Arnaldo Jabor
O sexo no Brasil virou um show iluminado
Controlar moralidade é mais difícil que controlar fluxos de capital
Toda pessoa, de qualquer qualidade que seja, que pecado de sodomia cometer, será queimado e feito por fogo em pó, para que nunca de seu corpo e sepultura possa haver memória... ou sendo provado que alguma pessoa entrou em casa de outro para dormir com mulher livre que nela estivesse (...) seja açoitado e degredado para o Brasil... - assim rezavam as Ordenações Filipinas, (editadas pela Cia das Letras).
Quinhentos anos depois, no mesmo Brasil que foi colonizado por degredados, no programa de TV do Ratinho, uma mulher soltava fumaça pela vagina e pelo ânus sob os gritos daquele estranho ser, o mestre- de-cerimônias de nossa miséria cultural. Em outro canal Luciano Huck cria mulheres cada vez mais gostosas e aerodinâmicas, como numa fazenda de bundas. Diante da Feiticeira ou da Tiazinha, nosso desejo pulsa como diante de uma BMW ou de jatinho e perguntamos, temerosos: Teria eu competência, craftsmanship, para transar com estas máquinas?
Jose Gregori, secretário Nacional de Direitos Humanos, está tentando fazer uma legislação de controle para o delírio expositivo das TVS e sabe que será difícil, tão difícil como controlar os fluxos de capital.
Arquivo FolhaA Feiticeira do Programa H: ficou claro que as meninas gostosas do País só têm um caminho para subir na vida: suas bundas, seios e coxasO sexo, neste Brasil de mercado, virou uma mercadoria competitiva, uma espécie de teste de funcionamento, um desafio atlético, o que me lembra Paulo Cintura, o trainer que gritava para as mulheres na academia: Força, malha mesmo, aqui ninguém tem vida interior não... só corpo! E bate-me a verdade inapelável e brutal: não queremos mais ser livres - queremos ser coisas.
O sexo era o ritual que nos conectava com a natureza, com a vida e a morte, com mistério profundo das origens animais, o sexo já foi nossa esperança revolucionária nos anos 60, por onde a liberdade invadiria os dogmas, ritual permanente de ruptura com as repressões da cultura. Pelo sexo, queríamos ser bicho; hoje queremos ser liquidificadores. Tudo conspira para esta coisificação.
A AIDS já tinha trazido de volta a camisinha (não a poética e antiga camisa-de-Vênus, que evocava noites de amor proibido e que boiavam nas praias do dia seguinte). Com a camisinha, o sexo ficou cirúrgico, medicinal, com aquela biruta branquinha interrompendo o êxtase - uma capa de chuva, uma presença hospitalar na cama. A camisinha traz uma espécie de castração ao contrário - some o homem e só fica o pau, em sua solidão de alpinista encapotado diante do terrível monte-de-Vênus a escalar ou dos buracos negros a penetrar.
Com a camisinha, somos todos vítimas de um coito interrompido e o sexo vira um assunto para a Secretaria de Saúde. Ah...que saudades do pecado! Desprovido da culpa, limpo, desinfetado, o sexo atual é um esporte narcisista e sua exibição compulsiva uma exigência de mercado. Todos têm de ostentar um límpido descaro de heróis sexuais, onde só o desempenho e a aerodinâmica do corpo interessam.
Um rabo lubrificado A engata no pênis B, que gira em engrenagens de vaginas dentadas C que fazem explodir orgasmos digitais. São mecanismos, órgãos sem corpo, exibindo um show de bom funcionamento, à luz dos holofotes. O que dava fogueira há 500 anos, hoje é capa de revista.
Que compulsão é esta de tudo mostrar? Hoje, não há mais o prazer do segredo, do escurinho, não há mais a beleza da hipocrisia. Antes, as aristocracias fruíam o prazer com arte; agora, a visibilidade do sexo acaba com o requinte dos perversos. O objeto artístico da sacanagem deu lugar a suruba sem alma. E sexo passa também por estética, angústia, dor.
Não existe prazer sem angústia, mas angústia hoje não é mais comercial. Há uma liberdade de mercado que produz um mercado de liberdade que estimula o ato gratuito. Dura será a tarefa do secretário Gregori de botar limites éticos numa democracia sem lei como a nossa. A moral não se aplica mais ao livre mercado.
Com o aumento do consumo que o Plano Real trouxe para as camadas pobres, cresceu também a oferta de sacanagem ligada à estranheza e ao sinistro e, com o desemprego, ficou claro que as meninas gostosas do País só têm um caminho para subir na vida: suas bundas, seios e coxas.
E um duplo voyeurismo de classe se instalou. De um lado, os pobres. Eles são servidos pela pagodeira geral do tchan e da sacanagem misturada com misérias na TV, vista através do moralismo tosco de nossa tradição proletária, uma visão da sexualidade ligada ao crime ou desvio de Deus, como é faturada pelos vários ratinhos da mídia.
De outro lado, o voyeurismo das classes dominantes (como nomear esta maçaroca urbana feita de remediados e ricos?) que passaram a desejar uma pornografia atlética e sem pecado. Elas imaginam que os bofes, veados, putas, atrizes e modelos de Playboy teriam uma vida de prazeres intensos e livres.
Sexo virou um desafio de sucesso e atiça um exibicionismo deslumbrado como uma feira de utilidades domésticas. Enquanto as pobrezinhas mostram a bunda por fome, as ricas querem mostrar a bunda pelo charme da vulgaridade assumida, esta nova moda emergente.
O Tutty Vasques, outro dia, criou uma expressão feliz: a evasão de privacidade que assola o País. Ao contrário do que dizem, ninguém quer se defender da invasão de suas privacidades; ao contrário, querem expô-la, desde poltronas, piscinas, jóias, faisões de prata, vasos Ming na Caras, até seus orgasmos e confissões rasgadas nas entrevistas: Dou sim, chupo, engulo - dizem de fronte alta.
O mercado detesta segredos. Tudo tem de ser claro, vendável. Os ricos e famosos invejam a desfaçatez que os pornográficos exibem: a rapidez, a leveza, o tamanho dos seios, do pênis, o mito do orgasmo total, o fast fuck ideal e, mais que tudo, a pretensa ausência de culpa. Por isso, vemos nas revistas chiques que, assim como as prostitutas querem ser peruas, as peruas querem ser prostitutas. Sem coragem, amparadas nas bolsinhas Chanel, agarradas nos brinquinhos de ouro, ostentando sorrisos discretos, elas querem a liberdade que imaginam nas bundas-tchan.
Mais que isso, elas invejam nas putas o seu lado mercadoria. A grã-fina inveja na puta a eficácia técnica de satisfazer o freguês. Elas querem ser mais coisas, mais úteis, mais desejáveis, mais consumíveis pelos maridos e amantes, tanto quanto eles desejam um novo Audi.
Há, nesta erótica que nos cerca, a crença de que o sexo explícito, rápido e descarado superaria os sofrimentos da alma, as angústias da timidez, as dores de amor, os medos; em síntese, a sacanagem pura nos livraria da incômoda presença do inconsciente. Seu desejo e igual ao grito do personal trainer: Não há vida interior! Pelo valor de uso e de troca do próprio corpo, se chega a idéia: Sou tão mais livre quanto mais usável! Uso meu corpo como se fosse uma prótese, um outro que não sou eu, uma terceira coisa na prateleira do mercado erótico!
A verdade é essa: as peruas invejam as putas porque as putas são objetos. Pagamos para que elas não sejam pessoas. Querem a suprema felicidade das coisas. As coisas são úteis, são mais queridas que esposas e, principalmente, as coisas não têm sofrimento. O humano é um resíduo descartável, onde mora a dúvida, a morte. Não é verdade que as pessoas querem ser livres; querem ser consumidas.
Nosso ideal é sermos desejados como um bom eletrodoméstico.





