São Paulo, 08 (AE) - O ex-mutante Arnaldo Dias Baptista conta uma história curiosa sobre o culto temporão que de vez em quando se abate sobre ele. Admirado pelo filho de John Lennon, Sean, o brasileiro resolveu corresponder-se com o garoto. Após uma troca de bilhetes, Arnaldo enviou-lhe um cartão com um conselho decisivo, que dizia: "Dê uma chance ao suficiente", trocadilho com a máxima filosófica de John Lennon, "Give peace a chance" (Dê uma chance à paz).
"Espero que ele entenda o recado", disse Baptista ontem, durante passagem por São Paulo, hospedado em um sobrado no Ibirapuera. Ele vive numa chácara em Juiz de Fora e só raramente bota o pé na estrada. O estilo parabólico de Arnaldo Dias Baptista pode parecer ingênuo, numa primeira leitura, mas é bem revelador. Evite o excesso, Sean. Seja conciso, busque a essência.
Vivendo uma espécie de eterno retorno desde os anos 80, Arnaldo Dias Baptista está de volta com um novo tributo - o disco "Onde É Que Está Meu RocknRoll?, do selo Dabliú Discos - e, em fevereiro, experimenta o desafio definitivo. É quando será lançado o disco Technicolor", pela Universal Music.
O disco "Technicolor" foi gravado em 1970 para a Polydor da Inglaterra, com versões inéditas de vários hits do grupo, com letras em inglês. A gravadora britânica, que buscava conquistar o mercado internacional para os Mutantes, desistiu do lançamento na época e a filial brasileira não se interessou pelo material. A matriz só foi encontrada recentemente.
Com a saída desse disco esquecido ("O melhor disco dos Mutantes em toda a história", segundo Arnaldo Baptista) e a conquista do mercado internacional com a coletânea "Everything Is Possible nos Estados Unidos pelo selo de David Byrne, o Luaka Bop, a banda de Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias entrou no rol dos artistas "indispensáveis" dos primórdios do pop - o mainstream internacional da música.
"Acho que é porque Os Mutantes não têm um estilo, uma nacionalidade específica", teoriza Arnaldo, que também prepara um novo disco-solo há pelo menos três anos - e não tem data para terminar. Será lançado pelo selo Baratos Afins, de Luiz Carlos Calanca, e tem nome "(Let It Bed", trocadilho com Let It Be e Let It Bleed, Beatles e Stones) e cinco músicas já prontas.
Mas ele mesmo não se mostra muito decidido ao falar de uma nova turnê. Não há músicos suficientes. Ele quer, como baixista, ninguém menos do que Jack Bruce, E como baterista poderia ser Bacalhau, da banda brasileira Little Quail". Arnaldo realmente gostou do que o músico fez na canção "Sr. Empresário", gravada na coletânea-tributo "Onde É Que Está Meu RocknRoll. Na opinião de Arnaldo, essa é a melhor das que se fizeram nos últimos anos - houve também Sanguinho Novo - Arnaldo Baptista Revisitado" (Suck My Discs/Eldorado, 1989) e Triângulo sem Bermudas".
Mas guitarrista mesmo, Arnaldo Baptista não vê nenhum pela frente. Por sinal, embora sempre dotado de um bom humor incrível, ele é ácido nos comentários sobre os ídolos da atualidade em todos os setores. "O Faustão disse que ia mostrar uma cantora, Mariah Carey, que mais vendeu discos nos anos 90", ele diz, divertido. "Eu nunca ouvi falar nessa Mariah". Outra tirada: "Kurt Cobain não kurtiu bain a vida", brinca. "Era meio deprê", afirma.
Ele diz que identifica "estereótipos marcantes" na música atual. Muita gente, de posse de um amplificador Marshall, pensa que pode ser Jimi Hendrix. "Mas você nunca vai soar como Hendrix sem um alto-falante Celestium", ele diz. Hendrix não é sua obsessão pessoal - ele prefere Jimmy Page, ex-Led Zeppelin.
"Hendrix tocava uma Fender, Page tocava uma Gibson", ele conta, sempre no seu estilo pré-tecnicista. "Com a Fender, tudo ficava maravilhoso, mas se tocado no máximo, ao passo que a Gibson você não pode botar o máximo nela porque satura, fica uma balbúrdia", ele conta. "Quando Hendrix estourava com uma Gibson, ele era um desastre", arremata.
As composições de Arnaldo Baptista e seus parceiros dos Mutantes (seu irmão Sérgio Dias e Rita Lee), realizadas no final dos anos 60 e começo dos 70, têm revitalizado o som de gente como Beck, Beastie Boys, Pato Fu, Cibo Matto, Júpiter Maçã, Stereolab e outros. Quando lançou seu antológico "Hello Nasty, o trio de hip-hop Beastie Boys creditou à música brasileira o seu novo fôlego criativo. "Acho que isso se deve ao fato de que ouvimos um pouco de música brasileira: Tom Jobim, Jorge Ben Jor, Mutantes", disse Adam Yauch, dos Beastie Boys.
Apesar disso, os esforços das gravadoras brasileiras em garimpar e atualizar o legado dos Mutantes ainda são tímidos. Há um disco, gravado por Arnaldo e a banda Patrulha do Espaço em 1986 (É um Pouco Assustador"), que está engavetado na Virgin Records, por conta de uma disputa jurídica dos músicos do grupo. Poderia tranquilamente ser relançado.
Mas é cada vez mais intenso o resgate, a curiosidade e a influência que voltam a exercer no som revigorado dos anos 90. O gaitista Flávio Guimarães, do Blues Etílicos, prepara disco-solo no qual deve gravar o blues "É Um Pouco Assustador, de Arnaldo. O cérebro parabólico dos Mutantes, por seu turno, não tem mais pressa de nada. "Pode ser que eu vá ao zoológico e volte correndo, motivado para escrever uma música por uma pata de elefante", ele diz, mais ocupado hoje com seus quadros, um surrealismo tropicalista influenciado por Dali e Magritte.

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