Arnaldo Jabor




O Brasil chupa o próprio
atraso como um chicabon
Nelson Rodrigues, no telefone preto, explica a crise nacional
Desta vez, eu é que liguei para o Nelson Rodrigues. Estava em desespero com o Brasil e a América Latina nesta semana de golpistas. Liguei para um número infinito: 00008888. O tilintar foi suave como uma trombeta de arcanjo e, com um suspiro de alívio, reconheci a voz do meu amigo.
– Nelson!... Você atende ao próprio telefone aí no céu, como se fosse contínuo de si mesmo?
– Aqui no céu não tem colher de chá... os anjinhos foram terceirizados...
– Nelson, Brasília está tomada! A gente levou 20 anos na ditadura, conseguiu a democracia e agora a oposição quer o golpe!
– É... estão caçando FHC a pauladas como uma ratazana grávida... Tem muito jornalista que acorda de manhã, toma café, beija a mulher e vai espinafrar o FH... Antigamente o bom emprego era fazer concurso para o Banco do Brasil; hoje, o negócio é esculhambar o FHC...
– Por que tanto ódio? Por que ele quis reformar o Estado?...
– O FHC mexeu em víboras profundas, dentro da alma do brasileiro... Ele achou que ia ser fácil... Brasileiro perdoa tudo, menos que mexam em seu atraso... A gente vive agarrado ao próprio fracasso, lambendo-o como um chicabon. O atraso é desejado, rapaz... Eu já disse isso e repito: subdesenvolvimento não se improvisa; é obra de séculos...
– O FH errou muito... foi confuso vacilante...
– Seu erro maior foi acreditar na tal ‘‘razão’’... Ninguém sabe o que é isso no Brasil... Que ‘‘razão’’, qual nada... Consciência social de brasileiro é medo da polícia... O sujeito quis mexer em coisas tremendas, como sinecuras, estatais, juízes... O brasileiro mais pé-rapado acha que o Estado é propriedade dele, mesmo sabendo que só meia dúzia mama... Pra conseguir fazer a tal ‘‘revolução silenciosa’’, o FH teria de ser o ‘‘cafajeste do smoking impecável’’...
– O que é isso?
– O ‘‘cafajeste do smoking impecável’’? Foi um sujeito que eu vi, numa festa... A mulher esculhambava ele, xingava, humilhava e ele ... impávido, ouvindo em silêncio.
Quando a mulher se cansou de xingar, ele deu-lhe uma rutilante bofetada na cara e a sujeita caiu chorando aos pés dele, apaixonada, enquanto a bofetada ainda ecoava na sala... O FH tinha de ser assim, o impecável cafajeste... Até o ACM iria beijar-lhe as mãos...
– Pois se mesmo o Itamar é temido...
ᖠAhh... eu tenho ternura pelo Itamar... Ele, de chapéu de soldado-cabeça-de-papel e espingardinha de rolha está genial... A única coisa que ele fez até agora foi um mictório para a PM do palácio...
Mas, no Brasil, não precisa governar; basta ‘‘parecer’’. Itamar subiu no caixotinho-de-querosene e declarou guerra a FHC. Já apareceram milhões de cretinos aplaudindo e babando na gravata. O Itamar ressuscitou a doce burrice nacional. As oposições sem programa vão seguir o Itamar igual cachorro de batalhão, latindo e abanando o rabo no ritmo da música...
– É mas a situação está gravíssima... Que vai acontecer com a democracia?...
– Nada, rapaz. No Brasil, nada acontece – só quando a gente está dormindo... Tudo que a posição fez até hoje foi avacalhar com o presidente... A obsessão da esquerda não é o Marx; é o FHC. Nunca vi tanta paixão ao avesso... Você viu o Ronaldo Caiado com aquele riso de anúncio de dentista e o José Genoino, varado de luz como um São Francisco de vitral? Os dois estavam abraçadinhos feito Romeu e Julieta... A esquerda brasileira perdeu a cabeça... Vão acabar destruindo ‘‘orelhão’’ ou rasgando poltrona de cinema com gilete... Eles não aprendem, mesmo agora que o Lenine vai ser finalmente enterrado feito sapo de macumba...
– E com essa absolvição dos PMs do Pará, o MST invade o Planalto...
– Sabe por que absolveram? Porque os PMs somos nós!
– Como assim? – pergunto como em filme-B dublado.
– Porque os PMs estavam cumprindo nossas ordens secretas e impalpáveis... Tudo conspirava para aquele massacre: juízes, fazendeiros e aqueles pobres soldados, quase iguais aos sem-terra...
Como você disse num artigo: ‘‘os soldados matavam neles sua vida miserável que os fazia estar ali matando eles...’’
– Nelson, você me lê?
– Às vezes... mas precisa cortar adjetivos... Você queria o quê? Claro que eles iam absolver... Os PMs somos todos nós...
– Eu tou meio apocalíptico, Nelson... Vai ruir tudo... Zona no Brasil, Equador vai explodir, guerrilheiros loucos de pó já estão falando em ‘‘novo Vietn㒒 – pode? Os americanos vão invadir essa zona...
– Que nada, rapaz... Americano é malandro... Eles só pensam em freguês... O Keynes ficou meu amigo aqui no céu e me explicou que eles são todos mercadores, vendedores de tapete. Estão apavorados de perder dinheiro, se a América Latina ficar roendo rapadura no meio-fio e não comprar mais nada. Agora, que vai voltar tudo para trás, vai! Você já viu a cara do Hugo Chavez, o ditador da Venezuela?... Parece porteiro de boate da Praça Mauá... Eu vejo o Chavez e tenho vontade de lhe dar gorjeta... Pois o nosso Lula não falou que o Chavez é o maioral?... Vai começar tudo de novo... A Colômbia toda vai fugir para Manaus, vendendo cocaína em saquinho de amendoim... Até os jacarés vão cheirar pó!... Vai ter golpe com milico de novo, populismo, hiperinflação, tudo!... Esta é a nossa verdade profunda: somos um continente de vira-latas, e vamos entrar o século 21 vendendo chicletes no sinal. O brasileiro tem angústia da vitória. O Getulio Vargas passou aqui agorinha, feliz feito um coelhinho de desenho animado...
– E o que será de nós?
– Vai ser bom, para acabar com esse negócio de celular, de BMW, de supermercado... Bom é armazém, carro velho, telefone preto, geladeira branca. As grã-finas de narinas de cadáver e os ladrões de casaca precisam tomar um susto. Precisamos errar até o fim para saber quem somos. Só depois da tragédia total, o Brasil renascerá. Depois dos cacos do FMI, depois da grande desgraça, o Brasil vai plantar goiabeiras e samambaias no fundo do abismo. E aí, satisfeitos de tanta ignomia, voltaremos à vida.
– Deus lhe abençoe, Nelson...

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