Arnaldo Jabor
Eu já estava com a pílula de cianureto na mão, a taça de champanhe na outra, pronto para me suicidar, quando o telefone preto tocou. Corri para ele. Claro que era o Nelson Rodrigues, que nunca me falha nas horas de desespero.
á- Rapaz... você atende o próprio telefone come se fosse o contínuo de si mesmo...
Na linha, eu ouvia harpas e liras que anjinhos com asas de papelão tocavam em cima da nuvem azul e branca que o Nelson habitava. Arquejei:
- Nelson... estou exalando negra e cava depressão... eu ia me matar e deixar um bilhetinho para os amigos: Matei-me por decepção com a pátria que me pariu. Ainda bem que você ligou. Não aguento mais a crise nacional. Nos meus vinte anos, o Jânio Quadros tomou um porre e renunciou... Depois, os militares tomam o poder. Vem o Ato nº 5, depois ditadura, tortura, 15 anos de bosta até que um dia, alegria, democracia! Aí, o micróbio entra na barriga do Tancredo e o homem morre. Vem o Sarney, inflação de 70% ao mês, depois o Collor... Aí, quando eu já estava resignado a desgraça eterna, surge o FH sorrindo, acaba com a inflação, promete o novo mundo... Apostei tudo. E agora, este horror aí... será que nunca teremos jeito?
- Rapaz... o teu problema é que você lê as coisas pela política. Pára com isso... O Brasil é assim mesmo; ele anda para frente, mesmo quando anda para trás. É por isso que os estrangeiros não entendem nada... Eles inventaram este tal de progresso em linha reta. Mas aqui, como dizia o Eça, o caminho mais curto entre dois pontos é a curva doce e delirante. O Brasil não é só a política. O Brasil está nos intervalos. O Carnaval vem aí... Pode acabar a economia, que o Pão de Açúcar não cai e a escola de samba sai... Esse negócio de crise também é invenção de americano. A crise é deles, não é nossa... olha... o Keynes está aqui...
- Quem?
- O Lord Keynes, rapaz... aquele inglês do Eretton Woods... elegante... só anda de smoking no céu.
- Oh, Nelson... você está manjando de economia...
- Tenho caprichado... recebo o Financial Times aqui... acho tão poético... cor-de-rosa feito o Jornal dos Sports que meu irmão fundou... Pois o FT e o NY Times e o The Economist ficam apavorando a gente: Crise é a contabilidade deles que não fecha... o Keynes ficou meu amigo e me explicou que eles são todos mercadores, vendedores de tapete... A crise é deles e eles exportam para nós. Eles estão apavorados com o perigo de perder dinheiro se o Brasil ficar roendo rapadura no meio-fio e não comprar mais nada. Quem matou o Keynes foram os americanos; ele sofreu tanto para conseguir um empréstimo para tirar a Inglaterra do buraco no pós-guerra, que morreu de cansaço... Agora está aqui. O Keynes disse que eles estão com medo porque vem aí uma crise do capitaslismo danada.
- E aí a gente morre junto, Nelson...
- O Brasil escapa, rapaz, nossa esculhambação é revolucionária... o Brasil está embaixo... não acaba... não acabou com o Collor, com os ricos, os milicos... É até bom, para acabar com esse negócio de celular, de BMW, de supermercado... Bom é armazém, carro velho, telefone preto, geladeira branca... Quem tem medo de crise é a grã-fina de narinas de cadáver; o povo está roendo rapadura há séculos...
- Mas, o Plano Real era inteligente e moderno... foi a única aventura da Razão feita aqui...
- O problema do FH é que acreditou demais na inteligência. Ele tinha de ter dado miolo de pão para as toupeiras e farelo para as bestas quadradas. FHC errou porque só acreditou na macroeconomia (o Keynes me ensinou). Nada de macro, o Brasil é micro. O Brasil está no detalhe... está na empadinha, no botequim, na luminosa burrice dos políticos! Outro dia vi o Malan na televisão...
- No Céu?
É... aqui pega o Fantástico. Pois, rapaz, o sujeito falava em superávit primário, em volatilidade de mercados emergentes... Imagina o crioulão comendo angu em Ramos vendo lero-lero, rapaz... O brasileiro está de boca aberta, ninguém entende nada... Eles esqueceram que a burrice nacional é a Pedra da Gávea... Não deram farelo para os burros, que agora estão revoltados... Veja o Itamar; subiu no caixotinho de querosene e começou a discursar. Já apareceram milhões de cretinos aplaudindo e babando na gravata. O Itamar vai ressuscitar a burrice nacional, que chega até a ser meio poética. As oposições sem programa vão seguir o Itamar igual cachorro de batalhão, latindo e abanando o rabo no ritmo da música...
Se eu encontrasse o FHC, eu diria: Seja burro! Seja burro! Seja impaciente! Erre, babe na gravata! O Sérgio Motta está aqui, dando patadas rutilantes em todas as direções. Ele baixa em sonhos do FHC, mas o homem não ouve o que ele sopra. Ontem, falou que vai baixar num centro espírita e perseguir o Itamar feito um exu-caveira de voz fininha... Se bem que eu, cá entre nós, acho que o Itamar vai ser bom para o FH. Ele é o único homem que ferve o sangue dele. Pode ser que ele reaja, perca a frieza, e saia dando rabos-de-arraia no Itamar...
- Mas o Plano Real seria a solução para tanto atraso histórico...
- O problema do Brasil é achar que há solução. Não há solução. Há países que não têm ouro, outros não têm petróleo. Nós não temos solução... É assim que vai ser, até 6000 anos depois do juízo final...
E tem mais... o Brasil está louco para cair no abismo... o Brasil só sossega depois que cair no abismo...
áá- Como assim, Nelson? - digo eu como nos maus diálogos de filme B.
- Eu tenho o palpite de que o brasileiro quer conhecer um milagre de cabeça para baixo. Precisamos errar até o fim para saber quem somos. O brasileiro tem angustia da vitória. O abismo é nosso desejo profundo, nossa antiutopia... Um país grande e louco como esse não podia se adaptar a nova ordem mundial sem sangrar... O abismo para nós é uma tentação, uma vertigem de altura... Só depois da tragédia total o Brasil renascerá. Depois dos cacos do FMI, depois da grande desgraça, o Brasil vai plantar marias-vagabundas e samambaias no fundo do abismo. Bananeiras e jaboticabas vão florir no fundo da lama. E aí, satisfeitos de tanta ignomínia, voltaremos à vida. E tudo renascerá. O Brasil, rapaz, é um feriado...
- E Nova York é um eterna segunda-feira...
- Que é isso, rapaz, você fazendo frase... Vai abrir uma lojinha de metáforas, feita o Otto?... Mas, é isso mesmo, estes gringos estes fischers, estes rubins não sabem de nada...ah ah..eu acho uma graça infinita... Eles acham que nós temos jeito...ah ah.. Pois, saiba que o Brasil vai desmoralizar o FMI... Eles vão ficar sentados no meio-fio, tentando saber o que lhes aconteceu... Nunca vão entender esta mistura de escravismo com generosidade, de sordidez com grandeza. Eles não sabem onde estão se metendo... O Stanley Fischer vai acabar empurrando a kombi do FMI que enguiçou no Andaraí... A palavra nova vem daqui, rapaz, do Brasil... Esta infinita eficiência dos americanos vai levá-los ao beco sem saída da competência infernal, desta missão que os puritanos inventaram, há quatro séculos... Eles acham que um dia poderão descansar... Os americanos não vão poder descansar nunca... E aos poucos vão enlouquecer. O perigo é levarem o mundo junto, mas isso eu não posso revelar. Deus-Pai aqui anda uma fera... parece um síndico complexado... Por isso, rapaz, pára de sofrer... Você e o Brasil precisam de mais autoconfiança...
- Puxa, Nelson, você me salvou...
- Você precisa parar é de bancar o grã-fino... você aí fica muito sozinho aí nos EUA... A pior forma de solidão é um elevador cheio em Nova York. Volta para o Meier...
- Volto sim, Nelson... Reza por nós.
- Vou dar uma palavrinha com o chefe...





