Arnaldo Antunes apresenta novo show no Sesc Vila Mariana
São Paulo, 26 (AE)- Música para ouvir sentado - ou não, se o espectador preferir arriscar uns passos na pista do Sesc Vila Mariana. É lá que, amanhã e quinta-feira, o cantor, compositor, poeta, videomaker e artista performático Arnaldo Antunes apresenta seu show "Um Som" - também título de seu quarto disco-solo, lançado pela gravadora BMG em meados do ano passado.
Com o sucesso de estação da canção "Música para Ouvir", feita em parceria com o guitarrista de sua banda, Edgard Scandurra, Arnaldo Antonio Nora Antunes Filho, de 38 anos, parece que reverteu definitivamente a impressão que seu primeiro disco, "Nome", de 1993, deixara inicialmente - a de que o tipo de trabalho que fazia não encontraria ressonância no grande público. Era um sentimento que cresceu após sua saída do grupo Titãs, banda que ajudara a formar em 1982.
Mas Arnaldo Antunes prosseguiu em seu caminho, buscando tornar seus discos mais próximos de um conceito de "música popular", sem, no entanto, abrir mão de alguns preceitos éticos. Fez música para a TV (Mão, para o Castelo Rá-Tim-Bum da TV Cultura), música para fazer criança dormir (Dorme, faixa do CD Canções de Ninar, organizado por Luís Tatit) e trabalhou febrilmente nos últimos seis anos.
O CD "Um Som", que traz a marca do produtor mais badalado da atualidade, Chico Neves (Paralamas, Barão Vermelho), mostra que Arnaldo conseguiu finalmente equacionar sua preocupação de fazer uma constante pesquisa de linguagem e também de achar uma maneira de falar mais diretamente com o público. Falou também com seus pares: Arnaldo Antunes tem cerca de 150 músicas gravadas por músicos tão diferentes entre si como Jorge Benjor, Marisa Monte, Gilberto Gil, Carlinhos Brown, Cazuza, Roberto de Carvalho, Arrigo Barnabé e Frejat.
Por seu trabalho na pesquisa das linguagens, foi indicado ao Prêmio Multicultural Estadão, que o jornal O Estado de S.Paulo entrega anualmente, ao lado de personalidades como o diretor José Celso Martinez Correa, a cientista social Maria Isaura Pereira de Queiroz, o compositor Marco Antonio Guimarães, o psicanalista Jurandir Freire Costa, o diretor Julio Bressane e o editor Samuel Leon. "Eu me sinto absolutamente à vontade com essa indicação, porque é justamente essa a preocupação do meu trabalho", disse Arnaldo, que na quinta-feira esteve tocando no Festival de Verão de Salvador. Esta semana, está enfiado em estúdio gravando a trilha do novo balé do Grupo Corpo.
O show é uma extensão dessas conquistas do artista. Ele canta acompanhado de Edgard Scandurra (guitarra), Paulo Tatit (baixo), Arthur Guidi (violão), Guilherme Kastrup (percussão), Curumim (bateria) e Zaba Moreau (teclados). A novidade na banda é o baterista Curumim, que substitui Petro Ito, antigo parceiro de Arnaldo que foi morar nos Estados Unidos.
Uma das novidades do show são os figurinos e os cenários, assinados pela bailarina e coreógrafa Suzana Yamauchi. Ela criou displays eletrônicos que dão uma certa mutabilidade à cena. "Uma simultaneidade interessante, porque evoca uma coisa bem urbana, como se fosse aqueles displays eletrônicos de rua passando textos", pondera Arnaldo.
Arnaldo Antunes insere-se numa tradição relativamente recente da música brasileira, que é a de converter à "palavra cantada" artistas que vêm de uma formação mais literária - como foram os casos de Torquato Neto e Paulo Leminski. Mas ele considera que toda sua atividade é relacionada a sua curiosidade artística, que não vê barreiras de especialização.
Arnaldo já publicou cinco livros de poesia "Ou/E", "Psia", "Tudos", "As Coisas" e "Nome". Quando deixou os Titãs, lançou seu primeiro e mais ambicioso projeto: o disco, o vídeo e o livro reunidos no kit "Nome". Uma das faixas do disco, "Dentro", era ilustrada com as imagens de uma endoscopia realizada no tubo digestivo do próprio artista.
Embora reconheça que é a capacidade camaleônica de São Paulo o que mais se assemelha à sua personalidade artística, Arnaldo é sempre reconhecido como um músico essencialmente paulistano. De fato, é: nasceu na Rua Sagarana, no Alto de Pinheiros, filho de um professor universitário e uma dona de casa.





