Arnaldo Jabor
Arnaldo Jabor
NOSSO DESTINO HISTÓRICO
É A PORTA DOS FUNDOS
Arquivo FolhaTiazinha e cia. sempre posam de costas como quem mostra um bebêO sucesso da Tiazinha nos convida a reflexões profundas
Chego ao Brasil e vejo a bunda da Tiazinha. Parece que o País inteiro está sob esta sombra, esta lua dupla. Ninguém pensa em outra coisa. Vejo os homens buscando a revista nas bancas: Chegou a Tiazinha? Deveriam dizer: Chegou a bundinha? Isto porque a bunda da moça tem vida própria.
Desculpem-me os leitores, mas a palavra bunda é a única de que dispomos. Temos metonímias: nádegas, temos doces apelidos como bumbum, mas devo usar ressonância africana, dos negros bundos do fundo da floresta, palavra opaca, rombuda, palavra com eco de grotas e gritos de animais. A palavra já soa imprópria, obscena, já traz um adjetivo acoplado.
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A bunda e o outro
Há um espantoso desengajamento entre bunda e a dona da bunda. Reparem que Tiazinha e outras sempre posam de costas, olhando para nós, como quem mostra um bebê bonito, como se a bunda fosse um bichinho de estimação. Quem manda? Ela ou o bumbum? Ela é égua ou cavaleira, como perguntaria João Cabral? A bunda toma às vezes o lugar da dona, fica muito mais importante do que ela. São duas: ela e a outra. Às vezes entram em choque. Conheci uma moça que ficou paranóica de tão lindo rabinho que portava. Conversávamos, lhe dizíamos gentilezas, mas não era a ela que servíamos, servíamos a outra. Ela vivia com ciúmes de si mesma, carente, e sua bundinha parecia dizer: Prestem atenção nela; ela também é gente... A mulher de bunda bonita esta sempre de costas, mesmo quando de frente. As mulheres de frente são mais inquietantes, porque são sujeitos, com rosto e alma. Já as mulheres de costas tranquilizam-nos, por aparentarem um caráter passivo, mais objetal diriam os filósofos. O desejo de costas é o apagamento dos perigos da vulva.
Nas fotos da Playboy, há sempre duas: a Tiazinha e a bunda. A vagina, uma estridência invasiva nesta dupla, insinua-se tímida, como um ruído de vida, de responsabilidade, humanizando (e estragando um pouco) as fotos. A máscara, velho adereço sádico, expõe mais sua nudez, pois oculta-lhe a individualidade. E o chicotinho acrescenta-lhe um veneno agressivo de uma mamãe castigadora com um pênis imaginário tão deslocado quando o nome tia substitui o nome mãe ou irmã - diria um Lacan de galinheiro. Sem máscara, a moça fica uma pobre alma como nós. Muito homem reclamou: Sem máscara, não tem graça. A bunda é estéril; não inquieta como a vagina e seu mistério. A bunda não procria - muito pelo contrário. A bunda não exige nada. A bunda não tem rosto. A bunda, diria a USP, é o sujeito moderno.
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A bunda virou um instrumento de ascensão socialBunda e história
A bunda não começa no descobrimento. As índias, se bem que oferecidas, não as tinham avolumadas, mas escorridas em pêra, barrigudinhas e frágeis. A bunda começou nas senzalas, com senhores inflamados diante das Vênus calipigeas, negras cavalas longe do tédio das sinhás. A bunda se desenvolve na Colônia, sendo o móvel de crimes e de punições da Inquisição. O nefando vício (sodomia homossexual) que era reprimido com horror, se desvia para as mulheres, fazendo-as possuidoras de duas em um, dando aos ardentes portugueses a regalia de ser homo e hetero ao mesmo tempo. Nas colônias norte-americanas, os seios fartos das puritanas ficaram como símbolo antípoda das bundinhas da orgias tropicais. Eu já vi belas bundinhas no passado, nas areias de Ipanema, e elas tinham uma florescência espontânea, inocente. Elas povoaram as praias dos debudantes como flores do mal; eram bundas da contracultura, bundas alternativas. Hoje, década sinistra, surge a bunda industrial. Carla Perez foi o prenúncio. Ela mudou a música, o bom gosto, ela desviou a sexualidade de nossas meninas, fazendo-as pagodeiras e bailarinas da garrafa. A bunda de Carla não é propriedade da dona, nem de nosso desejo. Ela fatura milhões. A bunda é um ativo industrial da Abril. É ela que nos come, invertidamente. Nós somos seu objeto de consumo, ela nos programa, voyeurs obedientes organizados numa platéia de masturbadores.
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A bunda social
A bunda virou um instrumento de ascensão social. Nossas pobres meninas românticas, pensando em amor e filhos, lutam por um lugar ao sol e são obrigadas a rebolados cada vez mais desbragados. A globalização da economia está nos deixando sem calças; ficou-nos só a bunda, única riqueza. Milhões de menininhas nos grotões do País olham-se no espelho, pensando Vou subir de vida. A bunda hoje é um capital.
A crise está transformando a bunda em único assunto, única notícia. Nossa cultura reduziu-se a isso. Depois da bunda, o que virá? - já que a indústria cultural exige sempre mais? O ânus luminoso, as entranhas profundas, o avesso absoluto do corpo? Já tivemos muitas pin-ups as certinhas do lalau, as gostosas dos teatro de revista, mas todas nos eram vendidas como um conjunto. Babávamos diante de Angelita Martinez ou de Carmen Verônica, mas nos babávamos diante de pessoas completas. Eram mulheres modernistas, tinha um it de liberdade e luta. Já no fim do milênio, a bunda distópica, a pós-bunda se isolou pela parcialização progressiva do nosso desejo. O objeto total de Melanie Klein, (aquela mulher sem bunda, com seios enormes), foi substituído pelo objeto parcial perverso, deliciosamente irresponsável,da ordem do demônio, ao contrário dos seios, por exemplo, da ordem de Deus.
Enquanto as sondas americanas vão para Júpiter, enquanto a Europa faz a unificação econômica, nós olhamos a bunda. A bunda é nossa cara: um lugar infecundo, porta dos fundos, entrada de serviço, periferia - é onde ficaremos para sempre. A Tiazinha é o sinal dos tempos. A bunda é nosso destino histórico.





