O pai ouvia música erudita. A mãe apreciava Dorival Caymmi. O irmão mais velho curtia rock progressivo. O cadeirão sonoro formado por essa mistura de estilos foi determinante na formação musical de Arnaldo Antunes. O lado roqueiro já conhecido pelo grande público ganhou um tempero extra no mais recente trabalho do cantor e compositor paulista, que resgatou a influência materna no CD intitulado “RSTUVXZ”. O repertório do álbum que mistura rock e samba está sendo levado aos palcos na turnê homônima que chega a Londrina neste sábado (23), às 20h30. A apresentação que acontece no Teatro Ouro Verde encerra a programação 2019 do projeto Circulasons.

No show, Arnaldo Antunes não faz exatamente uma fusão de gêneros, mas trabalho com os atritos, as diferenças
No show, Arnaldo Antunes não faz exatamente uma fusão de gêneros, mas trabalho com os atritos, as diferenças | Foto: Divulgação

O álbum “RSTUVXZ” reforça a inspiração tropicalista de Arnaldo Antunes, que sempre trabalhou com diversos ritmos brasileiros. O samba, em particular, aparece na obra do artista desde os anos 1980, quando o cantor apresentou o show solo "Samba Rock", idealizado por Waly Salomão. Desde então, Arnaldo regravou vários clássicos - de Adoniran Barbosa a Noel Rosa -, fez parceria com Paulinho da Viola, Marisa Monte e gravou com os Demônios da Garoa no DVD "Ao Vivo Lá em Casa."

“Eu já cresci dentro dessa diversidade. Como ouvinte, minha formação foi toda diversa, mesmo. Quando comecei a comprar meus primeiros discos, me interessei pela música popular brasileira, pelo rock’n’roll e por outras fontes que foram pintando. Conforme fui crescendo, comecei a me interessar também pelo reggae, funk, flamenco, fado, música africana. Mas o samba, desde menino, faz parte da minha formação como ouvinte e, quando comecei a compor, tinha esse desejo de aprender a tocar sambas do Ary Barroso, do Caymmi”, relata.

Ao misturar samba e rock, Antunes buscar evidenciar as diferenças entre os dois estilos. “Tem muita gente fazendo coisas que fundem os gêneros. Eu quis fazer um trabalho diferente, que não seria uma fusão, mas evidenciaria os atritos, as diferenças. Agora é claro que não é um rock standard, nem um samba standard. É o meu rock, o meu samba. Inclusive, no disco eles foram gravados com os mesmos músicos, tanto os rocks quanto os sambas. Então eu quis fazer uma coisa original a partir desses atritos”, destaca.

No show, Arnaldo Antunes não faz exatamente uma fusão de gêneros, mas trabalho com os atritos, as diferenças
No show, Arnaldo Antunes não faz exatamente uma fusão de gêneros, mas trabalho com os atritos, as diferenças | Foto: Divulgação

O cantor que tem se apresentado com os músicos Curumin (bateria, violão e programações) e Betão Aguiar (baixo, guitarra e violão) revela que o novo o show mistura coisas novas e músicas já consagradas. “O show acaba tendo repertório deste disco novo, mas eu também colhi sambas e rocks de outras fases e algumas releituras, inclusive “Judiaria”, do Lupicínio Rodrigues, como um rock; e “Exagerado”, do Cazuza, como samba-canção. Então é toda uma brincadeira em torno do convívio desses dois gêneros que no fundo têm muita afinidade pelas raízes africanas nas Américas. Tem canções mais antigas, como 'Alegria Televisão e Comida”, adianta.

Diante do atual cenário político brasileiro, Antunes acredita na arte como forma de resistência. “Eu acho que a gente vive um momento de hostilidade à cultura, à educação e a muita coisa que a gente preza. Só o fato de estar fazendo música, arte, poesia e cinema no Brasil, já é, vamos dizer assim, uma subversão da ordem, que é anticultural, que é contra o crescimento da consciência. Então a gente está trabalhando com uma resistência ativa. Eu de certa forma “plantei”, há poucos dias, uma música que fala um pouco sobre esse momento e se chama “O Real Resiste”. É o primeiro single de um próximo álbum, que sai no começo do ano que vem”, ressalta ao comentar sobre o novo trabalho. "Não dá para antecipar ainda muita coisa. Mas o nome do disco vai ser 'O Real Resiste', com dez músicas que foram gravadas em julho do ano passado. É um disco sem bateria, com instrumentos de corda e piano”, comenta.

A vinda de Arnaldo Antunes representa o 10º show do projeto Circulasons, criado pela pesquisadora, curadora e produtora Janete El Haouli em 2018 para desenvolver, em Londrina, um circuito de shows, palestras, workshops e lançamentos de livros, entre outros eventos

Serviço:

Arnaldo Antunes – Show “RSTUVXZ”

Quando - Sábado (23), às 20h30

Onde – Teatro Ouro Verde (R. Maranhão, 85)

Quanto – R$ 70 (meia-entrada) e R$ 140 (inteira)

Pontos de Venda - Loja Ciranda, Brasiliano Bar & Cozinha e Bilheteria do Teatro Ouro Verde

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