Arnaldo Jabor





Arquivo FolhaA solidão da América
é um perigo para o mundo
A política externa americana não entende seu papel na liderança mundial
Existe um grande perigo no ar. Não é mais guerra fria, mas a ausência dela. Eu olho aqui do 32º andar de um prédio em Nova York e tenho medo. A ilha de Manhattan parece flutuar para um desastre, coberta de agulhas góticas apontando o céu. Nova York é uma explosiva mistura de vitória e arrogância, com este progresso espantoso, este triunfo da razão e do engenho humanos. A América é a grande esperança da humanidade ou o seu fim.
As duas forças da vida ou da morte estão ali embaixo, nas avenidas, ali entre os edifícios. Mais além da Estátua da Liberdade, vem o ‘‘resto’’ mundo. Mais além, estão os ‘‘emergentes’’, os pobres, a Europa unificada, a guerra nos Bálcãs, mais além estão os rogue countries (os países ‘‘delinquentes’’, como eles chamam os rebeldes). Mais além, estão os bilhões de chineses armados, estão os foguetes soviéticos nas mãos de um complexo industrial-militar dominado pela corrupção e pela máfia.
Enquanto isso, aqui, a direita cristã grita em pânico que ‘‘estamos feito uns patinhos, esperando os foguetes caírem’’, berra que temos de criar logo os escudos espaciais de Reagan (star wars) para nos defendermos dos ataques que certamente virão!
A América é a maravilha do mundo. Não adianta rosnar, gente boa. A vitória técnica, cultural, social, econômica, ética, democrática é absoluta, um orgulho para a história da humanidade. Aqui está a felicidade social, derramando no mundo o conforto, a rapidez, a eficiência, todas as conquistas liberais do século 17, do iluminismo inglês que os founding fathers usaram de bandeira. Tudo que a obsessão mercantil, do trabalho, tudo que religião da democracia podia criar, foi feito aqui. E, no entanto, este êxtase pode virar morte. Talvez o fim do mundo esteja nesta grande vitória.
Ali, do outro lado do rio, no horizonte, o século 21 começa a raiar. Ali, do outro lado do mar, ferve a inveja do mundo. Esta é a verdade inapelável: o mundo tem uma inveja devastadora dos EUA e, em contrapartida, os EUA têm uma indiferença brutal pelo mundo. Nosso futuro está nas mãos de um único mistério: conseguirá a América entender seu novo papel de líder solitário? Ela vai mudar? Terá a América a grandeza de se autoanalisar?
O preço que a América paga por este sucesso é não ter a mínima idéia do mundo em torno. Um grande narcisismo não elaborado poderá um dia deixar estas agulhas de Manhattan apontando para um céu morto. Pensando estas coisas graves, vejo que muitos cientistas políticos americanos estão com medo da vitória da América pós-guerra fria. No ‘‘Foreign Affairs’’ de março/abril, por exemplo, há um artigo de Garry Wilis, autor de ‘‘The Nature of Leadership’’ e outro de Samuel Huntington, nosso conhecido professor de Harvard, autor do ‘‘Choque de Civilizações’’. Os dois concretizam minhas preocupações difusas; se os dois cantassem em uníssono, como um ‘‘rap’’ diriam o que sintetizo a seguir.
‘‘A América tende a agir como se o mundo tivesse um só destino, tende a ignorar as diferenças de outros países. Ela se considera uma espécie de ‘imperialismo benigno’ e quer ‘ensinar’ aos outros a validez universal dos seus princípios.’’ Madeleine Albright disse outro dia: ‘‘Nós somos a nação indispensável, somos superiores e vemos mais longe que as outras nações.’’ Larry Summers, o subsecretário do Tesouro, saiu-se com esta: ‘‘Nós somos a primeira superpotência não imperialista.’’ Cada vez mais, a América está sozinha no mundo, agindo cegamente, aplicando sanções contra países ‘‘desobedientes’’, promovendo seus interesses corporativos sob o pretexto de difusão da ‘‘democracia’’.
A América sabota solenemente a ONU, molda o Banco Mundial e o FMI de acordo com seus interesses econômicos e transforma a OTAN num elenco de apoio para seu protagonismo policial, ao mesmo tempo que vende armas para os ‘‘países membros’’. Os EUA se consideram o ‘‘líder do mundo livre’’, mas este título só é ouvido em discursos de funcionários dentro do país; lá fora, só se ouve falar de sua arrogância unilateral, seu imperialismo financeiro, seu colonialismo intelectual. Os líderes americanos acham que a world business is their business.
Outro ponto perigoso da política exterior da América é que ela tende a achar que ‘‘agir sozinha’’, sem alianças incômodas, é que seria uma verdadeira política independente. Ela chega à loucura de achar que as divergências mundiais com Washington seriam justamente o indício de que a América estaria certa.
As posições externas dos EUA são muitas vezes ditadas pelas brigas entre republicanos e democratas. Por exemplo, a teimosia conservadora da direita cristã no Congresso chega ao absurdo de impedir ajuda a países que permitem o aborto. O presidente James Madison disse uma vez, num célebre texto, que ‘‘a América só poderia ser uma grande nação líder do mundo, se ela pudesse se enxergar através dos olhos de outros países’’. Este ditame de um dos founding fathers ficou esquecido e enterrado.
Isto é mais ou menos o que escreveram Garry Wills e Huntington e eles me lembraram um amigo americano que me perguntou uma vez, intrigado: Why do they hate us? (Por que eles nos odeiam?) - a propósito das bandeiras americanas queimadas pelo mundo afora. Respondi: ‘‘Pelo fato de vocês não saberem esta resposta...’’ Esta pergunta tinha de ser feita ‘‘para dentro’’, um autoquestionamento que, infelizmente, os vencedores nunca se fazem.
A autocrítica é vista como recurso de fracassados. No entanto, os campeões mundiais de progresso, que vivem como atletas em busca da vitória, um dia terão de fazer esta autoanálise, numa espécie de ‘‘antropofagia’’ ao avesso, tentando internalizar as diferenças do variado e incessante mundo exterior a eles. Se a América não entender a delicadeza de seu papel de líder no mundo, poderá ser o fim de tudo. Impérios acabam rápido. A URSS se derreteu em semanas. Se a América não olhar para dentro, um dia veremos a nuvem dourada da guerra nuclear envolvendo as agulhas góticas dos edifícios de Manhattan. E este sonho genial de eternidade terá sido apenas o projeto das ruínas do grande império que acabou.

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