Arnaldo Jabor
Arnaldo Jabor
Entrevista com o Presidente Napoleão Ipiranga em 2011
Fala o presidente do futuro, que criou o programa da Ordem Sem Progresso
Arquivo FolhaReproduçãoVamos assumir nosso atraso gente, chega de progresso A que se deve o sucesso de seu governo, presidente Ipiranga?
Bem... descobri minha plataforma logo depois de Grande Crash da Bolsa de Nova York em fins de 2001... Eu era um jovem vereador do Acre, quando tive o estalo: O Brasil quebrou e nada aconteceu! Eis o sinal! Claro... houve legiões de famintos atacando supermercados... mas isso amainou logo... Eu entendi que a miséria se auto-regula, que a fome diminui a população... Na época, (ainda era o governo de FH se bem que ele não falava mais, nem com seu porta-voz Luciano Huck), quebrou a previdência e o STF teve a idéia genial de acabar com todas as pensões abaixo de mil reais; houve uma choradeira, com a morte de tantos velhinhos, mas logo se regularizou o déficit, com os marajás celebrando. Foi aí que descobri meu lema: Ordem Sem Progresso...
O senhor se influenciou pelo fracasso do sucessor de FH?
Bem... Aquela tentativa pós-moderna do Ciro me alarmou. Pensei que a moratória das dívidas ia destruir o País. Tive tremores patrióticos, quando começaram a apreender os aviões da Varig e a confiscar nossas embaixadas nos USA e na CEE... Mas, entendi que o sequestro de bens brasileiros é uma forma de cortar despesas públicas. Que época incrível! Que escândalo quando o ingênuo Ciro caiu, traído pelo seu próprio guru, um americano disfarçado de messias da classe média! O americaninho Mangabeira cabalou com os milicos e deu posse ao general Sinimbu Mendes, um nacionalista de ultra-direita, com o Itamar de vice... Ah, doce general Sinimbu! Com que garbo ele estrangulou depois o americaninho com as próprias mãos diante da TV, se lembra? Aquele sujeito pequenininho berrando em inglês Fuck you, underdogs! e esperneando no ar, no Fantástico. Ai... que saudades!... Eu já era terceiro suplente do filho de Hildebrando, quando entendi que nem o mesmo o fascismo conseguiria governar o Brasil. Apesar dos berros patrióticos de Sinimbu Mendes, seu queixo erguido, ninguém encheu as praças. A opinião pública (perdoe a expressão) cagou solenemente e continuou cantando pagodes. Os milicos abandonaram o poder em pânico em 2006 com o desinteresse das massas e a democracia voltou. Mas, ninguém queria ser presidente...
Por isso sua campanha Recua Brasil foi tão bem-sucedida?
Sim. Eu me baseei na funda alma nacional... O Brasil meu amigo, é um arreglo, um acochambro, isto está em nossa alma; não é um defeito, é nossa grandeza, fabricada por séculos de escravismo, de burocracia, de corrupção impune... Os intelectuais babacas achavam isso uma doença... Pois, eu gritei ao povo: Vamos assumir nosso atraso, gente! Chega de progresso! Ah... que sucesso! Tirei o peso da angústia de progresso que oprimia os brasileiros... Foi um alívio espetacular... O Brasil sofria porque queriam obrigá-lo a ser grande... Quando eu saquei este ovo-de-colombo no Desiste Brasil (a parte 2 do Recua), a eleição foi uma moleza, um galopinho à beira-mar...
Explique para os espectadores, presidente...
Hoje temos Paz! Sabe o que é isso? A Paz é a desistência dos sonhos de futuro e desenvolvimento... Nunca fomos tão felizes; as elites cantam, o povo dança num doce balanço ignaro... O senhor veja, por exemplo, a eficiência do meu PEP (Plano de Extermínio das Periferias). No início, alguns idiotas humanistas gritaram mas, depois, se acostumaram com o fechamento das favelas com muro de concreto... Mesmo a besta da Anistia Internacional calou a boca, graças à intervenção do Presidente Warren Beatty, preocupado com suas jazidas na Amazon Company. Ou pense no imenso sucesso do PROCU (Projeto de Criminalidade Unida) que mapeou as máfias todas, a Evangélica, a Ruralista, a dos Hospitais, a dos Vereadores de S. Paulo... Conseguimos irmanar o mundo do crime, com demarcação de áreas exclusivas, com regra de matança mínima...
Ou, então, veja a beleza da COPUT (Cooperativa da Prostituição Infantil), que organizou as meninas de rua e incentivou o turismo sexual ou no PROCRACK ou mesmo PROMERD (que legaliza a falsificação de remédios), sem falar no meu maior orgulho que foi o PLOSF. Neste plano, já que as elites nordestinas não se acertaram na transposição das águas do Rio São Francisco, resolvi transpor os flagelados, mergulhando-os no velho Chico. Foi um triunfo, inspirado nos parques aquáticos do nordeste, os Water Waves...
Depois, quando começou a invasão da Amazônia pelos americanos, via Colômbia, com o pretexto do narcotráfico, que fiz eu? Mandei nossas tropas mal armadas para morrer de febre? Claro que não; estabeleci um preço em troca daquela floresta malcheirosa... E ainda levaram de lambuja a Zona Franca e o ex-Acre... Agora, o ouro é roubado em ordem e os índios estão falando inglês, com McDonalds na floresta, hambúrger de piranha, tartaruga... Tudo é o jeitinho, a maior arma nacional...
O senhor veja minhas obras hoje: o STF com títulos de nobreza, transformado em um imenso cartório de luxo, ocupado com reconhecimento de firmas e com um novo instrumento jurídico: a liminar a priori, que absolve qualquer maracutaia das elites... Veja também o Museu Lenin. As esquerdas estão contentíssimas, com o belíssimo prédio de Niemeyer todo em mármore vermelho, bem cuidado pelo curador José Dirceu, com um anfiteatro para se ouvir o Lula e shows do Pedro Simon. Pode-se também visitar a famosa múmia de João Amazonas, em perfeito estado de conservação no hall patrocinado pelo Credicard... E o sucesso do CEMIG Palace, dirigido pelo entertainer Itamar Franco ou do Minas Tours, com safáris nas fazendas do Newtão? Tudo isto são obras, meu caro jornalista... E a grande idéia do Orçamento Espoliativo, feito a partir dos currais políticos? O congresso está adorando. Já temos sete necrotérios novos em Alagoas e 9 clínicas de cirurgia plástica no Piauí. Isto sem falar na nova Comunidade Sossegada, que distribui Lexotan aos retirantes da seca e das favelas... Eis meu segredo: a ordem sem o progresso!... Por isso terei a maioria absoluta na reeleição de 2015.
Obrigado, presidente Ipiranga...





