Eu não sei de nada; mas não estou sozinho. Ninguém sabe nada - esta a sensação que tenho andando pelos corredores do FMI, por entre a multidão de homens sérios, rosados, de pastas negras na mão. No entanto, dá para sentir um fato novo, até vagamente risível: a dúvida penetrou na alma clara e autoconfiante dos ‘‘mestres do universo’’, a estirpe de banqueiros, PHDs, Chicago Boys, traders jovens e fogosos que decidem em Wall Street os destinos políticos da Tailândia, da Coréia do Sul e o nosso. A dúvida flutua no ar e todos passaram a falar como filósofos, com frases cheias de mistério, de meios-tons, de preposições cautelosas. Parece até que Heidegger foi trabalhar no Deutsche Bank. Dá vontade de perguntar: ‘‘E então, Mr. Staley Fischer, o que é o Ser?’’
Há também prazer nestas novas falas calculadas, que emprestam um sabor profundo aos que antes falavam brutalmente de perda e lucro, de boom or bust do ‘‘Touro’’ e do ‘‘Urso’’. No meio deles, surgiu o ‘‘Bode’’. O absurdo do mundo penetrou o FMI, todos esperando um Godot que não chega. O economista prêmio Nobel que arrebentou o hedge fund LTCM disse, como um ‘‘Estragon’’ de Beckett: ‘‘Tudo estava previsto. Não podia acontecer o que aconteceu.’’ A limpidez dos termos técnicos legitima a continuidade do erro, como um lustro de ciência. Toda mea-culpa é permitida, desde que não se faça uma crítica política da economia, a suprema ‘‘gaffe’’. Por vezes, floresce um clima de piadas cultas, um doce ronronar acadêmico nos seminários, todos agradavelmente hedged do furacão, por estarem dentro dele, confortavelmente comandando-o como um navio na tempestade, dentro da cabine quentinha e com um bom cachimbo entre os dentes. Todos falam preocupadamente, percorrendo números complexos, para reprimir um pensamento cada vez mais forte: que talvez seja preciso mudar a própria linguagem com que se analisa o mundo financeiro. Aqui, ninguém menciona a idéia de poder, de hegemonia; todos falam, por exemplo, na loucura da alavancagem dos hedges-funds, que transformaram alguns milhões em um trilhão de borboletas e papagaios abstratos, mas ninguém diz que, por exemplo, a alavancagem poderia ser proibida por uma decisão mundial. Como? E vamos perder as fortes emoções de ganhar 50 por cento ao ano, apostando nas microdiferenças entre remotos papéis da dívida da Indonésia e do spread com os Bonds da casa do cacete? Todos falam numa ‘‘nova arquitetura econômica’’ para o mundo, mas ninguém sabe como ela seria. George Soros fala em restrições urgentes ao cassino global como um serial killer diria a polícia: ‘‘Prendam-me, antes que eu mate de novo!’’ Todos falam de um novo ‘‘Bretton Woods’’, um novo algo, mas ninguém menciona o terror: ninguém tem poder sobre o pesadelo que a informática e o mercado global criaram; não somos mais sujeitos, somo objetos. Falam muito para silenciar o grande segredo recalcado: a crise é do próprio modo de produção capitalista. O terrível é que a ‘‘causa profunda da crise está no fato de que os próprios países ocidentais industrializados atingiram, desde a década de 80, os seus limites internos de crescimento’’ (Robert Kurz). Ninguém toca nisso, claro, pois nada mais repulsivo que uma linguagem política neste universo clean. E, no entanto, o que pulsa ali
embaixo é o escondido poder, a usura secular, o velho cadáver de Marx debaixo da mesa...
‘‘O que deu errado?’’ - todos perguntam. Muitos dizem que a culpa do crash foi o crony capitalism (capitalismo clientelista, de patota) dos países emergentes corruptos, que não souberam se alinhar com as folhas de contabilidade americanas. Outros acusam os investidores, que derramaram bilhões de dólares nestes países sujos e sem confiabilidade. Ninguém se pergunta, contudo, se a culpa não estaria num concluio virtual entre os ‘‘mestres do universo’’ e este capitalismo primitivo ‘‘de patota’’, para se retardar a chegada de uma crise maior (the Big One) que ninguém quer ver.
Há um fato novo: antes, o FMI era criticado pela esquerda com cartazes na porta; hoje, quem o critica são os republicanos, como comentou o jornalista Carlos Eduardo Lins e Silva. Esta direita fundamentalista não quer que o FMI ajude ‘‘estes índios irresponsáveis’’ (nós). Negam-se a liberar dinheiro para que este ‘‘socialistazinho francês’’ (o Candessus!) tente tirar do buraco países que fazem ‘‘aborto ateu’’ e para não dar força a este adúltero-esquerdista-maconheiro Clinton. Eis o nível. O problema é que a economia virtual marcha na velocidade da luz e a política mundial na velocidade da cágado - com acento agudo no primeiro ‘‘a’’, bien sur...
Sente-se também que, do lado de fora das salas do FMI, já raiam nos países emergentes, nas filas de azeite da Indonésia, na Rússia quebrada, os sintomas da ‘‘suja’’ política nacionalista voltando. ‘‘Como? De novo? Logo agora que tínhamos alcançado o software infalível? O primeiro ministro de Cingapura, Goh Chock Tong já disse: ‘Esta negra crise da Ásia vai criar mais inimigos do Ocidente’’’. E o empurra-empurra já começou. Da França e da Inglaterra chegam remédios e mezinhas, ‘‘terceiras vias’’ (que ninguém sabe como aviar). Da Malásia, chegam protecionismos nascentes com o bode expiatório Anwar Ibrahim cheio de porrada, o ‘‘Clinton sodomita da Ásia’’. Do Japão, surge a preguiça revolucionária (‘‘nada faremos e dane-se!’’). Na China, quem não repatriar o dinheiro enviado ao Exterior morre com um tiro na nuca. Enquanto isso, os USA continuam com a receita única: abrir mercados, desregular e mostrar as contas. Dentro do FMI, alguns falam em bondade, em diminuir imposições, enquanto outros dizem que não dá para ‘‘reconstruir o hospital com os doentes na mesa de operações’’. Até Paul Krugman fala em controle de capitais voláteis. O Ali Alatas, chanceler da Indonésia, chorou outro dia num café da manhã: ‘‘Vocês diziam que tudo deu errado por culpa nossa; hoje sabemos que o erro veio de fora’’. O secretário do tesouro, Robert Rubin, e Larry Summers analisaram o fracasso neoliberal, comparando o ‘‘erro’’ à guerra do Vietnã (explicitamente, que bandeira!...), citando McNamara e reconhecendo que foram ‘‘rápidos demais em impor um modelo americano’’. É claro o esquema de poder: Rubin e Summers não escondem que foram correndo a Tóquio para sabotar o plano japonês de fazer um FMI na Ásia, de 100 bilhões (lembram-se?) para ‘‘não dar poder regional aos japorongas’’.
Ando pelos corredores do velho Shoreham, hotel dos anos 40, com a certeza de que alguma coisa só vai mudar se houver perigo para os americanos. Até agora, só arribam aqui os trilhões de dólares dos investidores em pânico, único porto seguro, dando lastro ao déficit americano, o maior do mundo. Mas, isso não é nada para quem tem 40 mil ogivas atômicas. Só que já surgiram nas ‘‘bocas’’ vários neo-mendigos nucleares, gente boa...Deus proteja este planeta azul!

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