Arnaldo Jabor
- Lord Keynes!... que vai nos acontecer?
- Vocês foram ingênuos. Confiaram demais em exportações, no mercado aberto. Hoje sabemos que os países que se deram melhor foram aqueles, como os USA, que dependem menos de exportações. O mercado interno americano segura a economia; só 12% de seu PIB depende de exportações. Feito a Europa: 90% de sua renda vem de seu mercado interno. (Os atabaques ruflavam. As finas vozes das mulheres enchiam a noite). O que aconteceu nestes últimos anos, zifio, foi que os USA ficaram eufóricos com o fim da URSS e acharam que eram a resposta para tudo. Sua fome de domínio encontrou uma capa ideológica democrática e enfiaram o liberalismo econômico goela abaixo do mundo, como quem luta uma guerra. (A iaô dava gargalhadas de bruxa de teatro infantil, entre frases com sotaque britânico.) Cansados do ideologismo capenga do socialismo fracassado, vocês acharam que uma sadia des-regulação teórica, uma rejeição ao intelectualismo iria resolver tudo. Acharam que a marcha das mercadorias substituiria as velhas idéias do controle político da sociedade. Mas, como eu escrevi há 60 anos: Quando os homens práticos acham que os intelectuais não devem ser ouvidos, acabam escravizados pelo cérebro de algum economista defunto, no caso Adam Smith... Capitalismo tem de ser governado, zifio. (Lord Keynes dançava como uma pomba-gira). Que houve na Ásia, por exemplo? Foi só culpa deles, dos amarelinhos corruptos? Não. No jogo atual, o sucesso leva à desgraça. Ficaram tão bem os tigres, que o mercado mundial investiu neles 90 bilhões de dólares de que eles não precisavam para produzir. Receberam uma grana desnecessária e inflacionaram o mercado de imóveis, jogaram nas Bolsas em alta, compraram o Rockefeller Center, a Columbia... De repente, a grana sumiu toda, feito estouro da boiada. Alguns meses depois, temos 80 milhões de pobres, só na Indonésia. (Ajude esta gente, ó meu pai Oxossi, caçador das florestas!) Modéstia à parte, meu zifio, o grande sucesso deste século foi de 1945 até 1973, com a política que eu instalei em 1944, na Conferência Econômica. (Eu via Oxossi correndo nos bosques de Bretton Woods...) Com o regime de controles financeiros e de taxa de câmbio fixas foi possível reconstruir a Europa e a Ásia com 4% de crescimento ao ano. Os USA, como sempre, estragaram a festa. Nixon, em 73, acaba com o câmbio fixo e deixa o dólar flutuar. A partir daí, estava lançada a ciranda-cirandinha financeira, com o crescimento da volatilidade do dinheiro. Começaram 25 anos de ameaça de crises internacionais, que agora chegaram para valer. O crescimento do mundo de 1973 em diante caiu para um terço a menos.
Deste esta época, 69 países já tiveram sérias crises bancárias! E, quando a barra pesa, começam a ter saudades de mim, principalmente quando rico quebra. depois que o LTCM quebrou, deram para perguntar como você, zifio: que fazer para controlar uma economia interconectada? Há 60 anos que eu falo: controlar os fluxos de capital de investimento e criar um Banco Central mundial. Mas nunca quiseram. Quando eu sugeri isto, em 1941, uma União Internacional Financeira, o Roosevelt pulou e vetou. E hoje, é mais ou menos isso que a Europa está criando com moeda única, e ninguém me paga royalties. Eu imaginei uma espécie de FMI preventivo, com moeda própria, o bancor, que emprestasse dinheiro para economias com déficit comercial para que elas não precisassem aumentar juros nem desvalorizar câmbio. É muito mais fácil um país evitar a recessão do que sair dela depois. Não consegui. Só tivemos até hoje o FMI, que só chega para socorrer o doente depois que ele morre... O Brasil está agora acreditando no bom-pracismo pós-moderno do FMI, na amizade dos USA. Os economistas americanos parecem todos minhas crias: o Hrugman, o Sachs, até o Stiglitz que é do World Bank falam em mim, falam em controle de fluxos, em intervencionismos dos governos... O próprio FMI diz: precisamos voltar ao espírito de Bretton Woods...aha! aha!... O Clinton também fala: temos de evitar os ciclos de boom e bust, mas mantendo o capital fluindo livremente... Mas, como pode ser, se é justamente o capital sem controle que faz o boom virar bust? A tal arquitetura financeira nova para o mundo não sairá nunca porque ela é contrária ao espírito espontâneo e primitivo do capital. Olha meu zifio, está havendo no mundo dois desejos: um, ideológico, ético, querendo controlar a selvageria do capital. É um desejo tênue, frágil, que acaba assim que houver qualquer melhoria na situação financeira dos países ricos. O outro desejo, real, fundo, é o desejo da América Corporativa, que quer se expandir sem cérebro e sem controle. Eles querem acabar com a idéia de nações. Seu ideal irracional é uma economia mundial sem estado. Você já ouviu falar do MAI (Multilateral Agreement on Investment)? Não? Leia sobre isso. Está em marcha um plano de acabar com qualquer interferência dos Estados sobre o capitalismo global. Vão assinar um tratado internacional, no papel, com carinho e fitinha! Eu passei minha vida fazendo sucesso. Tive amantes, homens e mulheres, fiquei riquíssimo especulando na Bolsa, pois ninguém é de ferro, mas tentei sempre encontrar uma racionalidade mínima entre o capital e a justiça. A tal terceira via de que vocês falam tanto, fui eu que inventei. Funcionou 25 anos, se bem que eu não vivi para ver o boom até 1973. Eu fiquei doente logo depois da Segunda Guerra, quando fui negociar um empréstimo com o Truman e os banqueiros americanos, para tirar a Inglaterra do buraco. Foi a negociação mais terrível de minha vida, muito mais difícil que o Bretton Woods. Vitoriosos, com o país intacto, os americanos me levaram à loucura. Fiquei doente por causa deles. Eu escrevi na época: Os líderes americanos não têm noção do que seja cooperação internacional. Como eles são maiores, eles acham que têm o direito de ditar a regra em tudo. Duas semanas depois que voltei para a Inglaterra, eu morri.
- E o Brasil, Lord Keynes?
Quando eu disse esta frase, a iaô pulou no ar. Os tambores pararam. No silêncio da noite, Lord Keynes gritou, no meio de sua dança vertiginosa: Os orixás e os babás do fundo da floresta vão abrir teus caminhos! Oxalá abençõe vossuncê e o Brachil, meu zifio! Foi assim que eu me despedi de John Maynard Keynes, o espírito do momento.ReproduçãoJohn Maynard KeynesO espírito do economista da terceira via
é procurado em todos os terreiros
- Por favor, Lord Keynes, responda às minhas preces... O Brasil precisa do senhor! Eu implorei.
A negrinha iaô mexia os ombros, fungando baixo. De vez em quando, ela dava uns arrancos de cachorro atropelado, enquanto os atabaques batiam, hipnóticos, o Espírito de John Maynard Keynes (o economista de Cambridge, o líder de Bretton Woods, o esteta do Bloomsbury Circle que brilhava em Londres no início do século, o amigo de Virginia Wolf, Bertrand Russell, o celebradíssimo autor de Teoria Geral do Emprego, Juros e Preços, casado com a bailarina russa Lydia Lopokova só para despistar, porque Lord Keynes era - como direi? - também veado) relutava em baixar na iaô que tremia, ali no terreiro. Eu esperava, angustiado, pois a opinião do genial Keynes sobre o Brasil à beira do pacote era essencial. O babalaô deu um puxão nos cabelos da filha-de-santo, ela gemeu e caiu parada no centro do terreiro. e começou a falar inglês. Era lindo ver a filha-de-santo com sotaque de Cambridge.á
- Yes, my old chap, how can I help you?





