Arnaldo Jabor
Meditação, de Auguste RodinEstou lendo Nietzsche. Vejam uma frase sua, genial e sinistra, que parece o início do Guerra nas Estrelas: Há muitos séculos atrás, em um ponto perdido no universo, banhado pelas cintilações de inúmeras galáxias, houve um dia um planeta em que animais inteligentes inventaram o Conhecimento. Foi o instante mais arrogante e mais mentiroso da história do universo, mas foi apenas um instante. Depois de alguns suspiros da natureza, o planeta se congelou e os tais animais inteligentes tiveram que morrer. Nietzsche escreveu isso no fim do século passado, querendo dizer que, por trás da busca científica e racional da verdade, mora o desejo de morte, de esgotamento da vida, por uma letal explicação de tudo. No mundo atual, vemos o espantoso descompasso entre avanço científico e humano, vemos a convivência horrível entre o Hubble e Mobutu. E aí lemos outra frase de Nietzsche, falando da importância da Arte: A Arte é mais poderosa que a Ciência, pois ela quer a vida, enquanto o objetivo final do conhecimento é o aniquilamento. Claro que não tenho nível para aprofundar este tema; mas temos hoje esta metástese científica da informática ao lado do indigentíssimo, tuberculoso desempenho artístico do mundo. Temos de um lado o mercantilismo escroto de Hollywood, ou dos teatrões ou das galerias chics ou dos best sellers. Do outro, a solidão melancólica das Documenta, dos bodões negros dos ghetos da revolta oficial. A morte da Arte é a prova mais suja do crime moderno, a prova de que esta revolução virtual não vai levar a nada a não ser ao suicídio da transcendência, a islamização das massas (vejam os evangélicos e os xiitas) e a estúpida reificação progressiva dos homens, não mais como mercadorias fetichizadas, mas como chips. O futuro é cinzento.
Precisamos de arte, como uvas e frutos e danças e como um coro do Silonoc, do Dionícios, pois a ciência e a razão estão quebrando a cara, querendo chegar até aos ossos da essência. A arte é a ilusão acoitada, a clareza feliz de que a aparência é o lugar do humano e que só nos resta esta hipótese de felicidade num planeta gelado. Não a arte-espetáculo, mercadoria de ver, mas a arte como ritual de embelezamento da vida. Nietzsche: A ilusão é a essência que o homem se criou.
Aí, saindo do parnaso para o botequim, o sujeito chega para mim e pergunta: Como é, não vais fazer mais filme? Penso: Grandes merdas o que o cinema está perdendo..., mas tenho de me valorizar e respondo: Pra quê? Pra ficar bajulando o mercado ou morrendo de rancor no gheto? Para que, para adaptar o pensamento ao óbvio óbvio ou ao óbvio profundo? Humildemente, estou trabalhando aqui neste espaço e na televisão, onde minha cara tenta fazer uma espécie de arte conceitual das notícias brasileiras. Faço uma espécie de filme de mim mesmo. Quando penso em fazer cinema, ou seja, encarar produtores em delírio, florações de atores, arreglos vergonhosos, puxa-sacos delirantes, narcisos em flor, egos inflados e egos murchos, críticos maledicentes, magros proventos, duvidosa aceitação internacional, aí, eu penso duas vezes e paro. E respondo ao chato do bar: Cinema é chato... Mas eu deveria responder algo como: Tenho medo da arte. Está um bodão muito negro. Não só o sistema da circulação das mercadorias não nos deseja, como os artistas embarcaram numa canoa furada. Arte era muito melhor e importante. Caiu muito, sifu, dançou, entrou de gaiata no navio. A vanguarda ficou acadêmica, eu diria.
Mas não digo nada e continuo pensando: O conceito de experimental está muito ligado à idéia de sofrimento, auto-destruição, à proibição da redundância como um crime e ao cultivo do desagradável e do feio. A experimentação tinha de ser, como queria Stravinski, exaltante. A arte se fechou numa paranóia conceitual e minimalista, que impede a generosa loucura de um neo-barroquismo. Movidos pela idéia socrática que Nietzsche tanto ataca, de que a arte tem de ser subordinada à Razão, os artistas caíram numa denúncia melancólica das impossibilidades. Não há futuro para a arte subordinada à razão, seja ela digital, mercantil, iluminista ou o cacete a quatro. A celebração dionisíaca do existir é considerada frescura ou alienação.
Prevaleceu a vertente triste do modernismo, a vertente conceitual que joga sobre o mal do mundo apenas um vago mau-humor, uma ideologia nevoenta de criticismo sem nome, apenas uma arte enojada contra o mal-estar da civilização. Acho que está na hora de se recriar um construtivismo positivo, em vez da destrutividade automática.
Por que a melancolia seria mais profunda que a alegria? Lembro que outro dia eu vi uma grande dionisíaca, febril, erótica, efêmera, superficial-profunda obra de arte: a entrega dos Oscars da moda, no Multishow. Era o apolíneo-dionisíaco delírio do Nada feliz. A moda superficial era mais profunda que um babaca expondo seus excrementos na Leo Castelli. Nietzscheanamente, os modettes estavam sacando que a ilusão é uma exigência básica da vida. Não confundir com mentira. Nem com alienação. A ilusão como a aceitação do efêmero, atualizado com alegria. Não digo nada, mas penso ainda:
E se a arte tentasse disputar pau-a-pau com o Sistema, mesmo sabendo que perde, em vez de cair nesta velha auto-flagelação acusatória? Será a melancolia a única forma de reflexão? Como então explicar Fred Astaire, Busby Berkeley, Cantando na Chuva, a arte pop, o jazz? Depois do pop, será um Aids conceitual não atacou tudo, depauperando a luta?
Quando vi os Rolling Stones no Brasil, vi a arte moderna em pleno triunfo, debochada e feliz. E escrevi que os Stones são o Bem que o Mal do mundo produziu sem querer
Será que não se esgotou a denúncia do feio pelo mais feio, que oculta um idealismo utópico que odeia a vida real, por adesão a um possível platonismo? O novo não poderia ser belo que denuncie, com sua luz, a injusta vida? Será que divididos entre o meio e a mensagem não estamos em lugar nenhum? Mas, aí não digo nada disso e respondo ao sujeito no botequim: Cinema? É chato... tem de acordar muito cedo...





