar’’? Será que não está havendo uma guerra entre ‘‘idéias fora de lugar’’ americanas contra ‘‘idéias fora do lugar’’ européias? Será que não estamos precisando de um novo ‘‘pachola’’, que destrua ‘‘universais’’? Há perguntas evitadas. Por exemplo: é possível refletir ‘‘à esquerda’’, aceitando a fatalidade das classes sociais, sem a alternativa de ‘‘revolução’’? Estamos levando à sério a idéia de democracia, ou apenas executamos uma estratégia ‘‘revolucionária’’ contra esta democracia ‘‘burguesa’’? Não está na hora de uma autocrítica cultural? De quem é a culpa de nosso atraso? Só dos inimigos externos? Até quando seremos vítimas dos outros?
Como fortalecer uma sociedade civil sem a derrubada da dependência ao Estado Ibérico? Será que esta falência do Estado patrimonialista não vai justamente fortalecer a idéia de ‘‘coisa pública’’, que já surge, timidamente?
Não é um paradoxo interessante que esta distinção mais nítida entre o ‘‘público’’ e o ‘‘privado’’ esteja sendo demandada justamente pelo nosso velho capitalismo imperialista, que precisa de regras claras para trabalhar, já que os computadores do capital não aceitam variáveis ilógicas como ‘‘amazoninos’’ ou ‘‘precatórios’’?
E eu pergunto: será que a história do Brasil não tem sido a sobra entre o invasivo e o desejado? Será que nós não temos sido mais o resultado da pressão das forças produtivas externas, do que do lero-lero defensivo dos ‘‘projetos nacionais’’? Nosso liberalismo de pacotilha, nacionalismo, marxismo desenvolvimentista sempre tiveram um sabor de algaravia impotente diante da calma violência das coisas do mundo. Talvez esteja se completando, agora, uma revolução ‘‘protestante’’ contra nossa católica contra-reforma. Temos de sair das camas teóricas e ver de novo. Precisamos de ‘‘pacholas progressistas’’ como Oswald ou Glauber. ‘‘Por que não? Por que não?’’, como cantou o Caetano profeticamente, e que também penou nas mãos das patrulhas.

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