Arnaldo Jabor
Eu sou presidente dos Estados Unidos da América. Monica já se foi, Hillary já se foi e eu estou aqui, solitário no Salão Oval. Peguei esta mania. Só assim me excito. Não posso mais ter mulher. Todos me vigiam; qualquer secretária que eu olhe é um perigo potencial. Pensei em destacar o Verno Jordan para me arranjar mulher, mas ela teria de ser como a piada do papa - cega, surda e muda, se bem que com seios enormes e coxas exuberantes. São três horas da manhã e só me resta um pedaço frio de pizza. Daqui a pouco, a Madeleine Albright, com aquelas pernas que são seu orgulho, estará aqui, com um vestido azul-pavão, cabelo com laquê, querendo bombardear Belgrado de novo. Tudo bem. Junto dela estará o William Cohen, com aqueles olhinhos paranóicos (eu juro que aquele cara é veado), falando em carpet bombing. Poucos sabem da impotência da grande potência. Ahhh... me castraram, expondo meu pobre pintinho ao mundo e, agora querem que eu dê um show de virilidade. Cunharam uma palavra nova: benevolent hegemony. Quer dizer que nós somos a potência legalzinha, boa praça. Mas poucos sabem que estou no centro de um problema insolúvel; vocês dirão que é Kosovo, sim, claro, Kosovo é insolúvel, mas todo o resto também o é. Pensam que é mole ser presidente? Claro que é uma boa para o ego; nada como chegar precedido por helicópteros, guarda-costas atrás de você, o que te dá um quebranto meio feminino, claro que é ótimo olhar a maletinha negra na mão do eterno general te seguindo, com o código secreto para destruir a humanidade e pensar: Tudo isso é meu... ahhhh! Mas, eu estou numa encrenca porque acreditei no lance do hegemônico benevolente ou seja, em pleno mundo globalizado, eu parti para a imagem do bom moço, do cara que varia entre a profunda dedicação às causas da liberdade e um bom blow-job ali no cantinho do escritório. Eu sempre quis esta ambiguidade que me humanizava aos olhos dos intelectuais, dos jovens, da crioulada e dos veadinhos do mundo. E, aqui nesta madrugada, dentro do Oval Office, cercado de treva e solidão, enquanto os tomahawks caem em Belgrado, me bateu a certeza inapelável e cruel: a América vai ter de mudar! A América não tem mais inimigo potente. Meus inimigos estão todos bem: Fidel, Sadam, Milosevic invencível. Tive de bombardear um sujeito só: o Ossama - ridículo. Temos de mudar, senão vamos imperar sobre os escombros do mundo. Nosso maior inimigo somos nós mesmos.
Nos últimos 7 anos só fizemos errar, apesar dos trilhões de dólares que voaram para cá, depois da quebra geral da Ásia. Erramos porque acreditamos que a queda do socialismo foi uma vitória do capitalismo. Não posso dizer por aí, fica feio, mas não foi vitória do capitalismo coisa nenhuma; foi apenas o fracasso do sonho humano de solidariedade, foi a vitória do egoísmo o bem comum, foi a vitória das máfias da nomenclatura soviética. Ai, começou a festança louca da indústria financeira - como os yuppies de suspensórios coloridos de Wall Street chamam suas picaretagens. Eu não podia dizer nada, pois fui eleito por seu dinheiro na campanha; e eles caíram matando, enfiando bilhões de dólares goela abaixo dos amarelos, que piraram numa de construir hotéis de cem andares, campos de golfe, palácios inúteis, enquanto nós exultávamos com nossa guerra financeira de conquistas. Eu falava para os chefes do Tesouro, o Robert Rubin e o Larry Summers: Gente, vocês não são generais do exército, vocês estão vivendo esta expansão do capitalismo como se fossem o McNamara ou o Westmoreland - isto não é o Vietnã! Mas, eles enfunavam o peito, arrogantes, e partiam para impedir o Japão de criar o FMI da Ásia, para obrigar os amarelinhos teocráticos e loucos da Ásia a se transformar, da noite para o dia, em economias anglosaxônicas. A verdade é que sempre falamos de ideais democráticos quando queremos conquistar mercados, mas nosso desinteresse cultural pelo mundo só se iguala a nosso interesse comercial. Mas, agora, teremos de ficar realmente democráticos on bust.
A América odeia ambivalências, só raciocina por ou/ou e nunca por e/e, mas agora vai ter de pensar ambiguamente, porque é o seguinte: como poderemos ter fregueses, se eles morrerem todos? Precisamos que os países emergentes se desenvolvam para comprar nossos produtos, mas não podemos deixar que se desenvolvam muito a ponto de não precisarem mais de nossos produtos. Temos de manter os doentes vivos, consumindo, sem morrer. Este é o desafio máximo do capitalismo americano hoje. Outro problema: como disciplinar o capitalismo financeiro especulativo se ele mantém oculta a crise do capital produtivo? Como vou convencer a América corporativa a pensar a longo prazo, se a prudência política nunca vence a fome de lucro imediato? Como convencê-los a ter meio lucro, meia voracidade? E Kosovo? Para quê fui me meter naquele atoleiro? Em nome da razão e poder! Ah... abaixo Locke, maldito Jefferson! É fácil deitar regras iluministas naquele charco de Washington há 250 anos; quero ver agora... Os sérvios lutarão até a morte para vingar a vitória de Murad 1 um remoto turco que os derrotou em 1389 em Kosovo há 600 anos!... Como enfiar racionalismo democrático (e mercado) nestas gentes? Como? É muito dura a solidão que eu tenho de suportar. Como vou resolver a crise mundial se não consigo resolver nem minha crise sexual? Monica já era: Hillary não pode nem ouvir falar de mim, apesar dos sorrisos oficiais. Talvez seja boa a idéia da mulher cega, surda e muda... Ahhh, vou ecomendá-la ao Vernon Jordan. E como seria ela?
Ahhh... vou imaginá-la gostosa assim como a... Jennifer Lopez... isso... uma Jennifer Lopez surda-muda e cega, enquanto os foguetes caem em Belgrado... Ou então, boa idéia! - aquela mulher da revista que o FHC me enviou... como é o nome? Tiazinha - Little Auntie - com ancas largas, morena, terceiro mundo, entrando ali pela porta... Isso: ela viria tateando, cega... com suas pernas perfeitas... Ela não me veria, nem me ouviria... Isso, aqui, no Salão Oval, diante do retrato de Jefferson, oh... doce vingança... Ahhh... Come in, Little Auntie, come in - estou esperando por você... ahhh...!!!





