Arnaldo Jabor
Arnaldo Jabor
O Brasil já perdeu a Guerra das Estrelas
O filme é a prova de uma mudança histórica que temos de reconhecer
ReproduçãoSaio da Guerra nas Estrelas com a cuca fundida. Sinto-me definitivamente conquistado, como o nativo de um planeta distante. Sinto-me nu, ignorante, diante deste milagre de tecnologia de encantamento. Saio hipnotizado, humilhado, não pela qualidade tradicional do filme, mas por sua potência como produto. Na realidade, saio do cinema com uma inveja brutal, esverdinhada, hepática. Guerra nas Estrelas não foi feito para dialogar comigo, mas para me humilhar. Foi feito para ser um show de força de uma cultura celebrando seu triunfo insofismável sobre o mundo atual.
Esse filme ilumina o óbvio, gente boa: perdemos para sempre a guerra pelas estrelas e só nos resta repensar discursos ideológicos sobre nós mesmos. E não falo de cinema; falo de política.
O que me espanta é a energia que está por trás daquilo tudo, não só a energia financeira de faturar bilhões no mundo, mas a massa de trabalho e da Fé Americana que o produziu. O que me assusta é que a tecnologia que faz o Hubble, os B-52s, os Tomahawks é a mesma que faz o entretenimento de Hollywood. O verdadeiro filme está na exposição de tecnologia e velocidade, na distribuição mundial simultânea, na arrogância cultural para o mundo, no descompromisso com qualquer parâmetro estético de tradição européia, tanto que a arte do século é diluída por competentes e bem pagos músicos, cenógrafos, figurinistas, todos, nostálgicos de uma grande época poética que já passou, a julgar por suas entrevistas envergonhadas.
Guerra nas Estrelas, com toda sua inocência infantil, é um manifesto político, é a prova radical de uma vitória. A Força é os Estados Unidos da América. E nós somos aqueles bichos da floresta que fogem, nós somos os camelos ETs, os mamutes ETs, nós podemos chegar a ser, no máximo, os Jar-Jar Binks adesistas e otários, tolerados na galáxia americana.
Que paranóia é esta, que papo nacionalista antigo é este? - dirão os tecnopop-boys, cínicos e entediados. Tudo bem... mas este filme é tão de ponta que deixa escancarado nosso atraso cultural e político.
Que fazer como espectador, como emergente, como pobre, como sub, diante deste show de potência que rege nossa vida? Que fazer diante desta onda irresistível que muda nossa face urbana, nosso hábitos, língua, que nos transformou em figurantes de um grande shopping center lúdico? Nada? Que fazer diante deste filme que nos hipnotiza, que nos paga R$ 1.090 na alfândega para entrar aqui e que, com 400 cópias, nos leva 40 milhões de dólares em troca de duas horas de emoções coloniais: Fica claro que os fatos estão correndo mais rápidos que as interpretações, fica claro que nosso arsenal teórico de resistência ficou ridículo, diante da velocidade destas coisas americanas, diante da onipotência dominadora deste Império. Esta radical imposição de uma nova vida está a exigir pensadores novos, além de críticos de cinema, além de franceses bodeados tipo ancien regime, além de Virillos e de Bourdieus, está a exigir discursos mais profundos que melancolias românticas ou depressões acadêmicas evocando o Angelus Novusa de Klee. Precisamos pensar a partir de uma derrota cultural, para encontrar um espaço de sobrevivência nacional como em um pós-guerra. Sei que estas são idéias impensáveis que provocam angústia e desconfiança, mas estamos diante de fatos grávidos, novíssimos, viróticos, infecciosos, que não são comandados por ninguém, mas por um grande monstro mercantil coisificado, um ciclope americano insopitável por clamores habermasianos em busca de diálogo ou outros espasmos da razão. Diante da apoteose triunfal deste mercado, fica exposta a fragilidade de nossas teses de resistência política. No Brasil, vemos algumas atitude típicas:
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- A atitude regressiva - como era boa a nossa taba!... Uma fuga para trás, uma negação da complexidade deste caos, em favor de categorias antigas. (Será que só nos restará o forró, o precário, a teimosia armorial, o apego desesperado a nossas pobres tradições? Será que só nos resta a autenticidade da miséria? Só a miséria seria brasileira?)
- O entreguismo delumbrado, a adesão fascinada à este show pós-industrial.
- O rancor paralisado das academias, se limitando a analisar o triunfo de Lucas e da sua América, como a última fase do turbo-capitalismo fetichista.
- O discurso meio tucano de adesão crítica, com a velada esperança de comer as migalhas que caem da mesa.
- Uma posição antropofágica indolente que já está nos matando de indigestão.
- Uma melancólica e doce torre de marfim, uma depressão iluminada.
- O dane-se puro e simples.
No entanto, como vamos nos comportar diante desta definitiva encrenca do País entre dois pólos: o shopping center e o favelão, entre as bolhas de consumo pequeno-burguês e a miséria das periferias?
Há uma idéia de mundo por trás de nossas bandeiras ideológicas que não serve mais como moradia da verdade. Há um humanismo fesandé que só serve para nos enganar e consolar. É sintomático que o filme exiba esta visãozinha de mundo humanista, de Bem e Mal, democracia x autoritarismo como um enredo superficial, só para nos aquietar - diplomáticas homenagens às nossas ilusões.
Vendo as galáxias explodindo, penso no Itamar Franco, no Brizola, nos líderes maoístas do MST dizendo que vão derrubar o capitalismo com enxadas e tenho vontade de sentar no meio-fio e chorar lágrimas de esguicho. Tenho vontade de chorar, vendo o pensamento de resistência ingênua que continua a ver o futuro do Brasil como um sebastianismo iluminado, uma harmonia a ser conquistada por povo autônomo. Morreu para sempre o sonho de autonomia. Este discurso falido que ainda nos ilude e orienta tem de ser atualizado: futuro, coisas nossas, identidade. Mesmo que a saída fosse o mais radical fundamentalismo nacionalista, nós não teríamos matéria religiosa, nem tradição milenar, nem miséria sagrada, nada que desse liga a algum xiitismo.
Nós perdemos a guerra das estrelas não para os homens, mas para as coisas. E no entanto, estamos vivos, ou no shopping ou na favela, e temos de entender e fazer algo. O que? Eu, frágil defensor de uma complexidade nacional global, um pobre moderninho nostálgico, sinto-me feito aqueles japoneses que continuaram lutando sozinhos depois do fim da Segunda Guerra.
Só de uma coisa eu tenho certeza: todo discurso político que não levar em conta a derrota da esperança romântica será arcaico e ridículo. Nosso pensamento político-cultural continua a produzir apenas espasmos do Insolúvel. Dirá de novo meu leitor tecno-pop: Mas todo este papo-cabeça por causa de um filmezinho comercial?
Sim. Pois o mais assustador é justamente a inocência infantil do filme, comparada à imensa seriedade ideo-mercadológica do empreendimento.
Só nos resta a esperança maluca de que, após este ciclo de voracidade do capitalismo global, surja uma saciedade, uma barriga cheia por parte dos tecno-conquistadores, só nos resta a esperança de que o mercado, abarrotado de lucros, demande algum desenvolvimento da miséria para um novo tempo de consumismo. A esperança é de que o fim da miséria venha a ser uma necessidade de mercado. Será que, um dia, vão achar que os excluídos também podem dar lucro? Será que, vão ordenar às nossas elites canalhas que desenvolvam as periferias para que elas também possam consumir? Será que um dia descerão novos peace corps em nosso lixão, para civilizar-nos? Este é um artigo sem clareza, sem conclusão. Só expressa minha solidão diante da tela da beleza triunfal de uma civilização que deu certo. Este é um artigo de inveja e ressentimento.
De qualquer forma, seja para o bem ou para o mal, que estranha terceira coisa vai surgir desta mistura de miséria com tecnologia que cada vez mais virou nosso país?
Que estranhos bichos vão nascer da liga entre lama e informática, bosta e digitalização, ratos, barracos e naves espaciais?
Teremos o que neste novo tempo? Teremos uma tecno-miséria? Um tecno-analfabetismo? Uma tecno-fome? O que será? Que a Força esteja conosco!





