Trabalhando com o poeta João Bandeira na seleção dos textos para ‘‘40 Escritos’’, Arnaldo Antunes sentiu-se inseguro. ‘‘Será que a grandeza desses textos não está justamente no caráter passageiro?’’, questionava-se, já que a maior parte dos textos que compõem a reunião que lança amanhã em São Paulo foi anteriormente publicada em jornais e revistas.
Ao mesmo tempo, essa produção – que ele classifica como ‘‘efêmera’’ por estimar serem cerca de 60, em 20 anos –, acumulada em uma pasta, revelou temas recorrentes. E foi a busca por retratar uma coerência de seu pensamento que, de certo modo, norteou a seleção. Música, literatura, comportamento e artes plásticas dominam o volume, composto de artigos, prefácios e releases.
‘‘Para além da diversidade que o livro abarca, tem algo ali que compõe um pensamento meu, muito pessoal, sobre a cultura em si e questões que me são caras’’. ‘‘É como se cada texto que eu fizesse fosse engrossando cada vez mais esse contexto comum a eles.’’
Por isso não retirou nem os que julgava ‘‘ingênuos’’ e os organizou em ordem cronológica, do primeiro – da revista de poesia ‘‘Almanak 80’’, que o ex-estudante de Letras da USP editava – até o mais recente – de 99, original de um livro sobre o artista plástico Nuno Ramos.
O que torna coeso o apanhado de duas décadas, segundo Antunes, é o cuidado com a palavra. ‘‘Tem uma intersecção a tudo que eu acabo produzindo – na música, artes plásticas, literatura – que é o tato com a palavra em si: eu não faço música instrumental, eu faço canção; eu não faço artes plásticas, faço instalações de poesia visual.’’ Para amarrar o conjunto, o próprio músico se encarregou do design do volume.
O interesse pelo aspecto gráfico, aliás, nasceu já com o primeiro livro, ‘‘Ou E’’, de 81, uma edição artesanal de 500 exemplares, com os textos em escritura manual. ‘‘Assim como a gente tem recursos de entonação com a fala, queria criar um similar de entonação gráfica’’.
Não por acaso, há um texto sobre caligrafia no volume e também nela se baseia a capa do livro, o que acaba reforçando o caráter memorialístico de ‘‘40 Escritos’’. Quem lê o livro, afinal, tem uma boa idéia de como ele pensa? ‘‘Acho que sim. Reli o livro já impresso. É uma coisa quase autobiográfica, é engraçado, porque são só textos comentando o trabalho de outras pessoas, mas me vejo muito no livro e, de certa forma, tem uma coerência muito grande entre os textos mais antigos e os de hoje.’’
Apesar de admitir que vende mais livros de poesia do que outros brasileiros, Antunes diz não ter um ‘‘público-alvo’’ (‘‘senão seria publicitário’’) e que escreve movido por sua ‘‘ansiedade’’.
‘‘Tem um título que eu invejo, que o (poeta Paulo) Leminski deu para um livro de ensaios dele, ‘‘Anseios Críticos’, que eu daria para esse livro. Porque são quase ensaios; nunca tive a pretensão de ser um teórico, ou um crítico. São textos críticos de alguém que se considera, antes de mais nada, um criador. Por isso quis chamar de ‘‘40 Escritos’, que é um termo bem vago’’, conclui, rindo.O livro de Arnaldo Antunes é um lançamento da editora Iluminuras e custa em média R$ 25.

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