Arnaldo Jabor
Arnaldo Jabor
O governo Collor foi um
marco na vida brasileira
O Livro Notícias do Planalto inaugura a autocrítica na análise política
ReproduçãoAinda não li o livro Notícias do Planalto, de Mario Sergio Conti, mas já lhe sinto a importância. Pelas folheadas que dei, pelo que a imprensa diz, nervosa e fascinada, creio que ele busca a inclusão dos jornalistas (e de todos) no drama do País, tirando-lhes o privilégio da contemplação de fora, acabando com sua pureza diante de mares de lama que eles julgam não-navegar. Com este livro, confirmo minha crença de que Collor foi um marco na vida brasileira. Collor foi um quadro vivo da nacionalidade, com a nitidez esquemática das burletas. Parecia uma caricatura didática, um napoleão bonaparte que agiu contra si mesmo, quase um revolucionário masoquista que denunciou os crimes de sua classe, cometendo-os com luminoso descaro. Collor anunciou o fim da época, com seu discurso falsamente moderno. Collor foi o mais perfeito exemplo das idéias fora do lugar, falando em progresso com os pés metidos no melaço patrimonialista, escravista e corrupto do velho mundo de Alagoas. Ele e sua corte foram uma galeria de corruptos explícitos, bonecos de Angelo Agostini, angelis, chicos carusos ao vivo. Os dentinhos de Rosane Collor, a barriga de Joãozinho Malta, a competência profissional de PC - nosso Gilberto Freyre da corrupção que tanto nos ensinou sobre o Brasil os perfis gatunos de gente como Clepto Falcão, a turma da Operação Uruguay, os decotes, os laquês, as gravatas Hermés, os sabadões sertanejos, os adultérios cafajestes, Zélia dançando com o Bôto, a dor-de-corno de Pedro, a beleza de Thereza, musa e origem do impeachment... oh, meu Deus, que maravilhoso panorama de merda! Assistimos, lívidos, a uma saga greco-alagoana, a uma mistura de Nelson Rodrigues com Sérgio Buarque de Holanda. Collor botou toda a sociedade olhando o poder pelo buraco da fechadura da Casa da Dinda, nos colocou na vergonhosa posição de espectadores vitimizados e otários - o que aliás, sempre fomos sem saber. Collor mostrou a fragilidade de nossas intituições e nos provou, na exibição de suas escrotidões, que nossa democracia é para inglês ver, que a corrupção é endêmica e oficial, que estamos indefesos com esse sistema judiciário, que o velho Brasil institucional é uma farsa que precisa de reformas. E finalmente, Collor nos ensinou a fazer o impeachment, acordando a sociedade civil, pedindo-nos que fôssemos às ruas. Collor nos modernizou com seu arcaísmo. Nunca mais seremos os mesmos depois de Collor.
Os perigos da pureza
Collor foi um paraíso para os jornalistas, propiciando-nos críticas burlescas e deliciosas crônicas de chanchadas. No entanto, Collor viciou os jornalistas no esquematismo da análise fácil, porque os traços grossos podem nos levar a esquecer a imensa sofisticação dos crimes públicos.
Hoje, ficou muito mais difícil entender e escrachar o conjunto da política nacional. O projeto de FHC partiu com uma busca de uma complexidade, tentando dentro da irreal democracia brasileira tirar reformas possíveis sobre ela mesmo. Se, em parte, este projeto tem fracassado, deve-se, em parte, a analistas que não lhe consideram um gota de confiança, denunciando de saída a tal complexidade aliancista de FHC apenas como reacionária, emprestando ao simplismo tintas viris e radicais.
Depois de Collor, ficamos viciados num voyerismo jornalístico com mão única para Brasília, esquecendo-nos do resto do País e de nós mesmos como co-responsáveis por nosso destino.
Depois de Collor, passamos a crer que o Brasil é um problema só político, quando a grande descoberta de nossas decepções é que a sociedade é muito mais culpada do que parece, é que os problemas nacionais são muito mais estranhos em nossa alma, em nossa antropologia, em nossas tradições do que imaginávamos.
Alberto Dines escreveu corretamente que, por exemplo, neste episódio do narcotráfico, se os jornais gastassem um pouco mais de dinheiro pagando correspondentes nos Estados, teríamos sabido mais cedo de toda esta rede de lama. Mas, claro, é bem menos trabalhoso e mais barato ficar de olhos postados preguiçosamente só em Brasília.
Esta época de incertezas que vivemos, que nenhuma análise desvendou ainda, essas ideologias sem clareza não devem nos remeter a um esquematismo nostálgico e rancoroso, não devem nos levar a utopias regressivas e simplismos rasteiros. Temos de suportar a penumbra dos caminhos, com a humildade de analisar parcialidades, difíceis vínculos, ligações imprecisas.
Depois de vinte anos de ditadura quando nos santificamos com a aura de vítimas nobres vimos, no governo Sarney, as vítimas da ditadura saquearem o Estado, levando-nos à hiperinflação e à vergonha. Depois de Collor, aprendemos que a democracia formal não bastava, que precisávamos democratizar as instituições políticas e jurídicas, sanear as terras onde medram o crime e a ingovernabilidade.
Nós jornalistas temos de nos precaver contra as seduções do Poder. Mas também devemos tomar cuidado com a sedução de uma pureza imaginaria que nos absolveria dos erros do País. Há muitos tipos de picaretas possíveis, além dos que pegam bola dos poderosos. Há o picareta do bem, o picareta reserva moral, o picareta das certezas a priori, o picareta revolucionário tardio, o picareta isento e objetivo. A grande lição desses anos, para os jornalistas e todos os cidadãos, deveria ser autocrítica como peça essencial na análise da vida brasileira, com nossa inclusão nos erros nacionais.
O Brasil é um grande erro coletivo, do qual somos cúmplices. Talvez seja esta a lição do livro de Mario Sergio Conti, que ainda não li.





