Arnaldo Jabor
Arnaldo Jabor
Por que o PT não cai logo
na clandestinidade?
O partido operário foi dominado por pequenos-burgueses
Arquivo FolhaLulaEm 1996, escrevi um artigo sobre o Lula, onde eu dizia: Lula mudou a agenda da velha esquerda em 78, pois nasceu da barriga real do ABC metalúrgico, filho crítico do regime militar. Lula não queria papo com intelectual babaca, nem lero-lero com estudante burguês. Masoquistas como eles só, os intelectuais ficaram molhadinhos. Quanto mais o Lula os desprezava, mas era amado. Mulheres, jornalistas e professoras começaram a querer dar para ele, aquele pênis-operário no céu da esquerda. Era a primeira vez que se via uma agenda dissidente nova, que fazia a revisão de ideologias pré-fabricadas e já testadas como fracassos políticos. Lula pensava a partir das fábricas e dos interesses reais dos trabalhadores e havia em sua prática-teórica um reconhecimento do mundo moderno que a velha esquerda pequeno-burguesa nunca tinha feito. De certa forma, a estratégia de luta no mundo neoliberal de hoje já estava ali, pré-figurada por ele. As melhores cabeças da esquerda pequeno-burguesa foram lá beber. FHC estava lá. E ali já estava se gestando da idéia do PSDB. O ABC da Volks e GM trouxe a Lula uma modernidade crítica.
Lula foi o cavalo desta mutação histórica e previu, nos anos 70, como agir no capitalismo de hoje.
Outro dia, achei uma velha revista chamada Extra de agosto de 1984. Na página 54 há um artigo sobre Lula chamado Quem faz a cabeça do baiano, um texto de Luís Maklouf Carvalho. Neste artigo dá para ver quem era o Lula original, já presidente do PT, a única coisa nova que surgira depois da derrota de 64. Nesta revista amarelada, o Lula diz:
Setores da esquerda e da intelectualidade não acreditam que um trabalhador possa ter um despertar e começar a falar o que alguns só sabem porque leram algum livro. (...) Estas pessoas acham que a classe trabalhadora é incapaz de formular uma visão política sobre as coisas ou os caminhos de suas lutas. Essas pessoas são incapazes de acreditar que quem faz a minha cabeça são os problemas que a classe trabalhadora vive hoje. (...) Nunca quero me apresentar como se tivesse a verdade dentro da cabeça, porque ela não é absoluta e pode não ser a verdade do conjunto do povo brasileiro. Não tenho a preocupação de dizer se sou comunista, anarquista, socialista ou cristão. Prefiro me definir como um cidadão brasileiro, com consciência de que os trabalhadores precisam se organizar visando chegar ao poder. (...) O meu problema com alguns marxistas é que eles não querem adaptar o marxismo à realidade brasileira. Como levar o marxismo ao trabalhador rural? Isso não é fácil mas alguns já têm o prato feito e só querem que o povo coma nele. (...) Se Marx pudese ressuscitar e julgar os que se dizem marxistas, muitos seriam condenados por ele.
Na mesma reportagem, já temos o avanço dos ideólogos de plantão, tentando levar o Lula, que tinha descoberto o óbvio, que foi mais moderno que o Lech Walesha, para o delicioso mundo das utopias e das abstrações. Ali já estão as opiniões dos teóricos tão temidos. Por exemplo, a opinião de Ricardo Antunes, professor de História:
É surpreeendente que um líder como ele desconheça questões no plano do marxismo. (...) Ele oscila entre um reformismo burguês radical e, no limite, chegaria à uma espontaneidade operária. A síntese entre o elemento espontâneo e o elemento consciente, que implica numa absorção do verdadeiro marxismo, isto o Lula não atingiu nem longinquamente.
O seu amigo Luís Eduardo Greenhalg opina também: Lula é indisciplinado e desorganizado, não estabelece prioridades, não cumpre todas as tarefas, é absolutamente caótico em relação a agenda.
E o Deputado José Genoíno vai no estribilho: Lula é um burguês quando vai para a grande política e um operário quando está nas bases. Tem um preconceito acentuado em relação à esquerda organizada. Uma visão pequeno-burguesa do socialismo. Lula está longe do marxismo.
Mas, Lula fecha, dizendo: Eu me considero nada mais nada menos do que o resultado de minha classe. Se ela melhorar, é possível que eu melhore. Mas eu não quero estar na frente; quero estar junto.
Corta para hoje e vemos um Lula espremido entre seu passado pragmático e as exigências de um partido esfacelado em mil tendências delirantes, todas lutando pela linha justa, competindo entre mais ou menos radical, em mais ou menos macho, com toda as nuances de loucura utópica que acometem as esquerdas e as destroem por dentro, antes mesmo do embate com o inimigo, que agradece o serviço. O drama do PT, como vemos hoje, é que ele não consegue raciocinar sem a idéia de ruptura com a democracia, sem abrir mão da idéia de tomada do poder.
Conheço bem estes sintomas e vejo com tristeza, no PT de hoje, todas as doenças infantis de trinta anos atrás da esquerda pré-64. Os episódios da semana passada, com a proibição de governadores (obedientes) irem falar com o presidente, participar da vida política normal, nos faz pensar: Por que o PT não cai logo na clandestinidade?
Mas, o que dói em tudo isso é o trágico desperdício histórico de um partido de massas que poderia ser a alternativa para as babaquices dos tucanos, para o oportunismo do PMDB e do PFL e para a psicose dos PCs do B e brizolas. Lula foi desviado de seu rumo inicial para servir aos sonhos revolucionários tardios de pequenos-burgueses como José Dirceu, Genoíno e tantos outros. Claro que eles dirão que minhas palavras são de um provocador que gostaria de manietar o PT ao sistema burguês. Muita gente do PT que me conhece de antigos carnavais sabe que não é nada disso; a recusa do PT de participar do jogo democrático, ao invés de fortalecê-lo pela não compactuação, só o enfraquece, impedindo (objetivamente) qualquer conquista de poder, além de viciá-lo (internamente) nas simplificações do ideologismo sem práxis. Qualquer programa de uma nova esquerda tem de passar pela aceitação da democracia.
A grande ironia é que o PT hoje nos mostra como a luta de classes atua até na microfísica de uma organização política, como um bando de pequenos- burgueses pode impedir o avanço de um partido de origem operária. Que pena...





