Arnaldo Jabor
Arnaldo Jabor
Está aberta a temporada
de caça aos pobres
Grupos de pós-betinhos competem pela taça da caridade
Arquivo FolhaA pobreza é nosso patrimônio, a pobreza é a base do sistema, pobreza é nosso combustível, é o resultado da encrenca histórica de 400 anos de patrimonialismoDesde pequeno, quando passávamos em frente ao Morro da Mangueira, eu perguntava ao meu pai: Por que não consertam o morro?. Pois é, desde garoto, eu já era meio de esquerda, muito antes dos marxistas pós-Tancredo, dos ex-lacerdistas arrependidos de 64, dos águias brancas da juventude integralista que hoje posam de revolucionários tardios. (Um dia ainda abro a caixa-preta desses oportunistas que escrevem por aí).
Depois, toda minha vida e de meus colegas de geração, foi orientada pela existência dos pobres. Socialistas românticos, nós sofríamos com a miséria... dos outros, claro. A miséria explicava o mundo e o explica até hoje. Nunca poderemos nos orgulhar da democracia liberal e outras mumunhas, enquanto dois terço da Terra viverem com menos de um dólar por dia.
Por isso, a miséria era nosso horror fascinado, a miséria era nosso problema existencial. Quando vinham com papos de Sartre, angústia e náusea, replicávamos: Isso é coisa para psicanálise... o problema é a fome!. Depois, descobrimos os operários. De foice e martelo na mão, como alegorias do futuro, os operários eram nossos heróis. Ficávamos até de madrugada na oficina gráfica, olhando os operários que imprimiam o jornal dos estudantes, fazendo-lhes perguntas fascinadas e ouvindo-os com devoção. E os operários nos olhavam meio desconfiados: Serão viados? Não; éramos apenas jovens comunas.
Por isso, tive ciúmes quando vi, semana passada, os políticos descobrindo os pobres, como quem vê uma paisagem despercebida: Como? Quer dizer que há pobres no Brasil?... Quanto injustiça!.... Irritei-me porque pobreza não é um defeito de nossa sociedade; pobreza é nosso patrimônio, a pobreza é a base do sistema, pobreza é nosso combustível, é o resultado da encrenca histórica de 400 anos de patrimonialismo. Tratar a pobreza como trataram os mendigos, tirando-os da rua durante a Cimeira, não resolve. Deviam ter exposto nossos pobres à luz do sol, dizendo aos Chefes de Estado: Eis aqui a pobreza, nossa riqueza, nosso principal produto e sustento; não são as bundas, nem o futebol, são os pobres!
Tirar a pobreza de cena, com impostos ou caridade, é continuar o mal-entendido de séculos. Tratá-la como algo que depende de nossa solidariedade, ou de nosso nojo ou da vontade estética de limpeza é mantê-la para sempre em nosso imaginário, é considerá-la uma exceção, quando ela é a regra. Acaba-se com a pobreza inserindo os pobres no mundo.
O que é um pobre? Olhem-no de frente, em seus trapos, em sua ignorância, em sua afasia, em sua sujeira, em suas doenças, em seus barracos. O pobre é um homem que não entra neste mundo de supérfluos fetichizados que viramos hoje, globalizadinhos e idiotas, celular na mão e Reebok no pé. O pobre é até o mote para nosso horror, para nossa piedade, para nossa literatura, para nossos votos, para nossas vitórias políticas. Pobre dá lucro, pobreza (dos outros) faz o sucesso de muita gente.
Os patrões gostam da pobreza, porque diminui os salários. Podem pagar 200 paus a um desgraçado limpador de fossas, porque atrás deles há centenas de outros que nem fossas limpam. Pobreza é a pré-condição de funcionamento do Brasil e, no entanto, falam dos pobres como falam dos índios, como se fossem silvícolas urbanos, sujando os nossos olhos, entravando nosso progresso.
Nada contra idéias que possam minorar o sofrimento dos famintos - enquanto Seu Lobo não vem - como o projeto do Senador Suplicy, que é ótimo; mas, acabar com a pobreza no Brasil só virá através de desenvolvimento e emprego, políticas social-democráticas, que até hoje a frieza do governo FHC não implementou, deixando a bola prontinha para o ACM chutar. Falar só em desenvolvimento sustentado tucano, como longuínqua solução racional, não resolve também, pois as migalhas que caem do banquete global não vão alimentar ninguém.
Deveria haver uma política pontual simultânea, desde que não nos faça esquecer da origem estrutural. Nossa pobreza não está fora; está dentro de tudo. A pobreza está dentro até dos nossos ricos, com sua visão de mundo rococó e ridícula, está dentro da ética escravista que rola em seus penteados, vestidos, em seus imaginários, jóias e carrões. Mas, isso é outro papo. Leiam o extraordinário livro de Jorge Caldeira, A Nação Mercantilista (Editora 34), e vejam que o atraso brasileiro não é um defeito; é um desejo, um pacto das elites e que não será esta democracia fora do lugar que vai resolvê-lo.
Precisamos de uma democracia social real, que se entranhe nas instituições políticas sórdidas que a negam. E agora começou esta temporada de caça aos pobres. Esse pobre é meu!..., diz um. Eu vi primeiro!..., berram os populistas. Que vergonha! - descobriram que pobre dá lucro. Descobriram que miserável dá voto. As igrejas evangélicas já tinham dado o sinal: miséria também é mercado!. Estão bilionários com os dízimos dos desgraçados, avançando com seus pastores cafajestes pelo mundo inteiro. Os Ratinhos da TV também foram vanguardeiros deste mercado da miséria. Como é que não vimos isso antes? Esta pobreza é um tesouro!..., pensam os oportunistas.
E a multidão de pós-betinhos compete em bondade, proclamando a caridade em vez da malvadeza. E a grande vantagem da caridade é que ela dá prestígio político e mantém os pobres em seu lugar. Depois de cinco anos de social-democracia de alianças, temos isto:
- Já pensou, querida, se houvesse democracia social no Brasil, mesmo?
-Ohh... Cruz credo!... já imaginou aqueles pobres todos invadindo nossos restaurantes, nossas faculdades, nossas butiques... Nem pensar... Em vez de Chiques e famosos, teríamos Bregas e Anônimos... Há há ha!... Onde é que isto ia parar? Eles acabariam desembarcando na ilha de Caras....





