Arnaldo Jabor





‘‘Estação Carandiru’’ mostra o avesso do Brasil
O livro de Drauzio Varella é um marco na literatura recente
Arquivo FolhaLivro de Drauzio Varella é o ‘‘Memórias do Cárcere’’ dos excluídosUma vez o Nelson Rodrigues fez uma frase definitiva sobre a literatura brasileira: ‘‘O mal dos nossos escritores atuais é que nenhum deles sabe bater um escanteio.’’ É isso. Eu poderia fazer uma sequela desta frase: ‘‘Os literatos brasileiros precisam de uma temporada no Carandiru.’’
O escritor, hoje em dia, tende a se ver como um ser ‘‘especial’’, desgarrado, escandalizado, vivendo da dor e da delícia deste desamparo, como um observador do mundo ‘‘mau’’. O escritor sonha lindamente com uma ‘‘vida melhor’’ e sente-se um solitário denunciante de uma ‘‘harmonia perdida’’. O grande impasse atual (e o grande lucro também) é esta ausência de esperança, de respostas.
De repente, no meio desta maionese de mal-estar fin-de-siecle, de angústias românticas, de ‘‘grandes narrativas’’ políticas e auto-indulgências formais, aparece um cara que nunca bancou o literato, que passou a vida como médico cancerologista e que escreve um livro espantoso e que corta esta onda de otários ansiosos.
Chama-se ‘‘Estação Carandiru’’, de Drauzio Varella (Cia das Letras, 295 págs.). Drauzio passou os últimos dez anos indo toda semana cuidar dos doentes do presídio, sem emprego público, sem frescuras missionárias, sem bancar o bonzinho, nem o justo. Lá, aprendeu muito sobre um mundo visto pela literatura burguesa como uma épica de boca torcida ou estudado como lamina sociológica em pesquisas frias. Drauzio se manteve no estrito limite do parcial, do ‘‘caso a caso’’, observando e escrevendo exatamente como tratou dos tuberculosos, dos aidéticos, dos sarnentos, dos travestis, dos assassinos: sem cair na tentação do ‘‘que horror’’, do ‘‘só a revolução salvarᒒ ou do ‘‘o absurdo é uma denúncia do mal’’. ‘‘Na cadeia, ninguém sabe a moradia da verdade’’ - disse um ladrão filósofo. Drauzio respeita este mistério sinistro. E o resultado é um corte a céu aberto do avesso do País.
Este é o grande mérito do livro: o avesso, nossas vidas ‘‘normais’’ vistas num espelho invertido, torto, sujo.
Ali, o mundo do crime aparece como um universo povoado pelas mesmas paixões que nos animam, nós que comemos, que temos emprego, que achamos nossa vida ‘‘natural’’. Neste livro fica claro e doloroso que o crime não passa da busca miserável por uma vida ‘‘normal’’. Os habitantes desta sociedade de 7.000 detentos vaga atrás de amor, família, vingança, move-se pela fome, pela inveja, pelo ciúme, pelo medo, como em nosso dia-a-dia ‘‘limpo’’. Só que na vida deles existe uma categoria que sempre tentamos tirar de cena: a morte. Esta é a única diferença entre nós e eles. A morte é o grande divisor de águas. A base da vida burguesa do ‘‘mais ou menos’’, do drama e não da tragédia, do purgatório, do arreglo entre a dualidade de ‘‘inferno’’ e ‘‘céu’’. Ali só tem isso: ou sim ou não. A morte sempre ali, como fronteira. Na prisão, estamos o tempo todo diante da face da verdade esse mal radical, esta bruta incidência do sofrimento que a razão tenta dominar correndo atrás. A experiência de Drauzio emociona, ele andando como um explorador ali naquela floresta de desamparo, colhendo - antropólogo e ficcionista - o que o inferno tem para lhe ensinar. E o inferno lhe mostra que há uma ordem jurídica sólida na prisão, como ele diz: ‘‘no cativeiro, os homens criam novas regras de comportamento com o objetivo de preservar a integridade do grupo. Esse processo adaptativo é regido por um código penal não-escrito, como na tradição anglo-saxônica, cujas leis são aplicadas com extremo rigor’’. E, também, como diz um ladrão: ‘‘Entre nós, um crime jamais prescreve, doutor...’’
O inferno lhe ensina a postura de observação e lhe ensina também a forma do livro. Discreto, respeitoso, frágil como a vida é o olho de Drauzio. Seu estilo nasce do olhar de médico que, com sobriedade cirúrgica onde só cabem substantivos, narra as mais brutais dores humanas. Esta diferença de secura da linguagem com o tamanho do sofrimento torna o livro uma desesperante metáfora da nossa impotência social. A ausência de partido, a impossibilidade do encontro de uma ‘‘redenção’’ qualquer, em vez de ser ‘‘negligência moral’’ faz do livro a denúncia bruta do absurdo da vida brasileira, muito mais surrealista que qualquer malaise existencial francesa e mostra que a mudança social neste país é urgente, porque nossa tragédia é primitiva, antiquíssima e estúpida. As prisões brasileiras denotam não o trabalho da justiça, mas seu ridículo; suas pompas de repressão ao mal não passam de rituais de extermínio de inimigos de uma ‘‘normalidade’’ social indigna. Os 111 mortos não denunciaram um ‘‘desvio’’ da Justiça brasileira, mas sua torta prática secular. Uma das coisas mais belas do livro é a descrição minuciosa dos objetos do presídio, seus pertences, seus gestos, as falas dos presos, seus poéticos erros de linguagem querendo atingir um tom de dignidade pobre; uma das belezas profundas do livro é o que as tatuagens revelam, o que os trapos revelam, o que o lixo revela. Os detritos ensanguentados do massacre, o radinho de pilha, os cigarros, o crack, as sandálias havaianas, os bonés sem dono, as camisas assassinadas, os punhais abandonados, as meias sem pés, a feiúra total de tudo, o sangue no vinil, no isopor, todo o País está visível ali no lixo que ninguém quer ver. A verdade informulável do Brasil está ali, no lixo da prisão.
Tenho a impressão de que este livro ficará como um preciosíssimo documento do sistema penitenciário deste país, e ficará também como ensinamento de estilo: escrever com valentia e prudência para não morrer na ponta da faca. O livro é o ‘‘Memórias do Cárcere’’ dos excluídos.

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