Arnaldo Jabor
David Appleby/divulgaçãoEvita é um abacaxi? É. Mas não parece. Tudo é tão vestido pelas aparências, que o erro recobre com o manto diáfano da qualidade. Evita, como tantos outros produtos da indústria do pós-cinema, até que parece bom; mas não é. Tudo funciona: os efeitos especiais, a fotografia; mas o filme, não. Evita é, digamos, uma pós-porcaria. O que é isso? Seguinte: os velhos abacaxis tinham a cara óbvia do abacaxi; tudo mancava, os heróis não emocionavam, os vilões eram ridículos, etc... O sujeito saía do cinema com a rútila certeza de que tinha visto um abacaxi. E tinha a suprema alegria de se vingar com os amigos: Não vai, não vai!
Já com Evita, é diferente. Eu saio do cinema e encontro um amigo: É um lixo!, digo. E ele: Ah, é?... Então, não vou!. E eu: Vai sim, tem de ver! É importante!. Por que é importante ver Evita? sei lá. Talvez, porque temos de estar informados sobre nossa desinformação, temos de estar atualizados sobre o nada que nos oferecem. Ou seja: o fato-Evita, seu descaro de marketing, sua falsa qualidade, merece ser visto. Precisamos afinal entender a marcha lenta da dialética da burrice, este baixo-hegel que nos levará ao Espírito-de-porco.
Evita é um pacotão de coisas desidratadas que não são nem odiáveis, nem amáveis. O filme é a cara de hoje.
O pós-musical O filme é uma adaptação óbvia do aguado musical dos anêmicos e bilionários Tim Rice e Andrew L. Weber, herdeiros bastardos de Gershwin, de Cole Porter, de Bernstein, de Stephen Sondheim, de tantos. Em Evita, suas canções são apenas uma grande pasta sonora servindo de prólogo para o infalível orgasmo populista do Dont Cry For Me Argentina. Ouvi-las provoca uma intensa saudade funérea dos musicais antigos. Nos grandes film-musicals de 35 a 55, havia a esperança de uma vitória da Vida. A alegria dos musicais democráticos do pós-guerra talvez tenha sido o maior feito do cinema americano. Busby Berkeley (o grande precursor) foi tão importante para a imagem livre quanto um Marcel Duchamp. Fred Astaire era um Picasso. Minelli, Gene Kelly, Stanley Donen, Hermes Pan, Jerome Robbins, Michael Kidd e tantos outros foram gênios da poética da felicidade. Já o pós-musical (tirando o delírio camp que foi All That Jazz, do grande cafajeste Fosse) é uma pasta sem heróis nem esperança. Como no mundo de hoje. Como em Evita, que parece um mau Fellini filmado pelos fotógrafos do National Geographic, como disse Marcelo Filgueiras no Clarin. Sem esperança, Evita finge ser um naturalismo cantado, um documental-musical (um novo gênero ou um esparadrapo?). Só que os documentais hoje estão sendo re-criados, como aquele incrível Na Cama com Madonna, onde se planejava o acidental, onde o espontâneo era encenado, onde a verdade era fingida para parecer verdade mesmo. Madonna inventou o cinema histérico. Evita não é bem ficção, nem documental, nem tragédia, nem comédia. Fica numa espécie de ante-sala da opinião política, no vestíbulo de qualquer engajamento, já que, no fim do século, ninguém mais sabe onde está o famoso Bem. Nem o Bem liberal-americano nem o Bem socialista.
Abacaxi ou cebola? Evita não é bem um abacaxi; está mais para cebola. O filme é fabricado com o que está fora dele. Será o filme a história de Evita ou de Madonna querendo fazer Evita? Antônio Banderas está no filme porque Madonna quis comê-lo ou ela quis comê-lo porque ele é o Antônio Banderas, como vimos no supra-aludido documentário Na Cama...? Ou teria sido tudo mentira, chegando Madonna a fingir que era tesão, o tesão que ela deveras (não) sentia por ele?
Uma coisa é certa: Evita e Madonna queriam o Poder. Talvez Evita seja a história de Madonna querendo o poder de ser uma grande atriz sem ser, fazendo o papel de Evita que queria o poder de ser uma grande mulher sem ser, mas sendo a grande atriz que Madonna não é. O drama de Madonna se estrepando como atriz é o mesmo de Evita se estrepando em sua breve vida ambiciosa. Claro que tudo isso poderia ter o supremochic rococó de ser um jogo de espelhos sofisticados, poderia ser uma divina meta-linguagem decadente. Mas, não é. Este barroco decadente não nos ilumina. Não tem nem mesmo a perversão dos grandes fins-de-siecles. Nosso fim-de-época é desidratado e fosco. Ao fim, tudo se guarda nas prateleiras do óbvio dos estúdios.
Em Evita tudo se encaixa como os jogos-de-armar de colégios para mongolóides: o filme fala do populismo de Peron através de uma narrativa tão populista como o populismo de Peron. A música aguada de Weber é morna como o aguado morno do enredo, onde mocinhos e bandidos se anulam, mornamente. O próprio Che, que no original era o Guevara, futuro guerrilheiro observando tudo do ponto de vista de Marx, vira o Che Banderas, um Zé Povinho que olha tudo do ponto-de-vista dos excluídos cultos, como nós, os latinos impotentes com o neo-liberalismo.
Para onde vai o Che, no final? Na peça, ia fazer a revolução cubana. No filme, talvez vá trabalhar em Hollywood, fazendo o papel de Antonio Banderas, que o falso-verdadeiro tesão de Madonna revelou.
Nos filmes como Evita tudo é predictable (previsível), como dizem os roteiristas americanos. só que a previsibilidade hoje, em vez de ser um erro, virou virtude: os idiotas descobrem o óbvio e com isso se contentam. É uma nova catarse, a pós-catarsis: o óbvio re-assegurador da falta de imaginação.
Por fim, Evita é competente ou, talvez, neo-competente. É uma produção impecável, marketing genial. Para quê? Para nada. Aliás, tudo é assim no cinema de L.A. que nos domina, do qual o ícone atual é o falso bom cineasta Oliver Stone, (não por acaso, roteirista de Evita).
Em suma, Evita é um filme que não é. Parece sério, mas não é. Parece político, mas não é. Parece musical, mas não é. É o que? Sei lá!... é um abacaxi, mas tem de ser visto.





