SÃO PAULO - Nos loucos anos 1980, Arnaldo Antunes, ainda integrante dos Titãs, convidou Haroldo de Campos para sair em turnê, viajando no ônibus da banda. Findo um dos shows, o poeta concreto se viu rodeado por jovens descamisados, que mais pareciam um time de rúgbi, entoando cantigas para celebrar o visitante erudito. Em dado momento, Haroldo não resistiu à tentação de teorizar o que acabara de ver em cena. Disse que, em oposição à coreografia mais placentária do vocalista Branco Mello, a performance de Antunes se assemelhava à estrutura cubista, porque sua movimentação engendrava, no espaço vazio, ângulos, vértices e arestas.

O tempo passou, mas a dança é a mesma. Aos 64 anos, Antunes cultiva uma postura combativa para enfrentar os desafios do novo século. Com socos, cotoveladas e pontapés, ele escancara o "Novo Mundo", novo disco de sua carreira solo, que acaba de chegar às plataformas digitais.

Conhecido pelo trânsito livre entre as artes, da performance à música, Antunes é, antes de tudo, um poeta, tendo encontrado na palavra escrita seu lugar existencial. Herdeiro do concretismo na MPB, ele explora a linguagem "verbivocovisual", isto é, a dimensão verbal, vocal e visual da palavra, podendo ocupar diferentes funções, incluindo a de cantor e compositor.

Os primeiros meses deste ano, no entanto, trouxeram a ele más notícias. O acervo de seu amigo, Haroldo, foi removido da Casa das Rosas, instituição vinculada ao governo do estado de São Paulo, e está agora inacessível aos pesquisadores, trancado em um depósito em Barueri, a 30 quilômetros da capital paulista.

"É uma indignação enorme, um descaso. O acervo foi para um porto que era para ser seguro, e o valor daquilo é imenso para a cultura brasileira. Foi um baque. Acho que as autoridades que tomaram essa decisão tiveram um descuido imperdoável e isso precisa ser corrigido", afirma Antunes.

Não por acaso, as canções do novo álbum se relacionam em um contexto de urgências. Na faixa de abertura, que nomeia o disco, Antunes tematiza a conjuntura de guerras, de emergência climática e a desumanização, causada pelo avanço tecnológico.

Antunes diz que a preservação ambiental voltou à pauta no governo Lula, do PT, mas os esforços políticos para o desenvolvimento sustentável ainda são insuficientes. "O Brasil caminha a passos lentos, existe um Congresso muito conservador, existem forças muito reacionárias administrando essa questão", afirma.

Entre as 12 faixas de "Novo Mundo", algumas participações se destacam. A cantora Ana Frango Elétrico entoa o iê-iê-iê "Pra Não Falar Mal". Já o americano David Byrne, fundador da banda Talking Heads, é parceiro de Antunes nas duas faixas que divide os vocais —"Não Dá para Ficar Parado Aí na Porta" e "Body Corpo", ambas cantadas em inglês e em português.

"Novo Mundo", em suma, não configura uma distopia, mas expõe a realidade tal como se apresenta hoje.

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