Arnaldo Jabor
Não é o cinema que está piorando; quem está piorando é o público. Outro dia, falei na TV que achava o A Vida e Bela uma droga. Para quê!... Passei por um corredor polonês de xingamentos: Metido a besta... antidemocrático... invejoso... patriotinha defendendo o Central do Brasil. Tudo bem. Não me interessa provar que A Vida é Bela seja um abacaxi. O que me intriga é o sucesso crítico do filme. Claro que entendo que parte do público goste, sôfrego por algumas lágrimas nestes tempos áridos (Uma amiga me disse: É tão bom chorar no escurinho...).
Mas, para além do melodrama (é irresistível um pai morrendo pelo filho...), há outros fatos. Como explicar que um abacaxi seja indicado para 7 Oscars e provoque comoção nas bilheterias do Norte?
Bem, o filme tem a receita infalível para emocionar americano: criancinha, holocausto, miséria e cachorrinho. Este filme só não tem cachorrinho; o resto da fórmula rasga o coração dos hegemônicos humanistas do Norte e ilustra à perfeição o desejo atual do mundo global do espetáculo.
Com os mercados nacionais já conquistados, eis o sinal da influência cultural invencível - os nacionais terão de fazer filmes que caibam nos códigos e repertórios que o americano adotou para o seu próximo milênio: realismo na trama, identificação projetiva com os personagens, princípio, meio e fim, final feliz (de preferência) ou, se tristonho, com uma mensagem de redenção (redemption) qualquer que provoque esperança nas platéias. Sem isso, não há negócio. O mercado interno acabou no Brasil e na Europa. Só restou aos produtores o travestimento cinematográfico - única forma de filmar que pode levar o diretor ao primeiro mundo e que pode fazer o filme ser distribuído no mercado global. Se insistirem em ser locais, ficarão confinados a prateleiras.
O que aconteceu com o cinema brasileiro é parecidíssimo com o que rola na economia nacional.
Como a URSS - que caiu sozinha no chão, diante dos olhos deslumbrados dos yankees - também a linguagem crítica ou alternativa da cultura do século 20 se esboroou sem explosão. Nada mais remoto do que o neo-realismo, Godard, cinema de autor, nada mais morto que a esperança do modernismo, Brecht e seus filhos, nada mais velho que o sonho de um cinema influenciando o bem do mundo. Hollywood, mesmo com seu dourado passado e seus gênios solitários, matou o diretor para sempre, transformando-o em guarda-de-trânsito de atores. Hoje, quem escreve e dirige é o computador, com softwares de roteiros, enquanto os produtores, ovantes, celebram o fim dos chatos artistinhas.
A tradição de arte do cinema europeu virou uma lenda e só serve para alimentar um novíssimo tipo de baixo comercialismo, este que o Benigni adota: o filme que finge que é de arte, europeu, de autor, com causas sociais ou libertárias. A Vida é Bela é isso.
As raízes de seu oportunismo são visíveis. Primeiramente, a herança postiça de neo-realismo, ecos vulgarizados do drama de filhinho e papai tipo Ladrões de Bicicletas ou de obras indignadas como Roma Cidade Aberta. Esta filiação neo-realista é muito prática, porque permite que a incompetência da narrativa se esconda sob a aparência de uma retomada da rica precariedade dos filmes do pós-guerra. Também, uma fachada popular dissimula o populismo caricatural do filme, enquanto vagos traços de desobediência civil camuflam a ignorância política banal e males já catalogados, como o holocausto judeu.
Além disso, a nacionalidade italiana do filme agrega-lhe um charme europeu, um diferencial multicultural sedutor para as platéias hegemônicas. Apreciam deliciados o sabor exótico de um cinema importado e, no caso deste filme, sua falsa italianidade simpática, com o cortejo de clichés típicos: a doce esculhambação mediterrânea, o afeto desbragado dos latinos, as arlequinadas do palhaço bondoso, mas cheio de coragem política. O pretexto da comédia engajada dissimula a chanchada medíocre e as bobas cenas de pastelão são perdoadas como porralouquice de italianos, enquanto o Benigni suga (e trai) a grande tradição cômica de atores como Toto e Alberto Sordi... A esperta sucessão de velozes trapalhadas escamoteia a falta de graça e permite que o marketing do ator compare-o a Chaplin! Eis o que fascina no filme: ele parece, mas não é. Parece engraçado, mas não é (causa apenas o riso grosso, sem a iluminação que a boa comédia traz) parece europeu, parece nacional, parece político, parece de arte e não é nada disso. É um tipo novo de droga: o abacaxi sedutor.
Este filme não é apenas um honesto entretenimento; ninguém vai vê-lo com a pura volúpia de se repastar em besteira. O público vai ver arte e acha que viu. E mais: o filme vai conseguir o que planejou: ganhar o Oscar, exatamente como o menino que é libertado e ganha o tanque no final, salvo pelo soldado americano sorridente. A redenção de Benigni é a América.
Por isso, digo: quem piorou foi o público. Há alguns anos, a massificação acelerada da cultura ainda permitia que filmes ou livros importantes se infiltrassem nas frestas do mainstream. Nos USA, grandes obras surgiam até por acaso como, recentemente, Blade Runner. Nos filmes comerciais dos anos 50 e 60 havia uma certa inocência, o desejo de alguma forma de grandeza. Depois, a brutalidade dos mercados aumentou e a banalização das mensagens - sem nenhum ruído de arte - se concretizou em definitivo. Ficou muito exíguo o espaço para a arte entrar na mass culture - a grande utopia dos artistas de minha geração. Achávamos que haveria espaço para a qualidade e para a reflexão, nas brechas da indústria cultural. Não rolou. Ruiu o cinema brasileiro real - só existe o imaginário - depois que fechou o mercado nacional. 80% da produção brasileira do tal renascimento ficará nas prateleiras. Ruiu o cinema de autor e, claro, surgiram os nobres guetos para iranianos, para gregos, albaneses e até para brasileiros. O Cahier du Cinemá virou PremiSre. O público esqueceu o que sabia. A crítica, sem material para reflexão, ficou cada vez mais tolerante, gastando tinta para desentranhar belezas no lixo geral.
E o leitor poderá perguntar: mas, por que tanta raiva contra o filme? Raiva nenhuma; o que me impressiona é o público. Por outro lado, amigo leitor, são tão antigas minhas razões, tão esquecidas as referências que trago, tão sem solução os dilemas, que talvez A Vida é Bela seja o início de uma nova era que vai parir Dantes burros, divinas chanchadas, Shakeaspeare de papelão, Goethes em software, uma Renascença do conformismo total, uma Renascença que celebre para sempre nenhuma diferença, nenhum mistério, mas a eternização da redundância, a cultura infernal do Mesmo. Não ligue muito; afinal, eu não passo de um romântico decepcionado e muita gente nem sabe do que estou falando.





