Arnaldo Jabor




Vem aí uma revolução
no sexo dos ‘‘normais’’
O filme de Kubrick é um prenúncio de nova época erótica
Arquivo FolhaO novo filme de Kubrick, ‘‘Eyes Wide Shut’’, é um prenúncio de que está para estourar uma nova revolução sexualVem aí uma nova revolução sexual. Querem apostar? O filme do Stanley Kubrick ‘‘Eyes Wide Shut’’ já é um sinal. Não vi o filme ainda, mas ele pode criar uma onda de reflexões sobre sexo. Atualmente, a sexualidade dita ‘‘marginal’’ já está devidamente incorporada pelos ‘‘corretos’’ politicamente. Quase todo mundo é democraticamente a favor dos ‘‘gays’’, lésbicas, fetichistas e perversos em geral. Tudo bem. Mas o problemas não está aí. O problema está nos ‘‘normais’’, nos ‘‘straights’’. Todos dizem: ‘‘claro que os viados têm o direito de transar com 20 bofes na sauna, claro! ou então: ‘‘Ah, ela gosta de apanhar de cinto, ótimo... direito dela’’. Isto é um indício de que a sexualidade é retratada hoje em dia muito como um ‘‘desvio’’ a ser tolerado e não como a fonte da água da felicidade humana.
Aceita-se a exceção para melhor se reprimir a regra. Isso porque nossa verdadeira miséria sexual está nos ‘‘normais’’, nossa miséria sexual está nos casamentos tediosos, nos escravos do amor romântico, na guerra das diferenças sexuais, está na fidelidade compulsiva na monogamia obrigatória, na apertada vida sexual como intervalo entre os jugos do trabalho.
Em Nova York, há paradas ‘‘gay’’, desfiles políticos saudando a liberdade dos ‘‘anormais’’ marginais. Mas, quando haverá a parada das donas-de-casa mal comidas, dos maridos punheteiros, dos broxas de medo, dos solitários, dos tímidos, dos virtuosos por covardia? É aí que o filme de Kubrick entra, mostrando um casal fiel que começa a ‘‘pirar’’. Trata do terror que ronda os ‘‘normais’’ que ousam ‘‘desejar’’ a variedade de experiências e são assaltados por milhões de fantasmas morais e religiosos. A polícia interna do sistema está entranhada nas almas.
Nos USA, esta doença sexual dos ‘‘normais’’ fica de uma visibilidade cegante. Não sou mais nenhum ‘‘gatinho’’, tudo bem, mas em uma ano e meio em NY não levei uma única e escassa bola de mulher alguma. Um sorriso, um olhar de esguelha, um cruzar de pernas, um tremor de lábios. Não pensem que isso é fruto do puritanismo, essa rota desculpa... Não. A culpa é da produção.
Nos USA, sexo atrapalha a produtividade e tem de ser feito nas brechas do trabalho. Aqui no Brasil, nossa sexualidade, talvez mais ‘‘livre’’, é resultado da falta de organização social. Nosso atraso ao menos tem esta compensação; uma sexualidade lúdica e permissiva nas ruas e bares, principalmente no Rio e Bahia onde, por mais livre, as mulheres são mais românticas (em São Paulo, por mais ‘‘capitalistas’’, as mulheres são mais sacanas).
Se bem que esta ‘‘liberdade’’ brasileira está se organizando como indústria e comércio, já que nada mais temos para o mercado interno. Nosso produto de exportação é bunda e travesti, como mostram os cartazes da Embratur.
Nos USA, a repressão vai se acumulando anos a fio e acaba explodindo em movimentos políticos, como foi em Woodstock, um excesso que deu em centrais de surubas tipo Plato’s Retreat, Studio 54, onde todo mundo comia todo mundo na frente de todo mundo. É o que Marcus chamava de ‘‘des-sublimação repressiva’’. E não foi a Aids, esta doença moralista, que acabou com liberdade dos 60s mas a contra-revolução conservadora dos anos 80.
Outro dia, um turista acidental foi a um prostíbulo em NY. Lá tem de tudo, dizem na internet: puteiros temáticos, onde você pode comer até a Estátua da Liberdade, mas tudo sob controle, com regras rígidas, fronteiras de mãos e toques, camisinhas e horários. Pois o puteiro era exatamente como um consultório médico. Uma cafetina burocrática e três pobres mocréias vestidas de branco próximas de uma mesa de operações. Ele fugiu em pânico daquele lugar que tinha algo de cela, de laboratório de exame de urina. Estranho em que o Clinton, o homem que pode destruir o mundo em dois minutos, tem de se esconder no escritório para humilhantes ‘‘blowjobs’’.
Aliás, o sucesso do ‘‘blowjob’’ (felatio, ‘‘boquete’’) é sintomático. Sexo ‘‘fast’’, como Coca-Cola em canudinho, em pé, sem atrapalhar a produção, alívio contra tensão do trabalho. O ‘‘blowjob’’ é ideal para executivos. No Brasil, à mulher dá; nos USA ela empresta a juros, que podem ser terríveis se você se apaixonar. A prostituta brasileira o é por um prato de comida. A americana por desvio comportamental. A prostituta brasileira é feliz por ter emprego, ela te agradece docemente pela humilhação.
A americana te odeia e humilha. A prostituta brasileira finge que te namora. A americana te trata como um doente em consulta. Agora, em NY, as policiais deram para se vestir de prostitutas para flagrar pobres diabos que passam. O sujeito se aproxima da louraça na esquina e é algemado na hora. A prostituta brasileira goza, a americana te goza e despreza em silêncio gelado.
Tenho a intuição devastadora que o sexo vai voltar à moda, agora que os coquetéis contra Aids estão melhorando. Será a alternativa para a morte das utopias. Uma utopia alegre, único prazer de fim de século, lutando contra a produção obsessiva. Ninguém aguenta mais a brochura da eficiência de mercado.

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