Arnaldo Jabor
Arnaldo Jabor
As cidades serão engolidas pelas periferias
A solução para a miséria fica cada vez mais remota
Agência EstadoDei três machadadas nele. Arranquei a cabeça dele e joguei para o outro lado. Vocês ouviram bem? Não ouve tragédia, nem ódios intensos, nem ritual de sacrifício por Deus; apenas um gesto simples, desprovido de grandes motivos: um garoto com um machado decapitou o colega já queimado por outros a maçarico, perto de outros três também queimados e mortos a marretadas. Tudo diante de nossos olhos, nós, os branquinhos, os escandalizados, os donos da moral, nós, que temos o direito de ter o raro sentimento de solidariedade. Como analisar o terrível silêncio desse crime? O assassino narra:
Ele pediu pelo amor de Deus... E eu: Não fala em Deus nessas horas, porque já era... E, pronto, três machadadas e a cabeça vôou longe. Já era. A gíria, que surgiu como um requinte pequeno-burguês em relação à moda, nos anos 60, virou esse refrão do destino nas prisões e socavões da marginalidade. Já era, maktub, estava escrito, Kaput, cessa qualquer fala, qualquer razão, qualquer piedade, o destino já aconteceu, já caiu o cutelo.
O que nos choca é que foram meninos, diante da TV, num clima que posso chamar de inocente. Uma inocência pavorosa, sangrenta, como um detrito eliminando outro, como se o assassino e a vítima fossem a mesma coisa, só que o machado estava na mão de um deles. O jovem assassino matava a si mesmo, matava a miséria, a cloaca de sua vida, o horror de ser quem era, no outro. A miséria se odeia. E os instrumentos para entender esta brutalíssima violência estão cada vez mais insuficientes. Tudo soa pequeno-burguês, careta, com reflexõezinhas psicológicas ou sociológicas para esgotar o vazio desses assassinatos. O que é entender? Como se eximir desse horror que não se explica? O machado cai e já era. A dor terrível é que esse rapaz de 17 anos cortou nossa cabeça também e mostrou como estamos longe da verdade suja do mundo de hoje, como somos despreparados para entender a calamidade existencial de nossas periferias imundas. O horror não é só a fome ou o desabrigo, mas a multidão de desejos soterrados na lama da sociedade.
Antigamente a miséria era lá, nos morros, na seca longe. O crime era um desvio do comportamento normal, era casual, por comida ou bens. O crime nos re-afirmava por sua excepcionalidade, legitimava nosso mundinho bom. Hoje, o crime nos envolve, nos enoja, queremos nos livrar dele, mas ele volta e gruda em nossos olhos. Hoje, não há mais inocentes. Hoje, nos é que ficamos caretas diante deste mundo periférico que não se explica e que se abre em volta de São Paulo, gerando outra ética, funérea, sangrenta, muito diferente da nossa bondade de privilegiados.
Antigamente, pobres e assassinos pareciam não ter vida interior. A TV, a comunicação democratizante do consumo, fez surgir uma massa miserável, mas desejante. Pulsa nos bailes funk uma brutal corrente de desejo, a violência como fonte de expressão, o assassino como alívio para humilhações, surge uma certa normalidade homicida, desprovida de culpa, de pecado. Os crimes não estão ficando mais cruéis; ao contrário, estão cada vez mais simples. A crueldade diminui porque todos são vítimas de um mesmo horror que os abate, todos são parte de um negro matadouro, onde uns exterminam os outros. Os meninos da Febem matam cumprindo a lógica de extermínio que está por trás dessas prisões imundas, que nenhum mutirão governamental tentou reformar, desconstruir. Poderia haver centenas de pequenas colônias educacionais no campo, ligadas ao trabalho e à educação mas, isso nunca deu voto, isto é chato, isto iria contra nossa tradição colonial de desinteresse pela educação, contra nossa adesão escravista às senzalas, ao massacre, ao confinamento. A lógica de nossas cadeias leva necessariamente à idéia de câmaras de extermínio, com massacres que vamos esquecendo com o tempo. Quem se lembra da fritada de homens feita num cadeia lotada onde só sobrou um par de tênis derretidos? Onde foi mesmo? Lembram? Assim como os assassinos estão ficando menos cruéis e mais brutais, nós estamos ficando mais cruéis, mais acostumados com este ritmo de horrores crescentes. Há alguns anos, por via de uma contracultura alienada, o criminoso até portava a aura de herói. Hoje, como na arte, não há mais aura nenhuma em ninguém, nem no morto nem no vivo, nem no branco nem no preto. A população de desgraçados aumenta dia a dia e não podemos mais ignorá-los, nem a influência de sua ética. Há uma liberdade espantosa nestes homens e meninos, porque eles atravessaram a fronteira do medo e da morte. Lembram da apresentação dos Racionais MCs na MTV, com o fascínio dos playboys pela ética bruta dos manos? Em meio a ilhas delirantes de evangélicos acalmando as massas (já vistos com alívio, para sossego das elites), um mar de esgoto se encrespa tempestuoso, ameaçando mudar os costumes pequeno-burgueses. A periferia está virando uma estranha vanguarda de comportamento.
Como são ridículos nossos projetinhos pelo social como se existisse outra coisa além do social. Andem de helicóptero por meia hora sobre o infindável mar de casas-de-ratos da periferia. A única coisa que justifica o governo de São Paulo (e de outros governos) seria a criação de pólos de crescimentos ali, com urbanização, estímulo a indústrias, zonas produtivas para gerar empregos para os adultos, criação de imensas creches e centros educacionais que tirassem as crianças do destino trágico de miséria. Vontade política com imaginação. Mas, os governos preferem a Av. Paulista. É mais provável que daqui a uns anos surja uma ciência de extermínio do que um projeto radical de salvação desses desgraçados. A idéia de solução está cada vez mais remota. Solução? Já era....





