É... acabo de ver o impeachment de Clinton na TV. Mas, afinal, o que houve? Não sei. Ninguém sabe... todos os comentaristas americanos estavam pálidos e um clima de pânico rola aqui. Algum erro está sendo cometido, algo de surreal ou hiper-real está acontecendo e... you don’t know what it is... Mr. Jones - algo está acontecendo e não se sabe o que é. Tornou-se impossível uma reflexão política com princípio, meio e fim sobre isto; só dá para listar indícios, inquietantes coisas, tênues raciocínios. Os fatos estão acima da compreensão; eles não cabem nas eternas grades de bom ‘‘bom senso’’. Mas, sinto que a verdade de nosso futuro está aqui. Um dia, entenderemos o que nos acontece hoje.
A tela da TV CNN estava dividida ao meio; de um lado , o ‘‘impeachment’’ do Clinton rolando na Câmara. Do outro, os foguetes em Bagdá. De um lado, os comentaristas perplexos, tentando entender como o comandante-em-chefe dos USA pode estar sendo banido num lado da tela e arrasando Sadam Hussein do outro lado. Impotência e potência, ao mesmo tempo. Sexo e guerra, amor e morte, a cara hedionda de Linda Tripp e o rosto histérico de Monica influenciando a história do mundo. Enquanto isso, a repórter-sexy Christiane Amampour em Bagdá, chiquérrima, narrando a guerra como um desfile de modas: ‘‘O clarão que viram agora foi de um tomahawk de 20 milhões de dólares, ouçam agora o som: PRAHHH! Holy Cow! Viram? Lá se foi o Ministério da Defesa de Sadam!’’ A guerra verde, cor-de-fezes, cor-de-vômito. Os foguetes que caem em Bagdá saem da boca de Monica Lewinsky. Coito interrompido em Washington e mísseis fálicos explodindo no Iraque, no berço da civilização; aliás, onde ela pode acabar. Berço e túmulo? Que significa este ‘‘frisson’’ de fidelidade rolando no fim de século, com todos falando em ‘‘contar a verdade’’ e em ‘‘império da lei’’ (rule of the law)?
Dois ‘‘galinhas’’ republicanos foram cruciais no julgamento do ‘‘galinha-presidente’’: Henry Hyde (destruidor de lares na juventude, velho narcisista com cabelo de prata) e Bob Livingston, confesso comedor de mais de 30 amantes, pedindo perdão à mulher no ar, renunciando à presidência da Câmara e dizendo que Clinton devia fazer o mesmo. Que verdades estão sendo ocultadas atrás desta ‘‘verdade’’ triste, puritana, feia como as caras góticas dos republicanos, todos iguais, todos com cara de murchos ‘‘falos’’, todos militares de uma revolução reacionária, com seus olhinhos cruéis e as ideais fixas na vingança contra a vida.
Que verdades, debaixo da ‘‘verdade’’? Ali, soterradas estão: a verdade da fragilidade humana, a verdade das diferenças culturais, a verdade de suas próprias taras reprimidas, da boneca do Starr, da solidão rancorosa das mocréias denunciantes, a verdade do ódio republicano contra a liberdade dos anos 60 que Clinton tentou, mediocremente, homenagear com seu saxofone, sua maconha mal fumada, seu coito interrupto, a verdade do inconsciente, a verdade da alegria, a verdade de que, sob o disfarce do ‘‘domínio da lei’’, o que eles amam mesmo é o super-ego sádico, o bode, a morte. Que prazer é este de contrariar a maciça opinião pública que apoia Clinton (68% dos americanos), de boca aberta diante deste golpe-de-estado? Acabou a ilusão de que, com o fim do socialismo, o liberalismo teria ‘‘algo’’ a dar ao mundo. ‘‘Sim, claro - pensávamos - talvez a democracia liberal possa oxigenar nosso beco-sem-saída ideológico; talvez este indeterminismo de mercado possa regular esquemática crença numa sociedade igualitária ...’’ Depois do fim do socialismo, a América conveceu o mundo (e a si mesmo) de que a política tinha se dissolvido numa doce sopa liberal, feita de consumo e progresso. A América vendeu (e nós engolimos) a idéia de que ela era pós-ideológica, global, multicultural e de que o tempo do big stick tinha acabado. O mundo se encheu de ‘‘costureiras ideológicas’’ de contrários: Tony Blair, Jospin, nosso FHC - Sensatos e sorridentes fariam o ‘‘arreglo’’ das questões impossíveis. ‘‘sim, claro, o capitalismo está mais moderno, mais complexo, é um fecundo provocador de progressos, pela ‘‘destruição criativa’’. Até as sacanagens extra-conjugais de Clinton eram um simpático indício de democracia e tolerância. Mas o ‘‘impeachment’’ fez sair da cova os verdadeiros ideólogos da ‘‘América corporativa’’, que não tolera indeterminismos, mesmo que sejam apenas public relations para enrolar emergentes babacas. Os republicanos mostraram que há uma feroz luta interna se passando sob as estatuas dos founding fathers (os pais fundadores) e que, infelizmente, sempre vencerá a bandeira mais óbvia. Eles não estão atacando o deboche sexual em Clinton, nem a mentira do juramento e todo este bullshit protestante; eles querem mesmo é acabar com a complexidade das questões, a tímida tolerância tentada, a tênue tentativa de entender o mundo fora dos EUA que Clinton, bem ou mal, buscou. Capitalismo de verdade odeia ambiguidade. Provavelmente, renascerá o imperialismo velho de guerra e - ohh... horror! - os mais burros críticos do neo-liberalismo terão razão, ‘‘de tabela’’, não por méritos seus, mas pela mediocridade de seus inimigos. A verdade é sempre mais burra do que sonham os românticos. E a verdade é que estamos sem saída: nem socialismo nem liberalismo, nem ‘‘terceira via’’. Nada. Só a marcha do curto-prazo, pois não há mais futuro; só presente.
É doloroso vermos a América nesta ópera bufa. Por mais que os países excluídos, os underdogs odeiem os EUA, sempre tivemos uma fascinação por sua racionalidade superior de ‘‘grande potência’’, por seus sucessos científicos e econômicos. Mas, agora, em vez dos perfis confiáveis de Jefferson, Hamilton ou Lincoln, vemos os ‘‘três patetas’’ dando um vexame global de ridículos moralismos. É a revolução dos caretas.
E nós? Que lição podemos tirar deste lixo todo? O que está acontecendo com Clinton é semelhante ao que aconteceu com seu amigo FHC. Ambos estão sofrendo um contra-ataque da direita que ainda não tinha ‘‘se tocado’’ do perigo das ‘‘costureiras ideológicas’’ de terceiras-vias. Clinton e FHC estão sofrendo uma reviravolta conservadora, eles, os sorridentes bonapartistas que achavam que podiam conter as contradições nas mãos, como duas rédeas de cavalgar a história.
E que mais podemos aprender? Temos de aprender que esse papo de globalização da economia como uma ‘‘mão invisível’’ sem ideologia é um lero-lero. U bruto determinismo político disfarçado de ‘‘volatilidade’’ rege o mundo. A América Corporativa continua incapaz de contemplar diferenças e multi-culturalismos. E nós? Bem, temos de botar na cabeça que, se a globalização da economia é inevitável, é essencial protegermos nossas diferenças, que eles jamais respeitarão, claro, pois eles produzem os fatos que mudam nossa vida sem pedir licença, eles produzem as manchetes, os alarmes econômicos, os pânicos de mercado, todas as ‘‘verdades’’ que emanam de suas contabilidades e de seu cotidiano. Que temos nós a ver com a boca de Monica Lewinsky? Nada. Mas pagamos caro por estas trepadinhas mal dadas na Casa Branca.
Precisamos voltar a um sadio ‘‘nacionalismo’’. Ouso dizer. ‘‘Nacionalismo’’ sim, delimitação de fronteiras, de desejos, de comportamentos. Chega de antropologia. Ela já nos deu indigestão.

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