ARNALDO ANTUNES LANÇA '40 ESCRITOS'
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 20 de setembro de 2000
Francesca Angiolillo Agência Folha 
Trabalhando com o poeta João Bandeira na seleção dos textos para 40 Escritos, Arnaldo Antunes sentiu-se inseguro. Será que a grandeza desses textos não está justamente no caráter passageiro?, questionava-se, já que a maior parte dos textos que compõem a reunião que lança amanhã em São Paulo foi anteriormente publicada em jornais e revistas.
Ao mesmo tempo, essa produção que ele classifica como efêmera por estimar serem cerca de 60, em 20 anos , acumulada em uma pasta, revelou temas recorrentes. E foi a busca por retratar uma coerência de seu pensamento que, de certo modo, norteou a seleção. Música, literatura, comportamento e artes plásticas dominam o volume, composto de artigos, prefácios e releases.
Para além da diversidade que o livro abarca, tem algo ali que compõe um pensamento meu, muito pessoal, sobre a cultura em si e questões que me são caras. É como se cada texto que eu fizesse fosse engrossando cada vez mais esse contexto comum a eles.
Por isso não retirou nem os que julgava ingênuos e os organizou em ordem cronológica, do primeiro da revista de poesia Almanak 80, que o ex-estudante de Letras da USP editava até o mais recente de 99, original de um livro sobre o artista plástico Nuno Ramos.
O que torna coeso o apanhado de duas décadas, segundo Antunes, é o cuidado com a palavra. Tem uma intersecção a tudo que eu acabo produzindo na música, artes plásticas, literatura que é o tato com a palavra em si: eu não faço música instrumental, eu faço canção; eu não faço artes plásticas, faço instalações de poesia visual. Para amarrar o conjunto, o próprio músico se encarregou do design do volume.
O interesse pelo aspecto gráfico, aliás, nasceu já com o primeiro livro, Ou E, de 81, uma edição artesanal de 500 exemplares, com os textos em escritura manual. Assim como a gente tem recursos de entonação com a fala, queria criar um similar de entonação gráfica.
Não por acaso, há um texto sobre caligrafia no volume e também nela se baseia a capa do livro, o que acaba reforçando o caráter memorialístico de 40 Escritos. Quem lê o livro, afinal, tem uma boa idéia de como ele pensa? Acho que sim. Reli o livro já impresso. É uma coisa quase autobiográfica, é engraçado, porque são só textos comentando o trabalho de outras pessoas, mas me vejo muito no livro e, de certa forma, tem uma coerência muito grande entre os textos mais antigos e os de hoje.
Apesar de admitir que vende mais livros de poesia do que outros brasileiros, Antunes diz não ter um público-alvo (senão seria publicitário) e que escreve movido por sua ansiedade.
Tem um título que eu invejo, que o (poeta Paulo) Leminski deu para um livro de ensaios dele, Anseios Críticos, que eu daria para esse livro. Porque são quase ensaios; nunca tive a pretensão de ser um teórico, ou um crítico. São textos críticos de alguém que se considera, antes de mais nada, um criador. Por isso quis chamar de 40 Escritos, que é um termo bem vago, conclui, rindo.O livro de Arnaldo Antunes é um lançamento da editora Iluminuras e custa em média R$ 25.


