Arnaldo Jabor
Esperança e decepção de um jornalista romântico
A marcha do MST levou-me a fazer um artigo em três etapas
Arquivo FolhaEu sou parte da opinião pública e, portanto, tenho fé e decepções. Abaixo vai o artigo que escrevi no sábado dia 19, logo depois da Marcha dos Sem-Terra, entusiasmado com a força do evento e com a hipótese de um diálogo de oposição entre MST e Governo democrático. Ao final, vejam o PS que coloquei, dia 21, depois das declarações do líder do MST.
Sábado, 19 de abril - Esperança
A marcha dos sem-terra está abrindo a cabeça do Brasil. Estamos descobrindo que:
q Está criada uma oposição real ao governo FHC.
q Acabou o tempo em que os intelectuais tinham de conscientizar os miseráveis. Hoje os miseráveis é que conscientizam os intelectuais.
q O MST é a primeira organização séria dos excluídos brasileiros, porque surgiu da necessidade real. Ao contrário do que pensávamos, o MST não é apenas uma utopia regressiva (o sonho mágico de uma revolução primitiva). Pode até virar uma, mas é também uma urgência econômica. Não nasceu de líderes pequeno-burgueses. Em seus acampamentos, é uma mini-sociedade civil, com leis e ordem. Sua teoria nasceu do chão.
q Para a opinião pública, os miseráveis eram imaginários e fracos; hoje são reais e fortes. O MST não provoca mais pena; provoca respeito.
q O MST se reuniu com os três poderes (STF, ACM, FHC) e pode ajudar na reforma desses poderes, principalmente do Judiciário, o maior obstáculo à modernização do País. Com isso, também desmistificou o sectarismo não-dialogal das esquerdas acadêmicas e rancorosas. Lula nunca falou com FHC. Espantoso!
q Os sem-terra não devem se considerar nobres vítimas, nem heróis; mas anti-heróis práticos. O MST será novo e importante, se resistir às tentadoras idéias generalizantes. Quanto mais concretos seus objetivos, melhor. sua força (e a força real no mundo atual) está na parcialização dos objetivos. Less is more. O MST é tão ou mais importante do que o movimento sindical do ABC de Lula foi em 78. Não pode ser cooptado nem pelo Governo nem pela esquerda Acadêmica. O MST tem de ter cuidado com os carrapatos que lhe chupam o sangue. Os carrapatos sem-programa. Livre de amarras ideológicas, o MST pode raciocinar objetivamente. Se cair na condenação vaga do neo-liberalismo, dança. O MST deve ser um exemplo pragmático às esquerdas sem destino. A reforma agrária não deve ser feita apenas por motivos humanistas. Trata-se de uma urgente necessidade de produção de alimentos, uma necessidade de mercado, de progresso econômico. Ahh... é arcaica, dizem. Façam-na moderna! Reforme-se a reforma para que ela caiba no MST.
q O MST deve entender que não é uma novidade política no Brasil; é uma novidade cultural.
q O MST não pode se deslumbrar, nem deixar seus líderes caírem em delírios personalistas de grandeza. Não deixem ninguém se sentir Lenin ou Jesus Cristo.
q O MST tem de ter cuidado com o voyeurismo humanista internacional tipo Prêmio Rei Balduino. Eles querem lavar suas culpas coloniais e elitistas pra cima de nós. Querem esquecer os massacres do Congo belga e suas políticas contra os imigrantes pobres na Europa. Usem os europeus para a mídia.
q O Governo também precisa do MST. Mas, o MST tem de aproveitar que tem um presidente honesto, e que não é um neo-liberal selvagem como o apelidaram os babacas. Usem FHC, fortalecendo-o também. Um precisa do outro. Se FHC achar, por frieza ou burrice, que deu um nó no MST, ele dança. Para FHC, o MST pode ser o braço popular que o ajude em suas alianças conservadoras.
q Em pleno mundo globalizante, cheio de internets e outros fascinantes joguetes, o MST chegou de enxada e foice e mostrou a necessidade de um oportuno retorno ao convencional. Isto é novo. Como os Novos Bahianos chegaram no meio da década de 70, toda contracultural e angustiada, e trouxeram o chorinho, o violão e o amor nacional.
q O MST não pode ficar numa oposição abstrata a um vago governo, como os comunas acadêmicos. Tem de inaugurar uma oposição técnica, criticando na prática o Judiciário, o Legislativo e o Executivo. Chamem especialistas e não literatos.
q Se o Governo diz que é difícil fazer a reforma agrária, porque há muitos obstáculos financeiros, burocráticos etc... criem-se normas de simplificação.
q E isto leva ao óbvio e urgente: uma reforma na Constituição de 88, nos artigos 184 e 185, que tornam inviável a agilidade da reforma, definindo vagamente o que é justa indenização prévia ou o que é terra produtiva. Com esta marcha, ficou claro que a reforma agrária é tão ou mais urgente que as reformas do Estado. Mude-se a Constituição!
q O MST não é micro; é macro.
Segunda-feira, 21 de abril - Decepção
PS - Depois de ler, no domingo, as declarações do líder provocador stalinista e onipotente João Pedro Stedile, se vangloriando de que está c... para o Governo, concluo que tudo que está escrito acima seria bom, se fosse possível. Mas, é sonho de um romântico. Com esta liderança pirada e revolucionada, o MST vai refazer todos os erros da velha burrice sectária. Stedile não acredita em democracia nem em diálogo. Espero que haja outros líderes mais modernos, mas este Stedile quer um conflito e vai levar os sem-terra a um absurdo histórico. Tudo indica que, mais uma vez, as lutas populares progressistas serão destruídas por fanáticos e oportunistas. Que pena...





