Arnaldo Jabor
Arnaldo Jabor
Arquivo FolhaO Brasil continua
viajando na maionese
Irrelevâncias e sabotagens anestesiam o imaginário nacional
Voltei para a Pátria amada! Retornei ao meu torrão natal onde, outrora, cantava o sabiá! Infelizmente, o grande trauma é que você sai de um país onde todos fazem parte de uma equipe que vai do Alaska até a Flórida, num show de competência pelo progresso, pelo bem comum e cai de volta numa terra (a sua) dormente e irresponsável ou, melhor, negligente. Esta é a palavra: negligente - uma terra de homens negligentes diante dos perigos de nosso destino. Cortejamos o desastre com a volúpia do abismo, queremos conhecer o frisson de uma tragédia verdadeira.
Há apenas três meses, o Brasil estava em todas as manchetes do mundo como a bola da vez. O Brasil vai quebrar! - gritava a paranóia internacional. E, de repente, nada aconteceu. O dólar foi voltando ao normal, os juros caíram e com uma inesperada safra, houve crescimento da agrobusiness de 17% no trimestre; e a recessão não aconteceu. Ficamos alegres? Não.
Pairou no ar o claro sentimento de frustração dos catastrofistas de plantão. A turminha do quanto pior melhor, ficou sem discurso. Ninguém, disse: Ótimo! Vamos retornar as urgentes reformas! Ninguém quer mudar coisa alguma, esta é a verdade. Diante da melhoria das condições macroeconômicas, imediatamente começou a estratégia das irrelevâncias.
Ela consiste em se usar o superficial para não se mexer no necessário, consiste em se gritar bobagens bem alto para que não se ouçam as urgências. Com a passageira bonança econômica, ancorada na venenosa grana do FMI, imediatamente recomeçou o carnaval do otimismo irresponsável, com a substituição dos assuntos prementes por mixarias escandalosas. Ah, que horror, alguns ministros foram de avião da FAB para Fernando de Noronha! Como a nação pode suportar isto!
Uma besteira destas, com sindicâncias, manchetes delirantes, ocupa o lugar de outras preocupações essenciais como, por exemplo, o alarme que o economista Raul Velloso lançou sobre o perigo do orçamento aberto, no caso da Previdência que, com sua reforma ridícula, aleijada politicamente por covardia, pouco adianta para conter a falência nacional. O déficit dos orçamentos abertos saltou de 14 bilhões para 25 bilhões e desequilibra toda a balança dos gastos do governo.
Isto não preocupa ninguém. O que importa é que um maluco, por sabotagem ou descaso, botou uma notícia falsa no Diário Oficial, o que valeria uma caricatura custou uma semana de gritaria no Congresso. A notícia vagabunda serve para ocultar os fatos fundamentais que ninguém quer ver. Por exemplo, o depoimento de Everaldo Maciel, secretário da Receita federal que, na CPI dos bancos, disse:
- Querem resolver o problema do Brasil? Simples. Façam uma nova lei tributária, que acabe com o sigilo bancário, para que eu possa multar e prender os sonegadores que devem, só de ações feitas pelos juízes da indústria de liminares, US$ 115 bilhões de impostos sonegados. Querem mudar o País? Criem uma lei que obrigue metade das 530 maiores empresas do País a pagar imposto. Elas pagam zero de imposto. Querem assuntos essenciais? Obrigaremos, por uma nova lei tributária, que 33 dos maiores bancos do País parem de pagar zero de imposto.
Mas estes assuntos chatos, cheios de números, não dão manchetes. O ponto e vírgula é que interessa, os eternos cacciolas, os precatórios impunes é que vendem jornal. O fato de que metade do dinheiro arrecadado pelo INSS (50 bilhões) vai para pagar só vinte por cento dos aposentados e a outra metade para pagar os pobres oitenta por cento restantes, nada disso interessa. Enquanto isso, os colunistas do caos fazem ironiazinhas se o Clóvis Carvalho usou o aviãzinho da FAB ou não. Isto é café pequeno, é
pó-de-mico, é titica de galinha.
A Frente Única de revolucionários sem povo e oportunistas ladrões só se interessa pela sabotagem. Este governo está difícil de defender, pelo muito que tem errado, por falta de empenho etc., mas eu nunca vi uma oposição tão ferrenha. Sabem o porquê? Porque seu programa de governo, hoje mal parado e troncho, visava, no início, a atacar as estruturas velhas que sugam o País, e nesta mama, todos os moderninhos e patriotas querem continuando mamando. Ninguém quer mudar nada. O Brasil deu uma macromelhorada, mas continua na navalha do déficit orçamentário. Precisamos urgentemente (ahhh... palavra remota...) aprovar a Lei da Responsabilidade Fiscal, por exemplo, precisamos impedir a criação louca de novos municípios... (Ahhh... essa não... vou perder voto nas prefeituras...) É urgente a reforma da lei eleitoral! (Ihhh... sai pra lá, cortador de onda!). É imprescindível a reforma tributária... (Ahh... não enche o saco, cara! O importante é sabermos quem é desenvolvimentistas e quem é monetaristas!!).
Pelo amor de Deus, façam a reforma do judiciário!!! (Ahh... não precisa mais... já descobrimos o Nicolau Lalau... Pronto... o resto é detalhe...). A esquerda, que começava a ficar mais hábil e racional, abrindo um horizonte de possibilidades para 2002, já voltou à velha sabotagenzinha e ao renitente golpismo pós-moderno do Tarso Genro, pedindo a derrubada do rei.
Entrementes, FHC mergulhou em uma abulia rancorosa, em um secreto desejo de se vingar pelo fracasso e botar a culpa na sabotagem que sofreu. Um dia, de pijama, ele dirá: Fiz o que pude, dentro da democracia, mas não me deixaram... - e dormirá tranquilo na biblioteca da USP.
Tudo indica que o inevitável acontecerá. A democracia será desmoralizada porque o Brasil não a injeta nas velhas instituições autoritárias. O Brasil continuará patrimonialista, autoritário, cordial, gastador, falido, continuará sempre viajando na maionese até que a pobre democracia-da-boca-para-fora saia de cena de novo, dando lugar a um novo golpinho-de-direita porque, afinal de contas, os interesses do capital global não param e, como sabemos, os americanos são eficientes, obstinados e precisam conquistar mercados.
Eles são sérios e nós somos uns palhaços.





