Arnaldo Jabor
Arnaldo Jabor
No Brasil, o honesto é
apenas um canalha enrustido
As CPIs viraram o banho purificador dos políticos
A corrupção é um orgulho nacional. O corrupto, o canalha é olhado como um estranho herói nos restaurantes: Olha lá... vai ele... Aquilo ali é um águia... é um espada... faturou um granão neste último escândalo... aquele conserta relógio com luva de boxe... E o admirador completa, com o olhar vazado de inveja: Filho da mãe... E o canalha flutua entre picanhas e babas-de-moça.
Já o honesto é visto com fastio, até com certa desconfiança, pois o honesto pode ser uma ameaça, nos denunciando com sua pureza arrogante: Xiii... lá vem aquele cara metido a santinho... aquilo é um caxias... É um babaca que não come ninguém... E o honesto, de colarinho puído, vai roer seu pão com manteiga no canto da sala.
O Brasil é assim. Quando o Armínio Fraga assumiu, foi uma agitação no baixo mundo político: Trabalhou com o Soros... Cuidado... Os ladrões não conseguem admitir a honestidade alheia. E o Fraga, com sua cara de S. Francisco com passarinhos no ombro, teve de provar que não bateria a carteira dos senadores.
Os canalhas vivem em busca de outros canalhas que os salvem e absolvam. Eles não conseguem engolir a honestidade de FHC, por exemplo. Enquanto não encontrarem um cheque sem fundos, uma galinha roubada, não sossegam. Ele deve ter a sua tara, deve ter! Todo mundo tem! E dão patadas em todas as direções. (Este artigo está meio nelson-rodriguiano - será que ele baixou aqui sem eu perceber?).
Pois, se o Chico Lopes for provado corrupto será um banquete do Ali Babá e dos quarenta ladrões; ele será jantado com baixela de ouro e maçã na boca.
Já o Cacciola, bonitão, é visto com tolerância e até com temor reverencial. Se provarem seu crime, dirão: Danado, esse cara... dizem que é um craque operando no mercado... O canalha é cordial, te bate na barriga, ri muito, te empresta dinheiro: Toma, toma... leva... depois a gente acerta! Há canalhas que nos dão ganas de pedir autógrafo. E o sujeito nos assinaria o guardanapo: Com a amizade do Canalha de Oliveira...
O canalha sai na Caras. O honesto ninguém vê. O canalha alegra nossa vida com a exibição de suas riquezas: o paletó de comodoro com escudinho, as amantes de Chanel, a Mercedes com cascatinha e jacaré... Já o honesto não é respeitado nem dentro da própria casa; é visto com rancor pela própria mulher, invejosa das peruas ricas dos corruptos: Você não é honesto não; você é bobo! Nós vamos acabar na rua da amargura... - esganiça-se a mulher, com boquinha de nojo. Diante do canalha, perdemos o ar, olhando seu descaro luminoso, sua revolução ética: Meu Deus, em que desvãos morais este homem andou, em que maravilhosos mundo do mal... E o canalha percebe nosso encantamento e faz perfil de medalha.
O brasileiro desconfia antes. O americano desconfia depois. No Brasil, qualquer tentativa de honestidade é olhada de esguelha: Ele deve estar metendo a mão em alguma cumbuca... No Brasil, o honesto é apenas um canalha enrustido.
Agora estamos na febre das CPIs. Há 38 rolando pelo País. CPI para tudo, até para água mineral ou a CPI do Itamar-Tiradentes contra o Azevedo-Silvério da CEMIG. As CPIs servem para pegar canalhas e também limpar canalhas. O sujeito passa a vida na sacanagem até que surge uma CPI. Aí ele esfrega as mãos eufórico e posa para TV Senado: Sou purinho, topo o teste da janela. A CPI lava mais branco.
Quantos mares de lama já tivemos nos últimos anos. Os anões, os precatórios, os grampos do Planalto, a pasta rosa, os grampos do BNDES... O Brasileiro gosta de denunciar corrupas sensacionais, mas acha chato des-institucionalizar, desconstruir as canalhices. Por exemplo, adoram denunciar uma fraude eleitoral, mas se recusam a fazer a reforma política. Denunciar purifica; reformar dá trabalho. Bom é o barato do escândalo - Rostos graves, tremores dos acusados, lágrimas, assunto para colunistas chapas-preta e, depois, o silêncio. Duas coisas tem ajudado contra a corrupção: uma delas é a caixa baixa.
Com a falência do Estado, diminuiu a tolerância ao butim, na base da farinha pouca, meu pirão primeiro. São saudades dos bons tempos em que a horta dava para todos. A outra razão é histórico-tecnológica: não há software para roubalheira. Nos orçamentos das velhas multinacionais havia itens para comprar político e burocratas. Agora, os computadores, com sua lógica puritana, recusam dados como grana mole para fulano e sicrano.
Um corrupto me disse: A democracia é uma delícia!... Como é fácil de usar... Ela não oferece perigos... A ditadura foi boa comigo, não posso me queixar dos militares, dos meus tecno-burocratas lá dentro do pudê mas, aquele poder todo na mão de milicos, sei lá... de repente podiam invocar com você... Na democracia, não... eu fico protegido por um emaranhado de leis malandras, forjadas por meus avós... E esses escândalos periódicos, de que os jornalistas tanto gostam, dão ao povo a impressão de transparência e têm a vantagem de desviar a atenção das verdadeiras, as legais, eternas, tradicionais, que os códigos legitimam. O fait divers da canalhice brasileira serve para impedir as reformas e reforçar oligarquias.
Viram só? Canalhice também é cultura... Falei em Nelson Rodrigues, o grande escritor que passou a vida sendo chamado de canalha de direita por canalhas de esquerda. Pois, em sua obra, há uma galeria de canalhas, onde avultam dois: o canalha dionisíaco, o famoso Palhares, que não respeitava nem as cunhadas e também o grande Lemos Bexiga, o canalha enrustido. Esse era adorado pelos vizinhos como um santo. Menos pela mulher que lhe chamava pelos piores nomes e era considerada uma víbora na Aldeia Campista.
Um dia, a mulher morre e, no enterro, o bom Lemos Bexiga é flagrado batendo carteira dos amigos, no abraços de condolências. O pau comeu no velório, enquanto, no caixão, a defunta parecia sorrir. Na nova e espalhafatosa honestidade nacional, somos todos Lemos Bexigas.





