Arnaldo Jabor
Arnaldo Jabor
Em Ipanema, éramos donos
da praia, do sol, do mar
O livro de Ruy Castro nos leva de volta aos anos dourados
ReproduçãoUm jovem amigo leu o livro de Ruy Castro Ela é Carioca, sobre Ipanema, onde eu apareço, bem mais magro e bonitinho, chupando uma laranja ao lado de Eduardo Mascarenhas no Posto 9. Sôfrego, ele me pergunta, como se eu tivesse morado no paraíso:
Era legal lá?
Bem... Ipanema nunca existiu respondo como enigmático veterano. Ipanema não era a república jovem, o sindicato do chope, a ilha da liberdade. Ipanema era uma praia dentro de nossa cabeça...
Sim, mas como é que era? pergunta o rapaz, sequioso de chupar aquela laranja ao pôr-do-sol.
Bem... (demoro-me, para aumentar o suspense) ...era bem legal... O difícil de explicar aos jovens de hoje, é que Ipanema era uma praia com projeto. Ninguém entende isso hoje. A minha Ipanema dava a sensação de que havia algo de relevante em nossas vidas, havia uma palpabilidade em cada pequeno ato. Tudo tinha um leve, levíssimo sabor político. Eu me sentia ator de um tempo importante, eu achava que o Brasil todo ia ser uma grande Ipanema, como o Tom dizia. O jovem de hoje (disse-o com paternal arrogância) foi transformado num fetiche de consumo. Nós éramos jovens com poder. Hoje vocês são livres globalizados, mas não se sentem mais donos do mundo, como nós. O mundo é que manda.
Santo Deus, vocês não conhecem a delícia da ilusão... Ipanema nos anos 60 estava na fronteira entre dois tempos. Foram os anos de passagem de um tempo delicado, familiar, individualizado, para um outro tempo mais duro, vertiginoso. Ipanema era modernista e calma. Todo mundo se conhecia. Não eram estas multidões vorazes e sem rosto. O ritmo da bossa nova, leve e lento, descreve muito bem Ipanema. Era mesmo assim. Nítido. As coisas tinham a limpidez dos desenhos animados de Walt Disney. Você reparou como naqueles desenhos até a paisagem é feliz? Tudo faz parte de um conjunto harmônico, sem angústia, sem morte. Era assim. Eu me sentia proprietário do sol, do mar. Ipanema era nossa, de um bando de pequenos burgueses iludidos, mas era nossa. Era uma conjunção astral rara: os Beatles, o psicodelismo, a indústria nascente do jovem, a revolução utópica. Naquela época, de 59 até 68, éramos o sistema, éramos a lei e o desejo.
E o sexo? E as mulheres? perguntou o jovem de lábio úmido e olho brilhando. Você comeu muita gente?
Olha, cara... Fiz mistério, como um casanova humilde. Vocês hoje são muito mais livres, apesar da Aids, mas vocês não têm uma coisa maravilhosa que vivemos aos vinte anos: a repressão.
Vocês ficam entediados de tanta oferta fácil, o sexo perdeu a aura de novidade de antes. As meninas tinham pânico de engravidar, empacavam nas portas dos apartamentos, tinham de ser embebedadas para permitirem uma sacanagem mais caprichada. Graças a Deus, fomos salvos pela pílula anticoncepcional. Foi um sol. As meninas passaram a dar. Mas, não era esse dar comum, desglamourizado de hoje, este fast sex, não. Era um dar ainda mutilado pelo temor do novo, ainda com perfume de pecado, ainda com o doce olho mágico do superego paterno, ainda era um sexo com sabor de crime. E, mais, a menina não estava só dando, o rapaz não estava só comendo; era um ato político, sim senhor; estávamos ali no sofá-cama rasgado do apartamento emprestado inaugurando um novo tempo, uma era de Aquário, sei lá, pois ainda não havia móteis, só permitidos a partir de 67. O motel matou o encanto da tesão proibida. Ali, no canto escuro da rua, entre dois andares do edifício, vivíamos a liberdade do Marcuse mal lido, pois éramos moda. E mais, as moças eram mais atiradas que nós. Elas eram ávidas do sexo sem barriga, eram guerreiras desbravando o amor, ahhh... as mulheres do meu tempo... disse, castigando a inveja do rapaz boquiaberto.
Mas, afinal, você comeu gente ou não comeu?...
Olha, cara... a gente fazia o que podia... Nunca fui um Arduino, um Miguelzinho Faria, um Ruy Solberg, mas fiz o que pude... Havia mulheres míticas, personagens poderosas, Não lhes posso dizer o nome, porque você sabe que um cavalheiro não tem memória ah... ah... (senti-me mais velho, ao soltar o lugar-comum). Hoje, vejo estas mulheres malhadas, fabricadas, rebolando em garrafinhas, hoje temos esta espantosa e brochante oferta de bundas e seios nas revistas, mas você não sabe o que era uma Duda Cavalcanti, uma Tânia Caldas chegando ao Posto 9, na hora do sol torto, quando tudo virava um oásis, com camelos ao longe, palmeiras, aquela bola dourada caindo, sob o pregão dos vendedores de limonada que eram poucos e com nome. As mulheres mitológicas dos anos 60 eram promessa de impossibilidade, elas não eram de ninguém, tinham provisórios namorados, sim, mas eram solitárias, precursoras, heroínas. Ipanema foi uma grande revolução feminina! É isso! Os anos 60 fizeram uma revolução fêmea. As mulheres é que nasceram naquela Ipanema, muito mais que os bofes, que tiveram que aprender a ser mais mulher. Feliz de quem viveu um tempo feminino!!! Hoje, sofremos sob o signo dos machos canalhas destruindo o mundo.
Mas, Ipanema não foi só uma. Houve a Ipanema romântica até 68. Depois, já foi a praia com dor, com angústia, com medo. Também foi legal, mas não era a mesma coisa. Tínhamos sido o sistema; viramos resistentes. Muita porrada, muita polícia, muita piração. Em 69 passei 8 meses na Bahia, filmando meu primeiro longa-metragem. Quando voltei, 70, havia terríveis indícios no ar, a poeira das casas que caíam para construir os monstruosos edifícios de Sérgio Dourado que, com esse nome poético, destruiu o bairro inteiro. De noite, na porta do bar Zepelin, já modificado numa lanchonete de plástico, cheio de mauricinhos de calças boca-de-sino, senti que o sonho tinha acabado.
Poxa, você é que foi feliz... diz o jovem.
Podes crer, cara... e viro as costas, de olho úmido.





