Arnaldo Jabor





Arquivo Folha‘‘Vi que o País continua anestesiado sem cirurgia alguma’’Não se mexe em time que está perdendo
Vida política continua movida pelos ‘‘des-acontecimentos’’
Acho que estou maluco ou então sou um babaca (‘‘finalmente, ele se encontrou...’’ - dirão meus inimigos). Mas, o caso é que cheguei de volta ao Brasil e só vi furacões imaginários, chuva de irrelevâncias e ‘‘des-acontecimentos’’ rolando. Sinto-me num pesadelo humorístico, e baixa-me uma nostalgia de ‘‘concreto’’ que me faz agarrar postes e apalpar paralelepípedos. Vejo o Brasil mergulhado num porre de bobagens, berrando como um idiota em fúria: ‘‘Aleluia! É o caos, finalmente!’’ Olho em volta e não vejo caos nenhum.
A inflação não explodiu, os juros baixam, o pior já passou, a confiança internacional se restaura (escrevo estas obviedades com medo na alma: estarei cometendo o crime do otimismo?). Li, minuciosamente, todas as fitas grampeadas e juro por Deus que não consegui ver crimes, a não ser o desejo de se proteger um grupo considerado mais apto para a gestão da telefonia. Vi também, na bruta confusão do público com o privado, o intento pragmático de Mendonça e André Lara de usar um ‘‘lobbismo eficaz’’ contra o ‘‘lobbismo predatório’’, numa espécie de ‘‘jogo sujo pelo limpo’’, única possibilidade nesta zorra ibérica. Vi a população berrando contra bobagens - aviõezinhos da FAB, Diário Oficial, ponto e vírgula, desenvolvimentistas ou monetaristas, grampos - enquanto ninguém liga para a paralisia das questões fundamentais: ajustes, reformas. E num ‘‘aleph’’ ao avesso, vi que as ‘‘tripas da nação’’ não precisam de detetives - estão expostas à flor da mídia. Vi o Quércia e Itamar falando em ‘‘moralidade pública’’ na televisão. Vi o Tarso e o Lula pedindo o golpe ao presidente eleito. Vi que a oposição ainda não consegue pensar sem a idéia de tomada do poder, de ‘‘revolução’’. Eu vi que os grampeadores gravam tudo sobre os homens do presidente, mas ninguém acha nem procura nada sobre os sabotadores que muita gente sabe quem são. Vi a suspeição invejosa em cima dos PhDs num país de ignorantes e a tolerância com os prováveis mandantes, que são vistos como ‘‘simpáticos canalhas’’. Eu não vi interesses econômicos poderosos em luta contra o FHC, nesta campanha contra o seu governo. Não. Eu vi que o grande ódio que ele provoca não vem de seus erros, mas por ele ter tocado no Brasil cordial e patrimonialista, o velho Brasil vagabundo. Eu vi que querem impedir a ‘‘impessoalização’’ da sociedade, que o capitalismo global demanda. Não querem que ele venha como, no século passado, os latifundiários escravistas não queriam a chegada da revolução industrial. Vi o horror ao ambíguo, ao complexo como sendo ‘‘veadagem’’ e vi o amor ao simplismo, ao primitivo como virilidade. Eu vi as ‘‘idéias fora do lugar’’ comendo soltas. Eu vi os oximoros: liberais autoritários, canalhas simpáticos, progressistas reacionários, ladrões moralistas, assassinos humanistas, tiradentes-silvérios. Vi o ‘‘mesmo’’, vi o óbvio, vi o ‘‘bode’’. Eu vi que o grande medo é o pensamento processual, a crítica ao Brasil endógeno, o grande medo é o pensamento ‘‘sobredeterminado’’ contra o primitivismo do ‘‘justo e injusto’’ e eu vi que está havendo a grande recauchutagem de todos os esquematismos populistas e regressivos. Eu vi os aliados oligarcas reagirem a cada tentativa de atuação social-democrata dos tucanos, como a caça a José Serra ou a Mendonção. A social-democracia apanha dos dois lados, da direita e esquerda. Vi que o país continua ‘‘anestesiado sem cirurgia alguma’’, como dizia o Simonsen. O País anestesiado por faits divers ridículos contra os fatos essenciais. Vi canalhas defendendo a pureza. Vi os País agarrado a verdades antigas, a um moralismo das pequenas causas. E vi que os escândalos vêm em marolas: primeiro, grandes ondas; depois, amainam-se os agitos e tudo volta ao normal, à espera de novo escândalo. Vi que há fitas gravadas, anunciadas, esperando na sombra para paralisar o País de novo. É a neo-chantagem em ‘‘mercado futuro’’, a chantagem em suaves prestações, enquanto o dinheiro do FMI acaba aos poucos, como areia numa ampulheta. Vi que não há o menor sentimento de urgência em político algum, nada; ninguém se toca que mais um abalo internacional sem o ajuste e vamos docemente para o brejo. Vi que ninguém liga para o brejo, pois mandarão o povo, enquanto os outros irão se exilar na ilha de ‘‘Caras’’. Eu vi sabotagens o tempo todo, uma oposição grafiteira, sem programa, impedindo o governo de governar, fazendo-o mais confuso, mais paranóico. Eu vi que ninguém investiga os criminosos; só improváveis suspeitos. Eu vi um moralismo niilista que acha que ninguém pode ser honesto ou progressista, querendo que todos sejam canalhas no velho estilo nacional. Querem pespegar a velha doença da ladroagem neste governo, que já teve de se inocular de outros vírus para fazer suas dolorosas alianças. O país denuncia ‘‘imoralidades’’ sem fim, para se absolver de suas imoralidades ancestrais e endêmicas. O Brasil é um paciente resistente que não quer se curar. E só posso concluir: o caos é um desejo nacional! O Brasil profundo deseja a paralisação de tudo, para que nada mude. A democracia real - que é ‘‘diferença’’, multiplicidade e igualdade perante a lei - nunca se instalará por aqui. Fica só na boca, não entra nas instituições. O caos não é democrático. O caos é conservador. O caos é indiferenciado, o pastoso, o vazio parecendo cheio, o nada parecendo algo. O caos serve para todos os oportunismos. O caos dá uma sensação de História ocorrendo, de uma História se fazendo, quando nada está acontecendo de verdade. O caos justifica derrotas: ‘‘não fui eu que fracassei; foi o Brasil’’. O caos defende o status quo. O caos nos livra da cansativa ‘‘ansiedade emergente’’ e nos devolve a repousante depressão secular. E daí, passei a achar que o Brasil é imutável; talvez seja melhor mesmo não mudar nada, para não piorar as coisas. E concluo: não se mexe em time que está perdendo. Mas, não me levem a mal, que eu devo estar maluco. I’m too old for this shit...

mockup