Que está acontecendo com o governo de FHC? Não passa uma semana sem que haja sabotagem a seus planos, uma traição, uma rasteira, uma casca de banana. Estão querendo levar o homem à loucura. Num país sem fidelidade partidaria, a não ser aos cargos e às gorjetas, é destino de todo presidente ficar cada vez mais sozinho. FH é prisioneiro de um labirinto... Por que? A culpa não é só desta cáfila de políticos que o cercam, a culpa não é só deste país de devoradores e picaretas. A culpa deve ser também dele. Que diria um livro de auto-ajuda para FHC? Aqui vão os conselhos ao presidente:
V. Excia, como muitos intelectuais, tem o perverso prazer de ser uma espécie de herói traído’’, um ‘‘mártir da razão’’, saboreando a incompreensão dos que o cercam, o que mostra sua solidão superior e gloriosa. Saia da posição de ‘‘mártir iluminista’’, presidente. V. Excia é respeitado lá fora e desrespeitado aqui dentro. Oxford compara-o Júlio César vencedor e aqui o senhor vive como um Júlio Cesar traído. V. Excia quer cruzar o Bubicão ou morrer apunhalado?
O povo tem por V. Excia uma simpatia real, mas imprecisa. Expressou-a nas urnas, pelo fim da inflação etc... e também por intuir uma decência diferente neste governo. Mas, ele não sabe bem porquê. Faça um esforço e aproxime-se da opinião pública, presidente, explique-lhe que reformas são essas, que ajuste é esse, que crise mundial é essa que nos atinge. Seu maior erro até agora foi este horror a um ‘‘populismo decente’’, enquanto seus adversários caem de boca na demagogia mais deslavada. Explique à população que se este projeto político-econômico parar no meio, a explosão das galáxias vai ser terrível. Aliás, presidente, demita sua equipe de comunicaçaõ social, a pior da história.
Seu gesto mais original, presidente, foi justamente cair de cabeça no Brasil real, feito de alianças perigosas e até espurias. V. Excia botou a mão na... massa. Tudo bem. Mas, 2002 já raiou no horizonte e a temporada das traições já começou. O senhor não tem apoio da esquerda para medidas ‘‘contra os ricos’’: taxar grandes fortunas etc. E não tem apoio da direita na hora azeda de ter de ser ‘‘impopular’’. O PFL, PMDB e o PPB vão posar de amantes do povo, às custas de V. Excia. Sua tática irresistível sempre foi a do ‘‘camaleão simpático’’: concordar com todo mundo e ir fazendo o que puder. Só que V. Excia foi virando um ‘‘Zelig’’, aquele personagem de Woody Allen que ia ficando igual aos interlocutores. Está acontecendo isto: em vez de eles se transformarem no senhor, o senhor corre o risco de se transformar neles. Diante de sua rebulosidade ambígua, presidente, seus inimigos se tornam nítidos. Todos ficam claros, menos o senhor... O senhor tem de ser mais legível para a população. Maluf é nítido e V. Excia é quem?
No Departamento de Economia, um pouco mais de Keynes e menos Adam Smith. O sonho da ‘‘mão invisível do mercado’’ deu na mão dando banana para os ‘‘emergentes’’. Tente recompor seu projeto original: usar a economia de mercado para dar um ‘‘twist’’ na inércia política endêmica e para dissolver velhas estruturas ibéricas. Mas, não confie demais num espontaneismo econômico que saneie estruturas fixas. Apesar de seu moderno amor à ‘‘complexidade’’, não pense que o Departamento de Vendas da Microsoft ou da Exxon-Mobil acredita em ‘‘indeterminismo de lucros’’. O elogio da complexidade pode levá-lo à aceitação da indiferença, ou da impotência. Não dá para ser muito complexo num país de simplistas. Sua vocação para conciliar contrários - desde sua tese de doutorado sobre capitalismo e escravidão, depois a teoria de dependência - está fazendo o senhor virar uma ponte solta no ar. Diante de sua tolerância sorridente, todos se acham no direito de reclamar e de lhe sabotar, porque depois serão ‘‘perdoados’’. Pau nos inimigos e traidores.
Sua tentação de ser um ‘‘déspota esclarecido’’ está lhe levando a ser ‘‘déspota solitário’’. Um déspota sem poder, preso dentro de dois anéis concêntricos: o jugo da economia externamente e a coleira das alianças PMDB, PFL et caterva, internamente. Um influenciado o outro, num círculo vicioso de profecias auto-realizáveis. Duas leis de Murphy girando em ‘‘oito’’. Maluf mexendo na Bolsa de Nova York; PFL irritando o FMI. É a globalização da escrotidão brasileira: Quem diria?
Democracia é vivida no Brasil como ‘‘zona’’. Serve para condenar homens de bem sem provas e para inocentar ladrões com provas. Vosso ilustrado amor à democracia trai um disfarçado desejo de fracassar em nome dela, para um dia dizer, gloriosamente deprimido: ‘‘Tentei tudo dentro da democracia... mas não deixaram!’’.
V. Excia já mostrou que a paciência é uma virtude revolucionária. Com todo o respeito, já sabemos que o saco de V. Excia é de ouro e diamantes. Mas, agora o senhor está sendo encurralado por seus próprios aliados, como um garoto de colégio que é ‘‘pele’’ da turma. Só há uma saída: Reaja, presidente, não adianta sensatez apenas. Ex: no episódio das fitas e grampos, V. Excia podia ter ido à TV denunciar o crime, não aceitar passivamente a demissão de alguns dos seus melhores quadros. Está na hora de perder a cabeça, presidente. Seu mais hábil ato político foi o risco de, antes das eleições, declarar ao povo a seriedade da situação. O povo leu bem sua sinceridade. O analfabeto sabe ler.
O Congresso está exercitando os músculos, no doce esporte de traí-lo. Se perderem o medo, o senhor está perdido. O senhor diz que vai punir os infiéis, cortando-lhes as ‘‘colheres de chá’, os pequenos favores, o ‘‘pork barrel’’, como dizem os sábios ingleses. Mas, eis o dilema: como construir outra base de apoio, negando o ‘‘porco’’ aos deputados e senadores? Não faça ameaças; ‘‘cumpra-as’’, primeiro. Está chegando a hora do medo, presidente. Do Collor, eles tinham medo até de levar porrada. O Itamar nos ameaçava com sua ranhetice: ‘‘Se me provocarem, faço uma bobagem!...’’ Está na hora do senhor provocar medo. Falando em termos sociológicos, um pouco mais de Hobbes e menos Locke. Depois da morte de Serjão, o ACM é seu único homem mau. O senhor conta com o ACM para lhe defender, como o menino que depende do irmão mais velho nas brigas de rua. Está na hora de partir para a porrada sozinho. Inclusive, porque um dia o ACM vai ter de largá-lo, para cuidar de 2002. Seja menos pós-moderno. Seja mais modernista, mais visionário. V. Excia precisa de uma ideologia para poder viver.

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