Arnaldo Antunes, entre imagens e palavras
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Marco Rodrigo Almeida<br> Folhapress 
Quem acompanha o trabalho de Arnaldo Antunes não será surpreendido ao encontrar entre as páginas de ''n.d.a.'', novo livro dele, imagens de portas, pés, guarda-chuva, ovos e placas.
A poesia que nasce do estranhamento e do inusitado é uma busca constante para ele, que trafega com igual naturalidade pela música, literatura e artes plásticas.
Em ''n.d.a.'' esses talentos se misturam com naturalidade. Arnaldo, como de costume, assina o projeto gráfico do livro, que parte de uma ''viagem'' que faz com a configuração gráfica das palavras, processo fundamental de sua criação.
A experiência lúdica já começa pela título. O autor propõe um diálogo entre ''n.d.a.'' e ''Nada de DNA'', seção do novo livro que já constava na antologia ''Como É que Chama o Nome Disso'', de 2006, mas só agora foi publicada como parte de um volume inédito.
A escolha da foto da capa, um ovo com uma vírgula desenhada na superfície, também resultou de um longo processo de ''gestação''.
A imagem já o perseguia desde ''Ou e'' (1983), seu primeiro livro de poesia. ''Tem a ver com continuidade, dialoga com a ideia de nada, de DNA.'' E a misteriosa e solitária vírgula? ''É uma referência à linguagem. Tirada de seu lugar natural, a frase, a vírgula perde sua função e ganha outro sentido.''
Entre o que é racionalizado e o que escapa das explicações, não será difícil para o leitor ''ouvir'' em alguns dos poemas a voz metálica do autor, ao som de guitarras ao fundo.
A musicalidade é ressaltada em muitos deles, como ''Ela e Você'', que faz lembrar a canção ''Essa Mulher'', do CD ''Paradeiro'', e em ''n.d.a.'', que dá nome ao volume.
Coincidência ou não, o livro foi concebido durante as gravações de ''Iê Iê Iê'' , CD em que ele buscava a melodia perdida pelo rock nos últimos anos.
A interação é frequente na carreira de Arnaldo. Poemas já viraram faixas de CD (''As Coisas'', ''Dinheiro'') e canções (''O Quê'') foram publicadas como poesias. ''Uma coisa alimenta a outra. Desde o modernismo, passando pela bossa nova, pela poesia concreta, pelo tropicalismo, as fronteiras entre música e literatura já foram quebradas.''
Além de imagens de exposições realizadas por ele, ''n.d.a.'' revela um hobby de Arnaldo: fotografar placas e escritos urbanos nas cidades que visita.
Parte da coleção, iniciada há mais de dez anos, foi publicada em forma de cartões postais. A palavra escrita mesclada à imagem rende flagrantes inusitados, como no cartão que mostra uma caçamba, repleta de lixo, onde está escrita a palavra ''divino''. ''É um esboço de um projeto que quero desenvolver mais profundamente no futuro: fazer um livro só com esses cartões, como se fosse uma história em quadrinhos.''
SERVIÇO
- N.D.A.
Autor - Arnaldo Antunes
Editora - Iluminuras
Quanto - R$ 44 (208 págs.)


